Como um louco de pedra conseguiu colocar Rachmaninov no topo das paradas
David Helfgott é um pianista australiano virtuoso, nascido em 1948 que, por excesso de pressão no aprendizado de uma peça de Rachmaninov, mais especificamente o Terceiro Concerto para Piano, teve um colapso nervoso ao final da apresentação pública.
A história foi utilizada no filme Shine - Brilhante, um excelente filme estrangeiro, que porém (como todo filme) tem alguns desvios da história original. O filme coloca o pai de David, um sobrevivente de Auschwitz, como o grande culpado da história, por tentar superar através do filho suas próprias frustrações musicais. O David "real" desmentiu que seu pai fosse realmente assim.
Continuanto, Helfgott permaneceu num hospício durante 10 anos, explicitamente mantido longe de qualquer piano que julgava-se ser o núcleo do seu problema. O pai de David recusou-se a ir buscá-lo por julgá-lo um fracassado (outra licença poética para cimentar a imagem do pai maldoso), e por lá o maluco ficou (mesmo estanto tecnicamente curado) até que uma mulher interessou-se por ele, e instalou-o num quarto de pensão, no mezanino de um bar.
Livre, Helfgott teve acesso ao piano do bar, rapidamente fez sucesso (assim como o bar) e as pessoas logo lembraram do jovem David virtuoso. Mais tarde, outra mulher interessou-se por David, por ter descoberto no horóscopo que ambos combinavam perfeitamente. Esta última instalou-o melhor e encorajou-o a apresentar-se publicamente.
O que realmente fez a história tornar-se conhecida foi, é claro, o filme. De certa forma, a vida imitou a arte, e o filme catapultou Helfgott para o mundo. Hoje, ele faz turnês internacionais, com ingressos caríssimos e sempre vendidos todos antecipadamente.
Comprei um CD de Helfgott tocando Rachmaninov. Além de CDs ao vivo via de regra não prestarem (podiam ter avisado isso no catálogo), é notório que Helfgott não toca piano muito bem. É claro, quem toca o temido Rach3 mesmo porcamente merece algum respeito, mas há interpretações de pianistas anônimos infinitamente melhores. IMHO a melhor é a vendida como trilha sonora do filme Shine (basicamente uma coleção de audiogramas de qualidade acústica variável). O filme cria a expectativa de que Helfgott seria o melhor pianista do mundo em atividade. Infelizmente...
Também acusa-se a mulher de Helfgott de utilizar-se do marido para autopromoção e enriquecimento, sem falar que vende uma "mercadoria" com defeito. Ela defende-se dessas críticas apontando que a) a idéia do filme não foi dela, simplesmente aconteceu; b) antes do filme, ela ficou longos anos com David, vendendo fitas de gravações de performances dele para fazer um dinheirinho extra, o que não é uma forma muito inteligente de enriquecimento; c) Helfgott colocou Rachmaninov nas paradas de sucessos e catapultou vendas de CDs e produtos relacionados, o que é um "milagre".
De minha parte, fiquei chateado com o CD do Helfgott, mas por sorte tinha comprado outro com uma performance melhor do Rach3. Dou razão à mulher dele: se não fosse pelo filme e pela história de sofrimento pessoal de Helfgott, eu nunca teria sequer sabido que existe Rachmaninov.
Eu sempre achei que todos os compositores do século XX fossem bichas loucas. Essa idéia errada vem de um trauma de infância meu, quando estudava piano na Casa da Cultura. Os pretensos fodões tocavam Bèla Bartók, músicas cheias de dissonâncias e completamente incompreensíveis para quem gosta de música que "faça sentido", como J. S. Bach.
Rachmaninov usa temas folclóricos russos em suas músicas ao mesmo tempo que técnicas avançadas. Por esse motivo, foi considerado "obsoleto" por seus pares em sua época. Na Rússia, havia uns 3 ou 4 grupos bem definidos de pianistas. Rachmaninov encaixava-se perfeitamente na patota capitaneada por Tchaikovsky, que também fazia músicas com mais sentido e mais romantismo.
Sergei foi, como Helfgott, um pianista virtuoso desde pouca idade, e por isso foi remetido como pupilo ao grande pianista e professor Zverev, que mantinha diversos alunos em sua casa. Porém, Rachmaninov começou também a demonstrar interesse em composição, o que irritava Zverev, que achava o talento de Rachmaninov deveria ser colimado unicamente na execução. Os dois acabaram brigando e Rachmaninov foi estudar por conta própria.
Mais tarde, tendo passado com mérito num concurso (compôs a ópera Aleko para isso), Zverev pediu desculpas a Sergei e deu-lhe seu relógio de ouro, e dali por diante foram grandes amigos.
Os críticos (raça de bichas) consideram o Segundo, Primeiro e Quarto os seus melhores concertos para piano. O temido Terceiro Concerto, apelidado de Rach3, é o que todavia demanda mais técnica do pianista. A minha opinião pessoal é que o Rach3 é o melhor, para quem é simples ouvinte.
Rachmaninov mudou-se com a família para os EUA depois da Revolução Russa, por achar que o ambiente não estava propício para musicistas. O Terceiro Concerto foi composto especialmente para audiências públicas nos EUA e abrir mercado. No entanto, Sergei nunca se adaptou aos EUA, sempre sentiu saudade pungente da Rússia e nunca aprendeu a falar inglês corretamente. Sua produção musical caiu para zero pouco tempo depois da mudança.
Os críticos consideram o pianista Horowitz como o melhor intérprete do Rach3. Particularmente, achei que Horowitz toca rápido demais, como quem quer mostrar técnica sem respeitar a música.
Uma coisa interessante é que, por ser um compositor do século XX, existem gravações antigas de Rachmaninov em performance ! No entanto, também achei que ele "corre" muito a música. O próprio Sergei reconhecia que Horowitz era melhor intérprete de Rach3 que ele mesmo.
Diz a lenda que a primeira vez que Rachmaninov ouviu o outro pianista tocar Rach3, murmurou "esse cara entendeu tudo". Ao final, apressou-se em cumprimentar Horowitz (este não sabia que Sergei estava na platéia) e combinaram de, no outro dia, fazerem uma apresentação só os dois, com Sergei fazendo o papel de "orquestra" num segundo piano. Infelizmente, não há audiograma desse verdadeiro show de buela.
As músicas mais conhecidas de Rachmaninov são:
* Rapsódia sobre um tema de Paganini - absolutamente todo mundo conhece essa música, basta ouvir. Claro que decorar o nome do autor seria pedir demais ;)
* Prelúdio em Dó sustenido menor - também é bastante conhecida. Diz a lenda que Rachmaninov tinha verdadeiro ódio dessa música, pois ela é curtinha, e agrada por seu tom triste/trágico, então, em qualquer lugar que Sergei ia, pediam-lhe que a executasse.