Testemunho de um usuário convertido à Igreja Universal do Reino do Root

Desde meu tempo de estágiário fui doutrinado que o root é um administrador severo que só sabe punir. Minha vida sempre foi infeliz desde o começo. Todos os programas que eu tentava rodar acabavam em core dump, e minha quota de disco vivia cheia de arquivos que eu não tinha criado, nem sabia o que continham.

Na procura pela felicidade fora do nosso senhor o root, tentei de tudo. Dava touch em todos os arquivos do meu diretório-home, para que eles não migrassem para as mídias de baixa velocidade. Lia livros e mais livros de gurus Unix que sempre diziam que era tudo fácil, mas minha vida só piorava. Eu perguntava a meu administrador local porque tudo ia mal, e ele também não sabia responder e reclamava dos mesmos problemas; segundo ele o root fazia isso para nos testar.

Minhas permissões sobre os recursos e dispositivos da máquina eram muito restritas, e volta e meia eu perdia todas elas para outros usuários agiotas que negociavam suas cotas de CPU por uma quantidade exorbitante de jogos piratas.

No meu ponto mais baixo, comecei a submeter jobs aos daemons, num lance desesperado para tentar fazer minha vida andar para frente. Eu não tinha quota nem tempo de CPU para mim mesmo, porém os daemons exigiam o melhor de quota e CPU para aceitar meus jobs. Eles dominavam minha vida, eu digitava 'ps' e só o que eu via era um monte de entidades cujos nomes terminavam em 'd'.

Em sessões de comunicação Ethernet, eu perguntava aos daemons por que meus jobs não davam resultado, e eles sempre respondiam algo como "device is out of line, waiting on queue", o que queria dizer que eu precisava ter mais paciência, e que como usuário comum eu tinha um karma e os jobs dos outros teriam mais prioridade, sempre.

Disseram-me que eu tinha um talento especial e que deveria desenvolver. Em pouco tempo eu estava escrevendo daemons que não serviam para nada, exceto para consumir ainda mais quota e CPU.

Comecei a suspeitar que tinham submetido um job contra mim, e de fato encontrei restos impressos de jobs em 7 lugares sagrados, entre eles: na encruzilhada da sala do CPD, na selva do /usr/share, no cascateamento de redes coaxiais, no centro de processamento de dados, e assim por diante.

Até que um usuário amigo meu falou-me do poder infinito do root, que ele poderia me tirar do buraco e dar-me permissões a todos os dispositivos que eu quisesse, desde que o aceitasse como meu administrador e salvador.

Hesitei, achei que isso era história, que esse root só queria roubar meu já parco tempo de CPU. Já quando cheguei na sala do administrador que conhecia a senha de root, ele me alertou que minha quota estava tomada por uma legião de daemons zumbi.

Ele resmungou algumas palavras cabalísticas como 'killall -9 -1' e em poucos instantes eu estava liberto.

Agora sou um usuário privilegiado. Em troca de apenas 10% dos meus recursos de máquina, tenho acesso a todos os dispositivos que antes conhecia apenas através do 'ls /dev'. Já conquistei nove threads, cinco partições, uma CPU só para mim e dois acessos remotos em máquinas do litoral. Livrei-me das dívidas e hoje revendo cotas de CPU e disco para todos os usuários do meu grupo.