Quinta-feira, Outubro 09, 2008

Eficiência de (super)mercado

Imagine um supermercado cheio de gente. Você já encheu o carrinho e seu objetivo é sair de lá o mais depressa possível. As filas dos caixas parecem estar todas bem compridas. O que você faz?

a) Passa em revista a todos os caixas, e entra na menor fila;

b) Passa em revista a todos os caixas, mais de uma vez se for necessário; olha detidamente a quantidade de compra nos carrinhos; olha bem a cada dos clientes para adivinhar os mais lentos (pagantes em cheque, idosos e mulheres), e escolhe a fila que pela sua análise ponderada seria a mais rápida;

c) Usa bola de cristal e lê a mente dos clientes para adivinhar a melhor fila;

d) simplesmente entra na fila mais próxima, desde que não seja flagrantemente mais comprida que as outras mais próximas, pois é perda de tempo procurar filas mais rápidas;

e) faz o mesmo que (d), porém nem mesmo compara a sua fila com as filas ao lado, pois ainda é perda de tempo.

Se você perguntar a pessoas próximas, vai constatar que todas as estratégias acima têm seus adeptos. E cada um vai defender a "sua" estratégia com unhas e dentes, considerando-a superior
às demais. Se alguém que escolhe filas a dedo discutir com alguém que não se dá a esse trabalho, teremos uma discussão religiosa sem fim, quiçá uma briga.

Este exemplo ilustra muito bem a hipótese de eficiência de mercado, e a forma que as pessoas posicionam-se em relação a ela. O mercado é análogo ao conjunto de caixas; os investimentos ruins são análogos às filas lentas, e os investimentos campeões são as filas rápidas. Assim como os investidores escolhem investimentos, os clientes de um supermercado escolhem as filas.

O cliente que adota a estratégia (a) acredita que os demais clientes do supermercado são altamente imbecis, e uma simples varredura nas filas, usando o comprimento como métrica, identificará uma fila melhor que as outras.

Já o da estratégia (b) respeita um pouco mais os demais clientes, e sabe que dificilmente achará uma fila flagrantemente mais curta (embora sonhe com esse acontecimento). Porém ele usa sua inteligência para tentar ser mais esperto que os demais, e cria métricas mais sofisticadas (eventualmente baseadas em preconceitos, como achar que mulheres atrasam a fila).

O cliente tipo (c) não acredita muito nas estratégias (a) e (b), porém ele possui informações secretas, que os demais não podem ter, e tenta extrair vantagem disso. Note que o cliente tipo (c) não existe, porque ler a mente não é possível, nem existe bola de cristal. Mas esse tipo fictício vai ser útil nas comparações mais à frente.

Já o cliente da estratégia (d) acredita que o supermercado está cheio de espertinhos dos tipos (a), (b) e (c); e que devido a isso as filas auto-regulam-se, ficando aproximadamente todas iguais. Ele acredita que a única estratégia de sair rápido do supermercado é justamente não perder tempo escolhendo a fila; ele vai logo para a mais próxima dele.

Porém ele sabe que as filas podem apresentar diferenças transitórias muito grandes, assim, ele ainda se dá ao pequeno trabalho de olhar as filas próximas -- quem sabe não esteja no dia de sorte de pegar uma fila pequena?

O cliente do tipo (e) é igual ao tipo (d), porém ele nem mesmo olha as outras filas. Se houver uma fila muito menor que as outras, ele é capaz de evitar entrar nela. Ele confia tanto na auto-regulagem das filas que uma fila menor deve ter algo errado, como um caixa próximo de fechar ou um ladrão armado ameaçando o atendente.

O mercado eficiente é aquele onde os preços refletem a melhor estimativa do valor das coisas. Em resumo, ele auto-regula oferta e demanda. Isto não quer dizer que não haja preços distorcidos no mercado. Provavelmente todos os preços estão distorcidos! Porém essas distorções dever-se-iam a oscilações aleatórias e fatores ainda desconhecidos do mercado. E ninguém seria capaz de tirar vantagem dessas distorções.

Bolhas e pânicos não deixam de existir dentro da doutrina do mercado eficiente, são simplesmente reações ao conhecimento atual dos participantes do mercado (otimistas demais ou pessimistas demais). Os proponentes do mercado eficiente apontam que o "otimismo desenfreado" das bolhas e pessimismo dos pânicos só ganham esses rótulos quando analisados do ponto de vista histórico. É muito fácil dizer que uma bolha era "óbvia" 20 anos depois que ela aconteceu...

O fato é que mercados têm alguma eficiência, porque afinal de contas eles foram preços que em boa parte do tempo são razoáveis. Assim como as filas de supermercado normalmente tendem a apresentar comprimentos parecidos. A questão é "quão" eficiente é o mercado.

Apesar da crença generalizada hoje em dia de que os mercados são muitíssimo eficientes, isto ainda é apenas uma hipótese, e existem pilhas de evidências a favor e contra a eficiência "forte" do mercado. Existem basicamente três "sabores" na hipótese de eficiência do mercado:

* Hipótese da eficiência fraca: o mercado é eficiente até certo ponto, porém longe de ser perfeitamente eficiente.

* Eficiência semiforte: o mercado é bastante eficiente, porém pessoas com informações privilegiadas conseguem levar a melhor em cima do resto.

* Eficiência forte: o mercado é tão eficiente que ninguém consegue, na média e a longo prazo, levar a melhor em cima dos outros.

Os clientes tipo (a) e (b) do supermercado acreditam na eficiência fraca do mercado. Assim como eles procuram filas melhores, provavelmente eles acreditam em escolher bem seus investimentos, e talvez acreditem em intervenção do governo para corrigir distorções na economia etc.

Poderíamos comparar os clientes (a) com investidores fundamentalistas, pois eles baseiam suas decisões de investimento em análise de balanço. O balanço é uma informação pública e uma métrica relativamente simples.

Já o cliente (b) poderia ser comparado a um investidor grafista, que não acredita em balanços por serem simplistas demais, porém trabalha com técnicas mais abstratas, analisa padrões de comportamento etc. Outro possível tipo de cliente (b) é o fundamentalista com um "flash" adicional, que seja capaz de enxergar além do balanço e antever coisas como inflação, crescimento, taxas de juros etc.

Os clientes tipo (c), embora não existam no supermercado, podem existir no mercado financeiro na forma de "insiders", aqueles que possuem informações privilegiadas que ainda não foram a público. Eles acreditariam num mercado semiforte (forte para a maioria porém fraco para os espertalhões).

Muito da existência de entidades como a SEC americana e a CVM brasileira deriva duma crença num mercado semiforte, onde é importante combater o "insider trading" por danoso aos investidores "normais".

Os clientes tipo (d) e (e) podem ser comparados a investidores que colocam toda a sua fé no mercado. Eles acreditam que nem mesmo os "insider traders" têm vantagem consistente a longo prazo, devido ao fato do "insider trading" ser rapidamente descoberto e imitado; além do fato de que fatores imponderáveis podem contradizer até uma "tacada certeira" baseada em informações privilegiadas.

Fazendo uma analogia com o supermercado, o cliente tipo (c) pode ter lido a mente das pessoas na fila, mas não conseguiria prever que a caneta borraria a última folha de cheque, causando embaraço e demora totalmente inesperados. O cliente tipo (d) sabe disso e conforma-se.

Vamos enquadrar alguns investidores famosos nessa crença. Warren Buffett acredita que o mercado é fracamente eficiente; ele é um cliente de supermercado tipo (b). Chegou mesmo a dizer que "se os mercados fossem mesmo eficientes, eu seria um mendigo pedindo moedas na sarjeta". Considerando seu sucesso como investidor, Buffett pode ser tomado como uma grande evidência contra o mercado fortemente eficiente.

Ben Graham, o "Batman" do Buffett, era um cliente tipo (a): ele acreditava que a simples análise dos balanços e de fatos óbvios levava a escolher bons investimentos. Warren Buffett considera que a estratégia de Graham é simplista demais para os dias de hoje.

Peter Lynch é um investidor entre os tipos (a) e (b); ele acredita em métricas simples porém também presta muita atenção a itens completamente fora do universo das finanças. É dele a famosa recomendação de investir em empresas cujos produtos você conhece e gosta. Alguns detratores acusam Lynch de acompanhar "de perto demais" as empresas que compõem o seu fundo, o que o classificaria como um "insider trading" (tipo c).

É interessante notar que estes três monstros sagrados das finanças não acreditam em análise técnica (grafismo), e consideram importante economizar dinheiro em transações, evitando ao máximo ficar comprando e vendendo na tentativa de capturar os altos e baixos do mercado. Neste aspecto particular, eles têm um quê de crentes no mercado forte -- aproximam-se do cliente (e) que não fica olhando que filas parecem estar andando.

Finalmente, é curioso que o mercado precisa de todos os "tipos" de investidores para funcionar, e até mesmo para ser eficiente. Se não houvesse espertinhos como (a), (b) e (c), distorções de preço não seriam esvaziadas -- e as filas ficariam cada vez mais disparatadas, com todo mundo pegando cegamente a fila do último caixa.

Por outro lado, se não houvesse gente que entrasse em qualquer fila sem esquentar a cabeça, todos os "espertinhos" ficariam tentando competir entre si ao invés de passar a mercadoria, e ninguém sairia do supermercado senão depois de uma longa competição absurda e sem sentido (e os mercados tornar-se-iam ilíquidos, como os mercados de imóveis onde sempre há grande contenda entre comprador e vendedor). Viva a diversidade :)

Terça-feira, Outubro 07, 2008

Os males dos juros baixos demais

"O oposto de uma grande verdade é outra grande verdade" -- Pascal

Morando no Brasil, nos acostumamos a ouvir quase todo dia sobre as mazelas da inflação e dos juros altos. Nossa economia ainda não é "world-class" por tempo o suficiente para termos experimentado outros males simétricos: juros baixos e deflação. Mas podemos observar o que tem acontecido no mundo desenvolvido.

Todo mundo tem um palpite sobre as causas da crise do subprime: especulação imobiliária, debaclê do capitalismo, cassino no mercado financeiro, e por aí vai. Mas ninguém lembrou que uma das causas subjacentes é a baixa taxa-base de juros da economia americana. Os únicos dois lugares em que vi isso mencionado, foram numa série de vídeos do YouTube sobre finanças, e no livro "When Genius Failed" que na verdade mencionou este fator não para o subprime, mas para o excesso de crédito fornecido ao fundo LTCM que faliu em 1998 e quase levou os bancos junto (entre eles o Merril Lynch que desta vez não teve salvação).

O livro "When Genius Failed" cuidou de profetizar que novas crises semelhantes poderiam ocorrer, como de fato estão ocorrendo. E por quê? Talvez o principal fator seja que a baixa taxa de juros da economia seja uma remuneração muito baixa, ridícula até, para os poupadores.

O primeiro efeito da baixa taxa de juros é a priori benéfico: estimula o consumo. Ao invés de poupar, as pessoas compram mais casas e carros, tudo a prestações a perder de vista. O problema é que, se sobra dinheiro na praça, ainda que na forma de crédito, ocorre inflação de demanda. O "Zé dos Anzóis" só quer saber se a prestação cabe no salário, e a "Maria dos Anzóis" só quer saber de ter uma casa maior que a irmã mais velha. Nenhum dos dois pára pra pensar se está pagando duas ou três vezes mais do que deveria. Isto é particularmente verdadeiro para imóveis, cujo custo é muito menor que o preço (e é muito fácil "esconder" o ágio em coisas ambíguas e subjetivas como "boa vizinhança" e "colégio próximo").

Do outro lado da banca, estão os bancos e poupadores, descontentes com a remuneração que a taxa-base da economia proporciona. Aí eles tentam inventar meios de ganhar mais, como é perfeitamente humano também. Aí criou-se o tal do subprime: emprestar para pessoas menos confiáveis, para obter um juro um pouquinho maior que o padrão. Como decerto os poupadores convencionais estavam escasseando (devido à baixa remuneração), abusou-se da securitização desses empréstimos subprime.

A economia dos EUA já ensaiou entrar em crise diversas vezes desde 1997, quando a taxa-base de juros era 5,5%. A cada ameaça de crise econômica, eles baixaram os juros. Naturalmente funcionou. Porém não é possível baixar os juros abaixo de zero, nem mesmo muito abaixo da inflação.

Baixar os juros é um pente de balas de prata que tem um número limitado de tiros. Ou aumenta-se os juros logo após a passagem da crise, devolvendo bala ao pente (naturalmente deprimindo um pouco a economia, e isso é politicamente ruim), ou pode acabar-se num beco sem saída onde o juro real já chegou a zero e não pode ser novamente baixado para injetar mais liquidez na economia. Aí chega o Dia do Julgamento: a bolha imobiliária explode, muitas vezes a bolha na Bolsa também. E o governo não pode fazer nada.

E pode acontecer da economia nunca mais achar o rumo certo, que é aceitar juros mais altos, que remunerem convenientemente o investidor. Foi caso do Japão, que pratica juros próximos de zero desde os anos 90, e não tira o pé da lama desde então, porque partes importantes da economia acostumaram-se a funcionar neste ambiente. (Um comentário adicional é que o Yen é a moeda mais utilizada para operações Forex, basicamente porque pode-se tomar Yen emprestado virtualmente de graça.). O Japão ainda flutua (na verdade ainda é a 2a economia do mundo) graças a outras duas características: poupança interna teimosamente alta, e governo sem déficit (a taxa-base de juros é essencialmente um problema do setor privado).

Nesse estado de coisas, é interessante notar que a Europa sempre praticou juros historicamente mais altos que os EUA, embora do ponto de vista sistêmico não houvesse motivo para confiar-se menos na solidez européia que na americana. Os frutos disso podem ser colhidos agora: menor vulnerabilidade a crises do tipo que estamos vendo agora.

Os EUA têm dois caminhos para resolver seu problema: a via européia (deixar os juros voltarem a subir, e aguentem as conseqüências) ou a via japonesa (forçar o juro baixo "apadrinhando" o sistema financeiro, que só pode subsistir então com ajuda estatal). A estatização de bancos é um sintoma de adoção da via japonesa. Um aspecto que complica a comparação é o grande déficit e a grande dívida do governo dos EUA.

Paradoxalmente, o Brasil ocupa uma posição privilegiada nestes acontecimentos, justamente porque ainda pratica juros muito altos; os poupadores estão (muito!) contentes com o que recebem, assim não há excesso de crédito nem motivos para emprestar mal em troca de ninharias. A economia brasileira aprendeu a operar forte mesmo sob juros altos.

Depois do pânico passar, podemos nos dar muitíssimo bem, atraindo quantidades monstruosas de investimento, baixando nossos próprios juros a patamares mais próximos da Europa (aprox. 7% ao ano). Aí será nossa vez de descobrir se o Luís Inácio, o Zé e a Maria manterão a cabeça no lugar na época de bonança.

Segunda-feira, Outubro 06, 2008

Hora de ir às compras?

Crise aguda, histeria coletiva, "pânico global", termos que andam populando nossos noticiários econômico-financeiros. Inauguramos o recorde de 3 circuit breaks em uma única crise hoje, o já ocorrido e mais 2 hoje.

Agora, VALE5 à R$ 25,00, você já tinha visto? Existe alguma dúvida que a maior mineradora do mundo, passada a crise, volte a valores mais sãos? Parece ou não parece uma oportunidade de entrada única pensando no LLLP (longo-longo-longo prazo)? Quem teve sangue frio o suficiente, entrou. Já fechamos perto dos R$ 27 (no caso da vale5, que usei de exemplo emblemático).

Quarta-feira, Setembro 17, 2008

Black-Scholes in the HP-12C

Nothing like vacation to clear the "stupid things TODO backlog". After so many years without doing any program for the HP-12C, I put together a program that calculates calls and puts using Black-Scholes. (Sorry, no greeks yet! Probably will never have greeks, save for a Platinum version, since the Platinum has 400 programming steps.)

FWIW, it can be found at http://epx.com.br/ctb/bs12c.php.

Página de volatilidades implícitas consertada

A página http://epx.com.br/ctb/sorriso.php, que mostra as volatilidades implícitas das opções mais importantes da BOVESPA, estava com um bug estranho: conforme o mercado caía, menos e menos opções apareciam. Mas agora está consertado.

A princípio pensei que a culpa era da CBLC, por não atualizar seu arquivo de séries autorizadas, contra o qual eu verifico as opções que existem. No fim descobri que era um problema no script que faz download desse arquivo... não estava jogando o resultado na pasta em que o calculador da página estava esperando.

Software é isso aí. É engraçado que, se o mercado não tivesse caído, o problema não apareceria.

Segunda-feira, Setembro 01, 2008

Livro "Investindo no Mercado de Opções"

Como diz aquele ditado: um homem tem de fazer um filho, plantar uma árvore e escrever um livro durante a vida. Neste ano de 2008, aconteceram as três coisas :) Finalmente saiu o nosso livro sobre opções, pela Editora Novatec.

Naturalmente, o assunto do livro é o mercado de opções, com ênfase muito grande em opções de ações. Opções são títulos que dão o direito de comprar ou vender um determinado ativo a preço fixo no futuro. Diferente de um contrato de futuro, a opção é, bem, opcional -- o detentor só exerce se quiser, e só quando lhe é vantajoso.

Opções sempre me fascinaram, e por algum motivo a especulação com opções tem "funcionado" comigo muito melhor do que especular com ações. Consegui atingir uma lucratividade consistente fazendo trades com opções, o que não tinha conseguido antes fazendo o mesmo com ações. Talvez porque o valor das opções seja muito mais determinista (ou seja, segue regras matemáticas) do que o valor das ações; talvez esse determinismo case melhor com minha personalidade. (Em se tratando de ações, eu estou cada vez mais convencido de que buy-and-hold é o caminho das pedras.)

O conteúdo do livro é resultado de alguns anos de observações e da escrita de textos avulsos sobre o tema; alguns desses textos foram inclusive publicados no blog #d00dzFinance. No início de 2008, comecei a juntar tudo num único documento, e refinar o texto para que fizesse sentido neste novo formato. A intenção inicial era criar uma referência para uso pessoal, e talvez publicar como PDF. Além disso, escrever é um incrível exercício de aprendizado e autocrítica; escrever algo que haja possibilidade de terceiros lerem, força seu texto a fazer sentido, ser cotejado com outros autores e citar referências.

Especial atenção foi dada aos aspectos matemáticos da avaliação de opções. A literatura best-seller a respeito de opções tende a focar nos aspectos práticos das operações. No entanto, as operações que dão lucro hoje, podem não dar lucro amanhã. O investidor que deseja estar um passo à frente das fórmulas prontinhas, precisa compreender o valor de uma opção, e como esse valor pode se modificar. Isto implica em visitar a fórmula de Black-Scholes, as "gregas" das opções, e um pouco de estatística.

Certamente existem livros muito mais completos (em inglês) a respeito da matemática de opções. Eu mesmo possuo um: "Black-Scholes and Beyond". O problema de tais livros é que são praticamente impenetráveis; eu me considero razoavelmente inteligente, e tive dificuldades em digerí-lo. Tentei colocar os mesmos argumentos no meu livro, porém de forma muito mais acessível.

Um estudo que acredito ser razoavelmente inédito (certamente alguém já fez, mas ainda não encontrei material semelhante) é a análise matemática (gregas, etc) das operações mais comuns (venda coberta, travas e assim por diante), e não apenas das opções isoladas. Chegamos assim a algumas conclusões interessantes, como a pouca chance de sucesso das travas de baixa quando o operador não pode ficar acompanhando o mercado o tempo todo.

Voltando ao processo de elaboração: cheguei numa forma "final" para o texto durante as férias que tirei quando meu filho nasceu. Enviei a proposta do livro para a Editora Novatec, seguindo os passos do meu amigo Aurélio Jargas e tendo verificado quase por acaso que a editora já tinha alguns títulos a respeito de economia e finanças (não apenas livros técnicos como o do próprio Aurélio). A proposta foi logo aceita, e aqui estamos nós.

Além do incentivo indireto proporcionado pela "inveja saudável" em relação ao Aurélio, devo agradecer o incentivo de outros amigos, como o Osvaldo Santana, que vivia falando a respeito de publicar livros e trabalhar numa editora, enquanto nos dirigíamos para o trabalho em meio ao difícil trânsito de Recife. Espero que agora ele resolva-se a publicar o livro dele :) O Alfredo Kojima revisou minuciosamente o primeiro original. Embora eu não o conheça pessoalmente, o Bastter (Maurício Hissa) foi outro grande inspirador deste trabalho, através do seu site e do seu livro, grandes referências a respeito do mercado de opções brasileiro.

Também foi uma forma interessantíssima de entrar em contato com um mundo até então completamente desconhecido para mim, o da edição de livros. Por exemplo, muito trabalho de formatação que eu tinha feito no OpenOffice (já que intenção original era simplesmente publicar um PDF), foi simplesmente perdido. O fotolito do livro é gerado por um aplicativo completamente independente do Word ou OpenOffice; praticamente a única coisa que ele aproveita do arquivo original é o texto puro. Todos os aspectos de estilo são definidos pela editora. Lembrou bastante o LaTeX, onde o texto tem apenas algumas tags e tudo que envolve estilo é ditado pelo template.

Também as figuras são tratadas de forma semelhante ao LaTeX: o documento apenas referencia as figuras, que são fornecidas em separado. Originalmente eu tinha utilizado gráficos do OpenOffice Calc embutidos no texto, o que revelou-se um incômodo nos estágios finais de preparação do livro, pois todos esses gráficos tiveram de ser exportados como figuras-- e são muitos no livro, mais de uma centena. Vou utilizar uma ferramenta diferente numa eventual segunda edição (provavelmente o PyChart).

Enfim, espero que o livro agrade e seja útil àqueles que o lerem. Naturalmente, as sugestões e críticas serão muito bem-vindas.

Quinta-feira, Agosto 14, 2008

A cabeça do "investidor"

Segunda-feira, Julho 28, 2008

Paridade do poder de compra

Em 1997, um excelente artigo da Gazeta Mercantil contestava a validade dos índices de inflação. A charge era particularmente boa: um pesquisador analisando caixas de Big Mac e latas de refrigerantes com uma lupa, enquanto atrás dele, desapercebido, um gigantesco monstro comia casas, automóveis e fábricas.

A mensagem básica era que medir a inflação com base numa cesta de bens de consumo era ingênuo, pois bens duráveis estavam ficando caros muito mais rapidamente -- sem que isso fosse considerado inflação.

Mais do que nunca, o conteúdo do artigo parece verdadeiro. Demorou, mas a inflação dos bens duráveis está contaminando os bens de consumo.

Algumas observações empíricas que faço, de 1997 até agora. Automóveis estão custando quatro, cinco vezes mais. Casas e apartamentos também. A Bolsa de Valores também valorizou esse tanto. Na verdade, a Bolsa valorizou muito mais; mas isso pode ser explicado pela diminuição da taxa de juros (teoricamente, se a taxa de juros cai à metade, a Bolsa dobra, mesmo sem qualquer mudança nos fundamentos das empresas de capital aberto).

Isso me lembra aquela piada, em que um colecionador vende um selo raro por 1 bilhão. Mas não recebeu em dinheiro, e sim em de 2 selos de 500 milhões cada... O mesmo quanto à Bolsa: alguém pode alegar ter quadruplicado seu dinheiro em 10 anos, só para descobrir que o automóvel que ele desejava quintuplicou de preço no mesmo período.

Não são coincidências interessantes? Mais interessante ainda é que muitos desses aumentos foram atribuídos ao dólar, entre 1999 e 2002. Só que estamos em 2008 e o dólar está no mesmo patamar que 1999. E aí? Por que um automóvel continua custando 4 vezes mais, e agora em dólar?

Uma coisa engraçada é que, por algum motivo, as pessoas toleram melhor esse tipo de inflação, enquanto são extremamente alérgicas a aumentos de preço nos itens de consumo. As ruas estão cheias de picapes cujo preço é R$ 150 mil (acho que nunca vou ter coragem de gastar isso num simples automóvel!). Todo mundo fica feliz quando sua casa dobra de valor no mercado imobiliário. Mas todo mundo fica chateado quando o quilo do feijão aumenta 30%.

O problema é que o plantador de feijão também precisa morar em algum lugar, e também gostaria de ter um carro. Quando ele descobre que a mesma lavoura só compra meia casa, ele desiste de plantar. Demora um pouco, mas a conseqüência é inevitável: o feijão sobe de preço.

Naturalmente, o feijão é contabilizado no índice oficial de inflação, e aí todo mundo começa a reclamar, porque a poupança está perdendo da inflação etc. etc. Na verdade, é tarde demais: a poupança já perdeu da inflação lá no passado. O quilo do feijão é apenas a conseqüência visível.

A outra faceta dessa paridade nos valores dos bens duráveis pode ter uma conseqüência interessante para os investidores. Muitos investidores lamentam-se de não ter colocado o dinheiro na Bolsa em 1999, porque hoje ele valeria muito mais. Outros afligem-se por terem comprado ações na alta e agora elas estarem caindo.

Mas, se os bens duráveis têm preços interrelacionados (para não dizer sincronizados), na verdade pouco importa o momento de entrar na Bolsa. Se você comprar Petrobrás e Vale e elas caírem, isso é chato. Mas se isso aconteceu, é porque petróleo e ferro estão ficando mais baratos. Isso vai traduzir-se em automóveis mais baratos para comprar e manter. Com energia mais barata, o cimento que constrói a casa também fica mais barato. E assim por diante. O padrão de vida não fica sensivelmente melhor ou pior apesar das oscilações da Bolsa.

Comprar uma ação seria como comprar uma casa: ela tem um valor intrínseco e uma utilidade bem definidas. Se você compra uma casa e ela desvaloriza 30%, isso não importa muito porque você ainda pode morar dentro dela.

Isto é perfeitamente consoante com a estratégia de "comprar e manter" (buy and hold), em particular a variante que aconselha pequenas compras periódicas na Bolsa. A idéia original desta estratégia é formar um bom preço médio nas ações, pois compra-se tanto nas épocas de baixa como de alta.

Talvez essa estratégia, por ser reconhecidamente boa, encerre uma verdade mais profunda: que o único jeito de acumular patrimônio é economizando. A única diferença entre colocar na poupança ou na Bolsa é que, na poupança, a unidade de medida é o real (ou o dólar), enquanto na Bolsa a "moeda" é o poder de compra de bens duráveis.

A outra diferença é que ações da Bolsa geram dividendos, porque o dinheiro está indo para atividades produtivas. Toda a vantagem que a Bolsa leva em cima da renda fixa, a longo prazo, é a geração de dividendos.

Os únicos dois grandes erros que o seguidor do "buy and hold" pode cometer são: comprar muito na bolha, e vender tudo no pânico. Bolhas e pânicos são momentos em que a Bolsa está consideravelmente distorcida em relação a outros bens duráveis. Isto acontece com *todos* os bens duráveis, não só com a Bolsa.

Se o investidor seguir fielmente à estratégia do Ben Graham, de comprar todo mês um valor fixo e pequeno, automaticamente evita esses erros, pois as bolhas duram relativamente pouco (diminuindo o número de compras ruins). Os pânicos costumam durar mais, o que também é vantagem pois dão a oportunidade de comprar mais ações bem baratinho.

Ben Graham também prescreve deixar mais de 50% das economias em renda fixa, para que sirva como "colchão" e evite a necessidade de vender no pânico, em caso de necessidade pessoal. Peter Lynch ensina que antes de tudo deve-se possuir sua própria casa, pois se todos os outros investimentos falharem, ao menos você tem onde morar, e um imóvel valoriza ao longo do tempo, embora lentamente.

Resenha: The smartest guys in the room

Este livro conta a história da Enron, a tristemente famosa empresa de energia que faliu em 2001. Assim como o fundo LTCM, o processo de queda também desenrolou-se em poucas semanas, e diferentemente do LTCM, deixou um grande rombo na praça.

Livro muito recomendado, por ser instrutivo a respeito das manhas e mutretas do mercado acionário e da contabilidade corporativa. Algumas considerações aleatórias:

* Mostra o quanto a cobertura jornalística normal e a Wikipedia são parciais (no sentido de incompletos). Feliz ou infelizmente, livros ainda são o veículo para se obter conhecimento sólido a respeito de algum assunto.

* Por diversas razões, quase sempre que se menciona a Enron, menciona-se a crise de energia da Califórnia em seguida, como se fosse uma relação 1:1. Este caso foi apenas uma das encrencas em que se meteu a Enron. Por outro lado, a Enron foi apenas uma das manipuladoras do mercado on-line de energia (nem mesmo foi a maior).

* A Enron nasceu de uma fusão de duas empresas de gás natural, e precisava de um nome "chamativo" para agradar o mercado. O nome originalmente escolhido pela consultoria foi Enteron. Depois de algum tempo, alguém mencionou que "enteron" é o nome de um pedaço do intestino, e a empresa seria motivo de piada. A remoção de uma sílaba resolveu o problema.

* As fraudes contábeis da Enron tinham o objetivo de inchar a receita, de modo a inflar o preço das ações. Por exemplo, a receita esperada de um contrato de 20 anos era contabilizada imediatamente (embora o dinheiro levaria 20 anos para entrar). Isso obrigava a empresa a fechar contratos novos o tmepo todo. Por outro lado, o reconhecimento de perda de projetos malfadados era adiada o máximo possível. Mas isso não quebraria a empresa também.

* O que quebrou a Enron foi contrair empréstimos dando suas próprias ações como garantia, bem como dependendo do "rating" de grau de investimento das agências de análise de crédito (aquelas mesmas que deram o grau de investimento ao Brasil esses dias). Com a descoberta das fraudes contábeis, as ações caíram, o que provocou o corte do crédito. Como a Enron produzia muita pouca receita de verdade (dinheiro), quebrou em questão de semanas.

* A necessidade extrema de dinheiro emprestado era conseqüência direta de esbanjamento. Para fechar rapidamente os contratos que inflavam a receita, muitas vezes a Enron concordava em adiantar vultosas quantias ao contratante. E a cultura interna da Enron era de total desperdício e generosa distribuição de benesses aos executivos.

* O papel dos bancos nessa lambança foi emprestar dinheiro à rodo, sem contestar muito o que a Enron andava fazendo. Isso é conseqüência da baixa taxa de juros; os bancos estavam procurando desesperadamente fontes novas de receita. Por um instante, foi agradável estar no Brasil, onde os bancos não fariam tamanha bobagem porque emprestam todo o dinheiro ao governo :)

Por último, e o que mais interessa a nós investidores, é a promiscuidade entre bancos, empresas de auditoria e analistas de mercado. Depois deste livro, não pretendo nunca mais dar ouvidos a um analista de mercado. Exemplos:

* Todo banco tem analistas de mercado, que recomendam ações e fundos aos clientes. Porém, eles são pressionados a recomendar ações da empresa X, porque outros setores do banco têm interesse em fazer negócios com X, e X pede essa recomendação como "reciprocidade". E os empréstimos contraídos por X são lastreados pelas ações X.

* As empresas de auditoria fazem mais dinheiro com consultoria do que com auditoria mesmo. Se a auditoria "queimar" a empresa X, ela não contrata mais os consultores. Aí rola aquela pressão para a auditoria pegar leve.

* A Enron perseguia sistematicamente os analistas de mercado e administradores de fundos que duvidavam de sua saúde financeira. Um deles teve de trocar de emprego duas vezes. Outro foi chamado em público de "asshole" e "antipatriótico" por ser um conhecido apostador em baixas.