Porque tenho orientação política à direita

Considero-me de extrema-direita, muito embora essa orientação política esteja fora de moda. Nesse texto, tento explicitar os motivos dessa escolha, bem como racionalizar algumas opiniões a respeito de certos assuntos que costumam dividir "esquerdistas" e "direitistas".

Num desses testes que rolam na Internet, que classificava uma pessoa num plano político bidimensional, fiquei exatamente no meio (0,0), o que contradiz a priori minha alegada queda à direita.

Em primeiro lugar, é preciso definir o que é ser de direita, o que implica em definir o que é ser de esquerda. Isso não é tão fácil quanto parece.

Para um norte-americano, governos autoritários são quase sinônimos de esquerda, ou comunismo, por conta da lembrança da URSS. Porém, o nazismo foi o governo mais totalitário que se tem notícia, e é classificado como extrema-direita. Da mesma forma, controle sobre a economia é considerada coisa de governos de esquerda, mas novamente o nazismo foi um grande interventor da economia, e o próprio regime militar brasileiro criou uma economia altamente estatizada.

Assim, já temos 2 dimensões: autoritarismo e controle sobre a economia, que são (quase) ortogonais. Poderíamos listar mais inúmeras dimensões que definem a orientação política de uma pessoa, invalidando totalmente rótulos simplistas como direita ou esquerda.

A minha própria noção de esquerda/direita eu tomei emprestada de um livro denominado "Sociologia Jurídica", utilizado por primeiranistas de Direito. Em resumo, o autor do livro prega que o conflito político básico é entre IGUALDADE e LIBERDADE. Ambos são o objetivo final da humanidade, mas é impossível ter um plenamente sem prejudicar o outro.

Igualdade entre os homens é quase sinônimo da igualdade social: iguais riquezas e oportunidades a todos. Não se trata de igualdade numérica absoluta. O conceito de igualdade política açambarca a eqüidade e o tratamento proporcional de desigualdades. O lema do socialismo é: "De todos segundo a sua capacidade, para todos segundo sua necessidade". O lema da igualdade jurídica é "tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, proporcionalmente à desigualdade".

Ou seja, não estamos neste artigo discutindo (e criticando) a igualdade basal: onde todo ser humano é considerado como tal, não havendo distinções de raça ou credo como já houve no passado. Tal nível de igualdade é indiscutivelmente necessário; tal igualdade é realmente uma conquista importante da humanidade.

Liberdade é a possibilidade de cada indivíduo fazer o que quiser. Essa liberdade não é absoluta; quase todo direito e/ou religião possui a "regra de ouro" em seu código, num dos seguintes sabores: "você é livre exceto para invadir a liberdade alheia", ou "não faça aquilo que você não gostaria que lhe fizessem (judaísmo)" ou "faça aos outros o que gostaria que lhe fizessem (cristianismo)". Ainda do cristianismo vem a máxima "Tudo é permitido, mas nem tudo convém".

Talvez não esteja claro por que esses dois valores sagrados conflitem. A visão de Paraíso prometida pela maioria das religiões é, essencialmente, um novo mundo onde desfruta-se infinitamente dos dois privilégios. Não pode existir lugar melhor que aquele onde você tem as mesmas oportunidades que todos, cada um só faz o que quer, e todos (voluntariamente) trabalham para o bem comum.

O problema é que não estamos no paraíso, e sim no mundo real. Aqui embaixo, criar igualdade implica em reduzir a liberdade. Por que?

Pensando apenas em termos econômicos para simplificar o argumento, digamos que alguém queira melhorar a distribuição de renda. Isso implica em tirar renda, via impostos ou outro meio, do rico e dar para o pobre. O rico teve sua liberdade subtraída, pois não pode fazer o que quer com o dinheiro que, em tese, trabalhou honestamente para ganhar.

Num mundo ideal, o rico iria, usando sua liberdade, pegar parte de sua renda e doá-la ao pobre, ou tomar alguma providência para que a diferença entre um e outro diminuísse no futuro, mas convenhamos que isso não é comum. O pobre também deveria agarrar a chance e procurar também, por seu lado, estreitar a desigualdade, mas infelizmente isso também não é a regra.

O fato é que a liberdade total tende a gerar desigualdade, mesmo considerando a liberdade no sentido jurídico, onde as pessoas têm ao menos que obedecer à lei.

O exemplo econômico mais à mão é a Revolução Industrial - as pessoas tendo de trabalhar 18 horas por dia em condições sub-humanas. Elas tinham liberdade jurídica de não fazê-lo, mas se não o fizessem, de onde tirariam seu sustento? Outro exemplo do mesmo gênero é a formação de cartéis, "trusts" e monopólios.

Ainda outro exemplo é a dificuldade do mercado estabelecer padrões, eventualmente um padrão imposto pelo Estado (e.g. padrão celular GSM na Europa) pode ser - contra-intuitivamente - muito benéfico.

Nesta linha, o lema da Revolução Francesa, "liberdade, igualdade e fraternidade" encerra um paradoxo - a liberdade e a igualdade conflitam; e apenas a fraternidade pode mediar esse conflito.

Muito bem. A *minha* definição particular de "esquerda" e "direita" é esta:

* a pessoa com orientação política à esquerda privilegia a igualdade como maior bem social;

* a pessoa "de direita" privilegia a liberdade como maior bem social.

Esta me parece a definição que mais eficientemente condensa o conjunto de opiniões políticas de um indivíduo ou determinado grupo. Daqui por diante, se eu digo que isto é de direita ou de esquerda, queiram entender por "libertário" ou "igualitário".

Se eu me auto-declaro como de extrema-direita, isso quer dizer que sou ardoroso defensor da liberdade, e um fraco defensor da igualdade.

Realmente considero a liberdade como um bem social mais valioso que a igualdade, pelos seguintes motivos.

FABRICAR IGUALDADE SAI CARO EM TERMOS DE LIBERDADE

Numa sociedade onde os dois valores são desequilibrados, é preciso "vender" um pouco de um valor, para "comprar" o outro. Mas essa troca é não-linear e sujeita a histereses.

Numa sociedade 100% livre e 0% igualitária, tirar um pouquinho de liberdade "compra" grandes quantidades de igualdade, pelo menos no campo econômico.

Na Revolução Industrial, após os problemas sérios com o tratamento desumano da mão-de-obra, uma série de movimentos sociais conseguiu fazer passar leis trabalhistas. Isso representou uma pequena restrição de liberdade - altamente necessária e benéfica, diga-se de passagem - em favor de um grande acréscimo no tratamento igualitário.

E, ao contrário do que os libertários "roxos" achavam, isso não impediu a Inglaterra de continuar dominando o mundo por sua força industrial. Um pouco mais tarde, Henry Ford descobriu que operários bem pagos e descansados davam lucro, pois podiam comprar o automóvel que eles mesmos fabricavam, gerando um ciclo fechado que enchia os bolsos de Ford a cada rodada.

Possivelmente, Marx pensou: se promover tão pouco de igualdade produz um excelente resultado, o processo tem ser repetido ad infinitum. Ele não viveu para saber, mas nós sabemos, pelo trágico fim dos países que tentaram esse caminho, que isso não funciona.

O processo descrito acima é sujeito a histereses, ou seja, não é prontamente reversível. Abandonar a igualdade pode não resultar em liberdade alguma, e acabamos sem coisa nenhuma. Liberdade total é fácil de consertar; igualdade total é um caminho de volta difícil, e um bom exemplo disso é a situação atual dos países do antigo bloco comunista -- estão conseguindo se levantar, mas num ritmo dez vezes mais lento que o originalmente previsto.

Um aparte interessante sobre a situação desses países. Alguns esquerdistas gostam de citar que "a Rússia capitalista é ainda pior que a comunista". De fato, a URSS tinha em sua Constituição normatizado que era um bloco comunista. Mas duvido esteja escrito em qualquer documento legal que a Rússia seja, hoje, capitalista. Ela é simplesmente não-comunista. Se uma economia dominada por mafiosos ex-funcionários do Partido pode ser considerada capitalismo, aí está algo sujeito a discussão.

Interessante notar que o próprio Lenin notou essa inexistência de "rosto" do capitalismo. Era difícil conclamar o mundo a lutar contra o capitalismo pois não estava escrito na pedra que país X, Y ou Z era capitalista ou não.

Afinal, o que é capitalismo? A Finlândia é capitalista? O Irã é capitalista? O Brasil é capitalista? Este eu tenho quase certeza que não; um país que recolhe 40% do PIB em impostos está longe de ser realmente capitalista.

Lenin não viveu para descobrir que o monstro chamado capitalismo que ele imaginava dominar o mundo em 1917, talvez fosse uma ficção. O único país declaradamente capitalista do mundo são os EUA, e neste caso o capitalismo tem falhado consistentemente em "dominar o mundo", já que está aí há 3 séculos e só arregimentou um único associado.

Também há o interessante caso oposto da China, que é um país que se declara comunista mas tem um inequívoco capitalismo de Estado (que ainda por cima é totalmente dependente do mercado dos EUA).

A IGUALDADE É UM BEM SOCIAL FRACO

A igualdade é um bem "fraco", quase um ouro de tolo; e como disse um pensador grego cujo nome não me recordo agora, "não basta levantar o fraco, é preciso sustentá-lo". Uma grande restrição de liberdade se faz necessária para criar uma sociedade igualitária. E mais restrições continuam sendo necessárias para manter o status quo.

Embora governos de todo o gênero já tenham recorrido a restrições de liberdade para diversos fins, tais restrições são dogmáticas em governos do tipo socialista ou comunista - ou seja, não é um desvio, mas sim uma atitude muito bem planejada.

As bases filosóficas do comunismo prescrevem abolição de direitos de propriedade, direitos de expressão, de reunião etc. no intuito de viabilizar a igualdade. Marx imaginou que o atingimento da igualdade pararia o motor da História e alcançaríamos o Paraíso. Se funcionasse, talvez a perda temporária de liberdades fosse um preço aceitável?

FALTA DE LIBERDADE NUNCA É BOA, MAS DESIGUALDADE NEM SEMPRE É MÁ

Muito embora isso pareça contra-intuitivo, a desigualdade social tem vantagens econômicas. A concentração de capital permite que indivíduos lancem empreendimentos de vulto, sem que o risco respingue no resto da sociedade.

O regime militar brasileiro foi, por idéia do economista Simonsen, um dos grandes "fregueses" dessa idéia: fazer o bolo crescer para depois dividí-lo. Pena que o bolo murchou nos anos 80 :)

Numa sociedade igualitária, o Estado tem de prover essa massa crítica de capital, o que causa toda sociedade igualitária-wannabe degenerar para um capitalismo de Estado, com igualdade duvidosa, e nenhuma liberdade. Ao invés de um contínuo de classes sociais (que inclusive facilita a mobilidade social), a sociedade comunista degrada para um sistema de duas castas: a "nomenklatura" (funcionários do Partido) e a patuléia que é basicamente trabalho escravo.

Alguém diria: os ricos do Brasil dão calote nos direitos trabalhistas e investem dinheiro do BNDES, nunca o seu próprio. É verdade. Tanto o BNDES como os direitos trabalhistas são distorções de mercado; remendos para um Estado com altos impostos e amante da burocracia. São essas tentativas de fabricar igualdade que na maioria das vezes fazem o caldo desandar.

Além do mais, com o Estado brasileiro cobrando 40% do PIB em impostos mas empregando apenas 4% da população, não estaríamos também nós caminhando para uma divisão em 2 castas? Compare a situação de um aposentado do setor privado com a do aposentado do setor público e tire suas próprias conclusões.

Outro axioma dos esquerdistas é - para cada rico com capital sobrando, há um monte de pobres passando fome [1]. Isso parece verdadeiro como 2+2=4 num país como o Brasil, mas na verdade é um sofisma. Pode haver pessoas muito ricas, e ainda assim a média ficar safa da linha da pobreza. A distribuição de renda não precisa seguir uma distribuição normal, pode ser muito bem uma distribuição de Poisson. Por último, no caso específico do Brasil, o próprio Estado é um dos grandes criadores de desigualdade, como já mencionei há pouco.

[1] Especificamente sobre "... há um monte de pobres passando fome", gostaria de mencionar "en passant" o esforço que alguns esquerdistas fazem para provar seu ponto. O nosso atual presidente Lula lancou o Fome Zero como a pedra angular do seu governo. Uma boa idéia, exceto pelo fato de que pouca gente passa fome no Brasil segundo o IBGE.

Ai o que o Lula faz? Tenta amordaçar o IBGE, pretendendo que toda pesquisa passe primeiro pela chancela do governo. Felizmente, o IBGE conseguiu na Justiça o direito de divulgar suas pesquisas sem precisar bênção da Nomenklatura (sempre fui fã do IBGE, gastei boa parte dos meus trocados de escoteiro comprando as excelentes cartas topográficas deles. Sim, eu aprecio *alguns* serviços públicos do Brasil :)

Não satisfeito, o Lula quer criar mais um imposto (2 dólares por passagem aérea) para "combater a fome no mundo". Quem cria a fome no mundo, em particular na África, são precisamente os governos, que vão embolsar mais uma grana dos otários obrigados a andar de aviâo.

Para resumir, os amantes da igualdade facilmente tendem a "perder o amigo mas não perder a piada", distorcendo a realidade para encaixá-la em sua cartilha política.

No final das contas, a idéia que mais bem funcionou na prática foi o Bolsa-Família, que é a implementação mal acabada do programa de renda mínima do gênio Eduardo Suplicy. Para quem não sabe, o projeto de renda mínima previa pagamento a *todos* os cidadãos, inclusive os mais ricos. É inócuo pagar 50 reais por mês a uma pessoa rica, mas é *simpático*, e quebraria a resistência das pessoas que hoje denominam o Bolsa-Família de esmola oficial.

Existe a famosa experiência comportamentalista de dar 5 dólares na entrada de um jogo de basebol. As pessoas que receberam o dinheiro "caído do céu" tenderam a gastar 10 dólares a mais do que as que não receberam nada... Em minha opinião, o rico que recebesse 50 reais de renda mínima ficaria muito mais feliz em pagar seus impostos do que hoje, pelo mesmo motivo emocional.

Penso que o Suplicy deva estar em alguma espécie de geladeira ou castigo dentro do PT, e por isso não implementam o programa na forma original, para não ter de dar o devido crédito.

A LIBERDADE SE AUTO-REGULA

A liberdade é mais facilmente auto-regulada; uma sociedade livre consegue auto-policiar-se de forma distribuída, com a participação de todos os indivíduos. Excessos são detectados e (espera-se) corrigidos mais depressa.

Por outro lado, a igualdade não é tão simples de definir, metrificar e policiar. Ela demanda uma entidade central (e.g. um governante, uma burocracia) que defina e policie parâmetros de igualdade. Além do fato do controle centralizado ser menos eficiente e menos escalável, ele também pode ser mais susceptível a corrupção, que inexoravelmente acontece na prática.

Mesmo desconsiderando a corrupção, sempre há o risco da metrificação da igualdade cair na mão de alguém que "perde o amigo mas não perde a piada", ou sendo mais direto, força a realidade para dentro do seu projeto particular de sociedade perfeita, lançando mão de todo recurso para perseguir objetivos estúpidos.

Certamente algum leitor deve estar pensando: "este cara dá apenas exemplos econômicos de liberdade e igualdade". Bem, o que mais você espera de alguém de direita? :) Para mim, economia e dinheiro é tudo quanto importa nas relações humanas. Como diria Maquiavel, "uma pessoa esquece antes a morte do pai que a perda da propriedade". Isto não é bonito, mas assim é nossa natureza humana.

O próprio Marx apontou (acertadamente) que quase todos os eventos históricos tiveram motivação econômica. Basta pegar cada guerra, cada revolução, cada declaração de independência de uma colônia, e haverá um motivo aparentemente bobo como impostos, confiscos, colheitas fracassadas e coisas assim.

Dito tudo isso, acredito que uma sociedade sem qualquer traço de igualdade é impossível, e a igualdade quase nula, sou forçado a admitir, também é catastrófica, pois em última instãncia acaba minando a própria liberdade.

Creio numa "mistura azeotrópica" ideal entre liberdade e igualdade, com muita mas não total liberdade, e pouca mas não nula igualdade, que seja estável e resulte afinal na melhor sociedade possível.

Tudo que pretende tirar liberdade, prometendo em troca igualdade, é automaticamente suspeito.

OS PROMOTORES DA IGUALDADE SEMPRE DEFENDEM UMA VISÃO MUITO PARTICULAR DE IGUALDADE

Uma característica notável dos partidos de esquerda é a sua tendência de fragmentação. Isto acontece porque cada pensador que defende determinado tipo de igualdade, se considera "o mais puro" ou "o mais correto" de todos. Com o tempo, os diversos "sábios" notam que estão defendendo Santos Graal diferentes, brigam e fundam cada um o seu novo partido ou linha de pensamento.

Outra característica dos defensores da igualdade, esta bem mais perigosa, mas consequência da anterior, é que sempre se enxergam como "reis do mundo". Ou seja, pensam na igualdade para a humanidade, mas estando eles próprios isentos do processo, pois serão o "estimado Líder", o "Grande Timoneiro", em resumo, aqueles que mandam.

Dificilmente tal pessoa, se guindada a uma posição de liderança, deixaria de virar um ditador sanguinário. A prática demonstra isso bem: todos os países comunistas viraram ditaduras. O único lider comunista que resistiu a essa tentação, por sua descomunal capacidade intelectual, foi Lenin - e para supremo azar do comunismo, ele morreu prematuramente antes de plantar os mecanismos anti-ditatoriais. Além de tudo, defender a igualdade dá azar :)

É interessante notar que muitos desses ditadores não eram particularmente sedentos de dinheiro, embora o fossem de poder. Isso poderia ser apontado como uma contradição à alegação anterior de que todos os eventos históricos têm motivação econômica. Talvez a idéia da motivação econômica se aplique apenas a povos, e não a todos os individuais. Ou talvez ter o poder seja a forma suprema de poder econômico -- quem tem poder, consegue tudo o que quer de graça e muitas vezes sem mesmo ter de pedir.

O exemplo mais notório é o próprio Stalin, que ganhava um magro salário de deputado (e mesmo este sobrava quase todo, pois ele gastava muito pouco), e cujos filhos não tinham quase nenhum privilégio por quem eram -- um deles morreu prisioneiro de guerra na Alemanha. Tais fatos não inocentam Stalin de seus crimes; na verdade, certamente Stalin cultivava ad nauseam essa aura de igualdade justamente para continuar no poder.

OS MOVIMENTOS SOCIAIS MAIS IMPORTANTES COMEÇARAM DEFENDENDO A LIBERDADE, NÃO A IGUALDADE

Os primeiros movimentos sociais, e na verdade os mais bem-sucedidos, que pleitearam os direitos trabalhistas fundamentais (citados no início do texto), levantavam a bandeira da liberdade, não da igualdade.

Tais movimentos tinham em geral um componente anarquista. Anarquismo pleiteia a supressão do Estado, pois vê no Estado uma entidade que suprime tanto liberdade como igualdade. Claramente a supressão da liberdade (e.g. liberdades de expressão, reunião, etc.) era o principal empecilho para eles.

Por defenderem majoritariamente um valor universal, que tanto o pobre quanto o rico podem contemplar - a liberdade - tais movimentos conseguiram apoio em todas as camadas da sociedade. Um bom exemplo é a Revolução Farroupilha, muito influenciada pelos carbonários italianos.

A DEFESA INTRANSIGENTE DA IGUALDADE SANGRA A LEGITIMIDADE DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

Quase todos os movimentos sociais atuais latem para a árvore errada, e por isso mesmo não conseguem ter o necessário apoio junto à população.

Parece incrível que um MST não tenha apoio pesado junto à população pobre, que é a maioria no Brasil, e considerando ainda que o MST soa a priori como "antídoto" de males muito graves como grilagem de terras e coronelismo.

Em minha opinião, o grande erro desses movimentos é ter uma cartilha ultrapassada, defendendo apenas a igualdade. Ou pior ainda, defendendo ostensivamente o comunismo - estão 100 anos atrasados na História, defendendo algo que provou ser não-funcional em meio mundo.

Não sei quanto ao resto do mundo. Mas no Brasil, a origem dessa ligação comunismo-movimentos sociais ocorreu em algum momento da história, quando os comunistas foram os primeiros, ou os únicos, a prestarem atenção a reinvindicações legítimas.

Citemos como exemplo o problema da grilagem de terras no Pará. Em geral os movimentos anti-grilagem têm ligações com a esquerda. Mas essa ligação é puramente incidental; grilagem é um crime, portanto é um problema policial, não social.

Ligar ostensivamente o combate à grilagem com a busca da igualdade social apenas confunde a maioria silenciosa, dá munição aos grileiros (que acabam, por contraste, empunhando a bandeira 'libertária'), e finalmente puxa o tapete de um movimento que em outra embalagem seria perfeitamente legítimo e defensável.

Naturalmente, parte desse engano histórico é culpa da direita. O problema é que a 'direita' brasileira em grande parte não tem compromisso com a liberdade, portanto não tem nem moral nem interesse em defender movimentos sociais, mesmo os legítimos.

É o preço de morarmos num país continental, onde as diversas regiões estão em estágios diferentes de evolução social. Ser do PFL no Sul significa ser libertário, ser PFL no Nordeste significa ser "coroné". Da mesma forma o PT no Sul se comporta como se estivesse no meio de um canavial alagoano (e depois reclama que não tem penetração...).

Coronéis, assim como mafiosos, não defendem liberdade, portanto não podem ser "de direita" na minha classificação particular. Mas os coronéis contaminam todos os partidos de direita brasileiros. Isso me afeta como "rightwinger", e por dever de consciência não me filio, nem apóio incondicionalmente, qualquer partido político brasileiro dito de direita.

A distorção mais incrível que observei, relacionada a essas diferenças regionais, é o fato do meu pai (sulista) ser fã do ex-presidente Sarney, enquanto absolutamente *nenhum* maranhense com quem eu tenha conversado goste dos Sarney.

Isso me lembra o Princípio da Incompetência (criado se não me engano pelo Peter Drucker), que no caso do Sarney funcionou ao contrário: um mau coronel local acabou saindo-se um presidente bastante razoável naqueles tempos conturbados.

A esquerda também dá uma de malandra, aproveitando-se dos contrastes nacionais para agir impunemente e com menos riscos. O MST pode até ter razão quando diz combater coronelismo e grilagem... mas por que então ele invade terras no Sul e Sudeste, onde o problema agrário é muito menos grave?

Meu palpite é que o MST é pragmático: sabe que agindo na parte desenvolvida do País, tem a) mais exposição da mídia, e b) menos chance de levar chumbo e desaparecer em covas rasas. O raciocínio é perfeito, exceto pelo fato que fazendeiros que não tem nada a ver com o peixe são desnecessariamente incomodados.

E está aqui entalado na garganta o fato do MST estar realizando "serviços especiais" para certos governos estaduais, em ações que com um pouco de imaginação podem ser classificadas como paramilitares (coisa proibida pela Constituição), a exemplo do que fez Lampião, e de certa forma ressucitando métodos da República Velha onde os estados tinham exércitos (origem das atuais Polícias Militares estaduais) e faziam valer seus interesses regionais pela força. Mas discorrer sobre isso seria fugir excessivamente do foco do artigo.

Um último comentário sobre desigualdades regionais. Uma parte substancial dos pensadores de esquerda do Brasil vem do Norte/Nordeste. Tendo vivido em Recife por um ano e meio e vendo o contraste social daqui, eu até "compreendo" os porquês deles. Compreendo mas não concordo, porque tais pensadores falham em identificar o governo como o grande motor desse contraste social. Como diria Malcolm X, não se pode ser parte do problema e da solução ao mesmo tempo.

OS PROMOTORES DA IGUALDADE CONFUNDEM IGUALDADE COM HOMOGENEIDADE

Não bastasse as mazelas da promoção exagerada da igualdade em si, os agentes igualitários costumam confundir igualdade com homogeneidade; eles sonham não só com um país igual em termos economicos, mas também em termos culturais, raciais, demográficos, opinião, orientação política, religião...

Aí começa o problema: tirar dinheiro das pessoas, via taxas e impostos, é até relativamente fácil. Até o governo brasileiro consegue, na sua incompetência secular herdada da incompetência milenar da metrópole portuguesa.

Já padronizar cultura e costumes implica erodir liberdades de nível mais baixo, e não pode ser feita senão com muita massificação e coação. Alguns líderes comunistas chegaram a tentar tais coisas, o exemplo mais notório é Pol Pot. No que redunda isso, sabemos bem: genocídio.

Por conta disso, eu honestamente tenho medo quando líderes dos países latino-americanos começam a falar coisas como "integração latina", "promoção da cultura latina". Não sei por que tanto amor a tequilas e margaritas, quando são justamente os bolsões de imigração não-ibérica que empurram para frente o desenvolvimento econômico da América Latina.

Para não me chamarem de nazista como de costume por conta do parágrafo anterior, menciono a forte presença italiana em São Paulo, e o fato do presidente da Telmex mexicana, dona atual da nossa Embratel, ser libanês. Mesmo em Recife, o "fantasma" do imigrante holandês expulso deixou no ar um "algo mais" que o resto do Nordeste não tem.

Falando em nazismo, o próprio Hitler foi produto de movimentos de uniformização da "cultura alemã", para torná-la livre do "componente judaico" [2]. O interessante é que Hitler estressou mais este tipo de igualdade do que, por exemplo, a igualdade econômica. Devido a isso, ele costuma ser classificado como de extrema-direita, no que discordo frontalmente :)

[2] Se não me engano, foi um filósofo alemão, Weber, que ensina que a cultura é a soma vetorial de todas as iniciativas individuais. Já Durkheim defendia essencialmente que a cultura da sociedade é um tipo de ditadura das maiorias.

Nesta linha, a colaboração da cultura judaica na cultura alemã é notável e indissociável. Um dos primeiros puristas da cultura alemã, o músico Wagner, costumava brigar com judeus como Mendelsohn por produzirem música "judaica", estranha no ninho (embora Weber não fosse xenófobo e tivesse amigos judeus. Suas críticas eram num nível "profissional"). No entanto, foi Mendelsohn que promoveu um avivamento da então quase esquecida produção musical de J. S. Bach. Difícil imaginar contribuição maior que a de Mendelsohn para a cultura alemã. E sim, eu gosto de Mendelsohn e Bach, portanto sou suspeito em falar deles :P

A VALORIZAÇÃO DA IGUALDADE MATA O PROGRESSO

O progresso cria desigualdade; é fato natural, em qualquer escala. Sempre haverá os desproporcionalmente aquinhoados, bem como algumas vítimas.

Uma das maneiras mais eficientes de manter o status quo da igualdade, é obstar o progresso. E as pessoas fazem isso o tempo todo, em todos os níveis de organização social. Desde o funcionário pressionado pelos colegas para "não produzir muito" (pois expõe a lentidão dos demais), até a escolha *consciente* que vários países, quase todos os países latino-americanos incluídos, de não ir para frente porque "isso tornaria os ricos ainda mais ricos".

Em não se podendo obstar o progresso, os igualitários procuram taxá-lo até o limiar da exaustão.

OS CRITÉRIOS DE IGUALDADE IGNORAM QUE O MUNDO É MUTÁVEL E VARIÁVEL

Esta é fácil demonstrar. Basta analisar o limitado vocabulário "meia oito" dos esquerdistas mais aguerridos.

OS FILÓSOFOS DA IGUALDADE PENSAM EM REVOLUÇÃO AO INVÉS DE EVOLUÇÃO

A maioria dos defensores da igualdade pensa em termos de soluções "one-shot", ou seja, uma revolução, um evento cataclísmico que reorganiza o mundo e dali por diante tudo funcionará bem.

Um "sabor" particularmente imbecil deste pensamento é aquele onde se imagina que, expropriando (ou seja, roubando) propriedades dos "ricos" e dando aos "pobres", promove-se igualdade; e que tal igualdade seria imorredoura. Imaginam eles que dinheiro é como uma pedra filosofal, que se quebrarmos e dermos um pedacinho a cada pessoa, todos conseguiriam "fabricar" sua renda.

O primeiro erro é confundir propriedade com renda. O que define o nível social é a renda mensal. Propriedade é simplesmente renda acumulada, é grosso modo o resultado de não ser perdulário. Expropriar é punir quem tem auto-disciplina em economizar; é premiar os perdulários. Comunismo é o nirvana dos perdulários.

Ok, estou "esquecendo" que quase todo tipo de propriedade gera renda. Um dinheiro numa aplicação financeira gera renda. Mas isso não é tão automático quanto parece; a aplicação financeira gera renda porque alguém do outro lado do balcão toma esse dinheiro emprestado e paga juros, e - espera-se - consegue produzir uma renda excedente. O capital é nada mais que uma ferramenta de trabalho, um catalisador. Sem trabalho, não há renda, mesmo com todo o dinheiro do mundo à disposição.

Como já afirmei antes, acredito que a concentração de renda/propriedade tem pontos positivos. Um deles é que um detentor de vasta quantidade de dinheiro tende a aceitar juros mais baixos, ou seja, seu dinheiro passa a servir como ferramenta para negócios menos lucrativos. Dividir esse dinheiro entre uma multidão significaria a) gastá-lo completamente, ou b) na melhor das hipóteses, trocar um investidor de longo prazo por milhares de investidores de curto prazo.

Se existe um problema no Brasil hoje, é a falta de dinheiro, ou seja, a falta de renda acumulada. Excesso de dinheiro é bom porque baixa os juros, e se for *realmente* excessivo, a inflação se encarrega de queimar o excesso. Para produzir mais dinheiro sobrando, as pessoas precisam *trabalhar* *e* *poupar*. Pregar teorias expropriatórias só gera incerteza jurídica e leva as pessoas a mandar o pouco dinheiro que têm para a Suíça -- ou torrá-lo em frivolidades -- ao invés de reinvestir aqui.

Ok, diriam os "expropristas", se o problema é a renda, então vamos distribuir a renda! Essa estratégia padece do mesmo vício originário, ou seja, parte do pressuposto que a renda total é uma massa de tamanho predefinido, limitado e portanto tem de ser dividida igualmente.

Se uma pessoa tem renda maior que a média, isso só pode ter 3 motivos: a) ela trabalha mais, ou mais eficientemente, que os demais, logo merece a renda que tem; b) ela possui um grande patrimônio, que é resultado de renda não dissipada no passado, portanto lhe pertence e não há motivo para cobiçar tal patrimônio; c) ela comete atos ilegais e nesse caso tem de ir para a cadeia. Em nenhum caso cabe expropriação "a priori".

Um outro aspecto que a "distribuição" de renda via impostos costuma ignorar é a decrescente utilidade marginal do dinheiro. Sem entrar em explicações teóricas, basta dizer que os primeiros 100 reais do seu salário, ou da sua renda, "valem mais" que os próximos 100 reais (contando do real 101 até o 200), e assim por diante.

Vendo por outro ângulo: mesmo desconsiderando impostos, se você dobra sua renda, isto não significa que você tenha duas vezes mais poder de compra. E por que isto acontece?

Porque, não importa quanto você ganhe, algumas necessidades básicas custam o mesmo para todo mundo. Se você ganhava 1000 reais e passa a ganhar 5000 reais, não vai comprar 5 vezes mais comida, muito menos consumir 5 vezes mais calorias. O alimento necessário à sua sobrevivência continua sendo pago pelos mesmos, digamos, 500 reais do "fundo" do seu contracheque. Procure por Pirâmide de Maslow na Internet, o conceito é parecido.

Talvez você, digamos, permita-se algumas regalias no supermercado, e passe a gastar o dobro do que costumava. Isso vai acontecer porque você escolheu alimentos mais caros, melhores, mais variados, etc. Mas continuam sendo alimentos. Você vai gastar o dobro do que gastava, para ter uma alimentação apenas marginalmente melhor. Você vai preferir maçã argentina ao invés de nacional, mas continua sendo apenas maçã, nutricionalmente falando.

Às vezes a utilidade marginal do dinheiro trabalha a favor das pessoas. Quando elas ganham Bolsa-Família (um ganho pequeno é infinitamente mais valioso que nenhum). Quando seu salário diminui mas você consegue tocar a vida, fazendo quase tudo que fazia antes. Quando mais pessoas sentam à sua mesa (filho, parente) e a conta do supermercado sobe muito menos que o esperado pela contagem de cabeças.

Nesta lógica, o imposto de renda ("progressivo"), ou seja, cuja percentagem aumenta com a faixa de renda, é triplamente penalizante, porque: a) o valor absoluto do imposto aumenta com a renda, mesmo sendo uma taxa linear ("regressiva"); a) se a percentagem sobe com a faixa de renda, o imposto absoluto aumenta exponencialmente; b) a taxação exponencial incide sobre uma parcela da renda que já "vale menos", em termos relativos.

Um último problema da excessiva tributação sobre a renda é a Lei de Lafer. Esta lei, que na verdade é ainda uma hipótese, diz que a arrecadação do imposto de renda aumenta assintoticamente com a taxa. Ou seja, taxas baixas estimulam muita gente a pagar, enquanto taxas muito altas simplesmente não surtem efeito prático. Em revistas e livros para leigos, é freqüentemente citado um corolário (errado) da Lei de Lafer: "um por cento a mais na taxa significa um por cento a menos na arrecadação".

Como eu disse, a Lei de Lafer não é considerada "provada". Há evidências factuais a favor e contra sua existência. Mas no geral, aceita-se que as pessoas e empresas procurem fugir de impostos, inclusive ilegalmente. O nível "abusivo" varia conforme o país, porque obviamente a qualidade de cada governo é diferente. No Brasil, esta taxa "Lafer" é calculada em 24% do PIB, levando-se em conta os serviços que o governo oferece à população. Mas a carga tributária real está em 35%, o que pode significar duas coisas: ou que a Lei de Lafer é falsa, ou que o Brasil tem meio PIB a mais na economia informal (esta última mais provável).

A lei de Lafer, se verdadeira, pode ter conseqüências muito perigosas, levando a um "colapso moral" se o imposto de renda for alto de mais no intuito de distribuir agressivamente a renda. Supondo que a população de renda mais alta não vá fraudar o Fisco, ela pode simplesmente desistir de ter essa renda. Se a "metade alta" da renda tem, como vimos, utilidade marginal reduzida, e ainda por cima é pesadamente taxada, mas exige o mesmo esforço absoluto que a "metade baixa", por que não trabalhar apenas meio dia?

A priori, não há nada de moralmente errado em trabalhar menos para ganhar menos... Só que as pessoas recebem diferentes valores/hora por seu trabalho. Um vendedor de automóveis pode ganhar, na média, 300 reais por mês vendendo um carro por ano. Vender um carro toma apenas alguns minutos. Uma empregada doméstica tem de trabalhar o mês inteiro, todo dia, o dia todo, para perceber os mesmos 300 reais.

Fica óbvio que tributar a renda acima de 300 reais, mesmo que em 99%, só vai empurrar o vendedor para interesses diversos do seu trabalho, mas não melhora em nada a vida da empregada.

Algum esquerdista viria com a próxima idéia "mágica" de estipular rendimentos semelhantes para todas as profissões, acabando assim com a folga do vendedor. A princípio isto funcionaria, tanto que as sociedades com distribuição de renda mais igualitária, como os países europeus, aceitam taxas Lafer mais altas.

Vem então o próximo colapso moral, que é desencorajar as pessoas a procurarem trabalhos especializados.

Talvez algumas pessoas queiram trabalhar em posições de grande responsabilidade ou especialização, unicamente para auto-afirmarem-se, por orgulho, por gostar do que fazem, ou mesmo por nacionalismo. Eu tenho amigos próximos assim. Na minha área (informática) é talvez onde mais abundem esses idealistas. Mas convenhamos que isto não funcionaria para a grande maioria da população.

Em resumo, a única forma conhecida de melhorar a situação pessoal da empregada é aquela prescrita pelo capitalismo: fazer a economia crescer, aumentando as oportunidades e conseqüentemente o valor do ser humano. A empregada pode arrumar ocupação mais útil e mais rentável. Ou seu patrão cobre a oferta.

OS IGUALITÁRIOS BASEIAM-SE EM PREMISSAS FALSAS COMO O "HOMEM ORIGINALMENTE BOM" E A "COLETIVIDADE"

Scott Adams aponta corretamente, no seu livro "O Princípio Dilbert", que todas as coisas novas e boas do mundo foram criadas por um pequeno punhado de pessoas geniais. Todo o resto, resto em que estou incluído também, é parasita da propriedade intelectual dessas poucas pessoas.

Outra menção ao baixo reconhecimento aos que fazem o mundo evoluir é feita no livro "Parque Jurássico" (no livro, não no filme). Perguntaram ao dono do parque porque ele gastou o dinheiro num parque ao invés de em novas técnicas de medicina, pesquisa de novos remédios etc.

A resposta é extremamente esclarecedora: porque se o investimento resultasse em remédios novos, logo haveria um monte de gente querendo aquele remédio de graça. As pessoas são rápidas em querer se aproveitar das invenções dos outros. Mas nem tanto para efetivamente sentar e inventar algo novo, sabendo de antemão que o reconhecimento pode não ser tão grande quanto o esperado...

As pessoas comuns são muito rápidas em reivindicar "direitos". Acham que, pelo fato de alguma coisa boa existir no mundo, ela tem de ser de graça. Quase todo mundo reclama do preço da gasolina (até mesmo eu :). Um litro de gasolina fornece 30 milhões de joules em calor, foi extraída do subterrâneo por equipamentos caros, refinada em equipamentos caríssimos, transportada em caminhões especiais etc. Água mineral, ao menos no Brasil, tem em todo lugar. No entanto, as pessoas reclamam antes do preço de 1 litro de gasolina do que do litro de água mineral que custa quase o mesmo.

Mais um exemplo para denunciar a coletividade e a ilusão do homem naturalmente bom. Uma amiga da minha irmã, que mora em São Paulo, mora numa casa "só na laje", sem telhado, como é comum na periferia. A família teria condições de construir o telhado... mas não o faz porque isso chamaria a atenção, denunciaria que eles têm dinheiro "sobrando". Eles seriam roubados e/ou apareceria um monte de gente pedindo empréstimo.

Este é o nirvana da igualdade, o sonho molhado dos esquerdistas: a "coletividade" "patrulhando" os "ricos" e "promovendo a igualdade pela Revolução".

Disso tudo extraio duas lições: a coletividade é inútil; e o ser humano médio é mesquinho, exigente, preguiçoso, burro e mal-agradecido. Promover igualdade ilimitada é dar pérolas aos porcos.

Isso parece contradizer o que eu disse quase no início do artigo: que um pouco de igualdade é necessária. Penso que existe um patamar de igualdade necessário para que, no meio da coletividade estúpida, haja espaço para que os gênios aflorem. É preciso um tanto de igualdade para "lubrificar" a liberdade. Para que a estupidez dos pais não tolham a liberdade dos filhos iluminados.

Quase todas as iniciativas de "igualdade" no Brasil são além de tudo ineficazes no quesito mobilidade social dos excepcionais positivos, pois concentram-se mais em gente velha que em crianças; e isso vem desde o regime militar, com a concessão de aposentadoria rural de meio salário mínimo. Parece muito humano e justo dar aposentadoria/pensão para todo mundo, mesmo quem não contribuiu para a Previdência. Exceto que isso tira o pão da boca da educação, da saúde infantil... Talvez o problema seja mais eleitoral. Crianças não protestam nem votam.

Dentre aposentadorias e pensões, temos num extremo os que recebem um salário mínimo. No outro extremo, as grandes pensões integrais do serviço público. Exceto pelo aumento acelerado do salário mínimo promovido pelo governo Lula, as melhorias de benefício sempre foram (em números absolutos) mais generosas com o extremo superior que com o inferior. Ou seja, é um dos mecanismos mais perversos de criação de desigualdade que se possa imaginar, e a esquerda brasileira defende isso com unhas e dentes.

OS DEFENSORES DA IGUALDADE COLOCAM O ESTADO NO LUGAR DE DEUS

Tenho a impressão que boa parte dos esquerdistas também são ateus, ou ficam oscilando entre o ateísmo e o agnosticismo. Parece que não há mesmo chance de eu concordar em alguma coisa com eles; eu sou evangélico :) Minha crença se baseia em Gödel: se um ser perfeito em todos os aspectos existe em nossa imaginação, então existe.

Mas diferentemente dos esquerdistas, defendo que haja ampla liberdade, liberdade religiosa por exemplo, para que cada um possa acreditar no que quiser.

A coisa começa a ficar realmente engraçada quando eles dizem que Deus não existe mas ao mesmo tempo defendem um Estado forte que "resolveria todos os nossos problemas". Ou seja, abominam a idéia de um Deus perfeito que alegadamente não existe, e passam a adorar um Deus imperfeito que também não existe. Sendo imperfeito, pode existir na nossa imaginação sem necessariamente existir fora dela.

"Mas como o Estado não existe??" Não existe. Estado é uma abstração criada pelo consciente coletivo. Para dar a esta abstração um poder "real", compõe-se um governo. O governo é definitivamente real, mas obviamente não tem poderes sobrenaturais, pois é composto de pessoas, pessoas tiradas da mesma massa que ele deve governar e fornecer a ilusão de que o Estado existe.

Não falo apenas de poderes sobrenaturais no estilo "transformar água em vinho". Outra coisa que um governo não pode ter é uma inteligência sobrenatural, portanto não pode fazer mais pelo povo do que o próprio povo poderia originalmente fazer por si mesmo. Rui Barbosa: "Todo povo tem o governo que merece".

Um governo não faz nada mais que prestar serviços ao povo. Eu sei lavar roupa, mas prefiro delegar esse trabalho à lavanderia da esquina para que eu tenha tempo de fazer outras coisas, as quais faço melhor ainda e portanto me trazem mais retorno. Governo é apenas uma gigantesca lavanderia (que demora a entregar a roupa).

Alguém disse que talvez a abstração divina tenha apenas um grande propósito: ao adorar a Deus (exista ele ou não), evita-se o risco de adorar a homens. Parece que os esquerdistas têm o desejo de ser adorados (a expressão "culto à personalidade" lembra algo ao leitor? :)

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