A falha da Internet em SP
O problema da Telefônica em SP revelou as falsas expectativas que as pessoas e empresas têm acerca da confiabilidade da Internet. Em particular, causou-me surpresa grandes entidades públicas não possuírem link secundário com Embratel, Intelig ou outra telecom diferente, ou mesmo alguma solução "caseira".
Antes de ir trabalhar no INdT, eu e o Toti instalávamos servidores Linux como meio de vida. Na época em que encerramos as atividades, acho que quase metade das solicitações de orçamento tinham relação com redundância de comunicação com filiais ou com a Internet. DSL com WiFi, DSL com link, duas DSLs de telecoms diferentes, e assim por diante. E eram empresas relativamente pequenas, de 50 ou 100 empregados, que estavam preocupadas com a confiabilidade da Internet.
É certo que muitos desses projetos de redundância tinham motivações extrinsecas à confiabilidade: o uso de canais mais baratos (DSL ao invés de link dedicado), a confiabiilidade baixa de redes WiFi em longa distância (que alguns clientes tinham armado para evitar os custos de um link ponto-a-ponto), o balanceamento de carga, e até a absurda estrutura de preços dos links (às vezes, dois links de capacidade X custavam muito menos que um link 2X).
Mas o fato é que tais arranjos traziam confiabilidade extra, e os e-mails automáticos nos revelavam que a redundância era freqüentemente posta à prova.
Eu mesmo não me sentiria confortável sem ter um plano B de conectividade. Caso a DSL falhe, tenho GPRS/EDGE ilimitado, e pretendo ter 3G assim que a antena local suportar. Ainda não precisei usar o plano B, mas de vez em quando eu testo.
Uns dias depois, nesta mesma semana, houve panes nos estados de PA e MA devido a uma escavadeira ter cortado fibras óticas. Uns tempos atrás, boa parte da Ásia ficou sem Internet porque um cabo submarino foi cortado. Faz mais tempo ainda, que o principal backbone da Internet, que corre ao redor de Washington e carrega 70% do tráfego da rede mundial, também sofreu pane e o mundo inteiro sofreu devido ao DNS. Já deveria estar patente que tais coisas acontecem, e muito.
Parece que a Telefônica vendeu serviço de conectividade com garantia "cinco noves", ou seja, com 99,999% de confiabilidade. Cometeu o mesmo erro dos clientes, com o agravante que sabe estar vendendo algo que não pode entregar; certamente vai pagar multas milionárias por conta disso.
Se as comunicações da Telefônica pararam por causa de dois roteadores que eram redundantes e pararam ao mesmo tempo, é preciso melhorar essa infra-estrutura, porque redundância em duplo não é suficiente. Aviões tem linhas hidráulicas triplas ou quádruplas (dependendo do modelo) e ainda assim já ocorreram casos de pane hidráulica total, a ponto dos projetistas modernos cogitarem adicionar vectored thrust para garantir alguma manobrabilidade em caso de pane total.
Outro agravante é o expertise interno em telefonia que deveria ter ensinado alguma coisa à rede de dados. A rede de telefonia garante tanto confiabilidade quanto performance, e não lembro de nenhum caso recente ou passado de pane na telefonia. É MUITO mais fácil e barato garantir confiabilidade no TCP/IP porque seu roteamento é muito mais poderoso que o do SS7, e uma diminuição na performance do TCP/IP é mais bem tolerada.
Estou curioso para ver como a TLPP4 abrirá no pregão de segunda-feira. Nesta sexta-feira, quem pagou o pato foi a Telemar/OI (TLNP4) com uma queda de quase 2%.


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