2008/08/04

Meia-oitos e nove-noves

Uma alegoria comumente referenciada no Brasil, que até virou história em quadrinhos do Angeli, é o Meia-Oito: aquele cara que ainda sonha com a vitória final do comunismo. Por ter tomado choques demais no pau-de-arara, o clock interno dele está quebrado, e o gettimeofday() ele retorna sempre a mesma coisa: zero, zero, zero... que corresponde a 01/Jan/1970. Para ele, os acontecimentos de 2008 interpretam-se com a mesma ótica de 1968: tudo é culpa dos EUA e do capital internacional, até a folha que cai no chão no outono... Todos nós temos pelo menos um conhecido assim.

Porém me ocorreu que temos um espécime parecido na área de informática: os "nove-noves", cujo "epoch" está travado em 1999. Assim como os meia-oitos, os nove-noves ainda sonham com a Microsoft ruindo fragorosamente, com o Linux dominando o desktop, e com os autógrafos do Richard Stallman e do Maddog.

Por esses dias, olhando um site de notícias sobre Linux e software livre, repentinamente me ocorreu que o teor das notícias não mudou muito desde que comecei a mexer com Linux, e lá se vão 10 anos:

* nova versão do KDE que conserta pela n-ésima vez os (mesmos) bugs do KMail;

* como o Linux vai tomar conta do desktop neste ano ou no próximo;

* HOWTO para usar determinado hardware extremamente popular mas que não funciona no Linux;

* Testes e comparações de distribuições;

* Lançamento de distribuição nova (a distribuição toda, não apenas versão nova);

* Algum artigo tentando explicar (sem conseguir) como se ganha dinheiro com software livre;

* Reclamações a respeito da censura da Internet na China, do traffic shaping, e das telecoms <MeiaOito:nojo> privadas </nojo>.

* Notícias sobre Microsoft devidamente acompanhadas dos comentários raivosos.

* Fundação do Grupo de Usuários Linux em Foo do Sul ou em Foo do Norte.

Como toda regra tem exceção, há dois tipos de notícia que eram figurinha fácil em 1999 e deixaram de ser hoje: IPOs e as brigas em torno de patentes de software.

O conteúdo dos sites está mais bonito, mais bem distribuído, tem Web 2.0 e Flash. Descontando isso, nada parece ter mudado. Se, por uma falha qualquer, aparecessem as notícias de 1999, muita gente só perceberia o problema quando aparecesse uma notícia de IPO bem-sucedido :)

Os comentários são a atração à parte das noticias e artigos que fazem o gosto dos nove-noves.

No Brasil, como a cultura "meia oito" recusa-se a morrer e consegue adeptos jovens, em particular nas universidades públicas, acaba rolando um acasalamento com a cultura "nove-nove". O resultado é o "meia-nove", um saco de gatos ideológico para quem expressões como "soberania digital" e "quilombo digital" fazem toooooodo o sentido. Mas isso é outra história.

6 Comentários:

Às 18:35 , Blogger Rudá Moura disse...

Matou a pau.

 
Às 21:01 , Blogger Gabriel Stein disse...

Finalmente alguém conseguiu expressar tudo aquilo que eu sentia.

Só fica uma coisa no ar: Infelizmente(e estupidamente) é esse tipo de gente que sai na mídia e a mídia paga pau pra falar merda.

Aqueles que realmente viram madrugadas e fazem alguma coisa prática além de falar, nem sempre são lembrados(na boa, nem é necessário, homens de verdade fazem, não falam).

 
Às 04:36 , Blogger rodarvus disse...

Amém, irmão.

 
Às 09:06 , Blogger Domingos Novo disse...

Amém.

 
Às 10:53 , Blogger roberto teixeira disse...

Os meio-oito parecem realmente conseguir manter-se por aí e atrair uma nova geração de seguidores. Mas ao menos me dá a impressão de que os nove-nove estão lentamente diminuindo.

Conheço diversos meia-noves -- amigos mútuos aliás -- mas o número de nove-noves é bem menor. Meu irmão é ambos -- ou seja, meia-nove -- embora mais voltado ao mundo do nove-nove. Fora ele, acho que conheço pessoalmente só mais alguns poucos ainda.

O fato é que o meia-oito e o nove-nove são frutos do mesmo fenômeno, que é a junção de dois desejos quase inconscientes do ser humano: o desejo de "pertencer" e o desejo adolescente de se rebelar. Junte os dois e você tem o estudante de letras das universidades federais.

Todos queremos ser parte de algo e os movimentos revolucionários oferecem isso. Como diria um grande pensador britânico "we all want to change the world". E é legal participar de uma revolução, mesmo que ela só ocorra na cabeça de certas pessoas.

Existe outro fator, que é aquele que diz que sua realidade é dependente da sua, bem, realidade. Os nove-noves normalmente andam com outros nove-noves e um alimenta a ilusão do outro. Um nove-nove vê uma notícia sobre o Vista ser ruim e lê isso como "A Microsoft vai fechar kra!!!111", interpretação confirmada pelos companheiros. Já trabalhei -- trabalhamos, aliás -- onde absolutamente tudo era relacionado a Linux; Linux era o mundo. E a impressão era realmente de que o mundo inteiro estava começando a usar Linux. Um dia eu saí e olhei em volta e pensei "pqp! ninguém usa isso?!?!" Claro que estou exagerando, mas a sensação é essa.

 
Às 11:38 , Blogger Domingos Novo disse...

Maragato, só o pessoal da distro achava que "todo mundo usa linux no mundo kra!". :)

Eu trabalhava na filial Brasilia (e depois Porto Alegre) da Conectiva, e cansava de escutar "pra que serve isso", ou "qual é a vantagem de usar isso", na hora de tentar empurrar^wvender "soluções linux" para nossos clientes.

 

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