O sorriso da volatilidade
Como muitos já devem saber, opções são direitos de compra ou venda de uma ação por um preço determinado. Diferente de um contrato de futuros, este direito não gera nenhuma obrigação por parte do detentor da opção.
Os únicos custos para o detentor são o prêmio, ou seja, o valor pela qual a opção foi comprada, e o risco de "virar pó", ou seja, da opção não ter valor nenhum no dia do vencimento, pelo fato da cotação de mercado da ação ser mais vantajoso que o exercício da opção.
Opções podem ser úteis em várias formas de investimento, das quais vou ressaltar três: como "seguro" contra queda excessiva de uma ação que você tenha; como reserva de uma ação que ainda vai ser lançada no futuro (exemplo: ALLL11); e finalmente como meio de investimento direto, este muito arriscado pelo risco de "virar pó".
Em particular opções de venda são úteis como seguro contra queda do preço. Por exemplo, você compra Petrobrás a 40 reais, e obtém opções de venda a 40 reais.
Isso garante que você vai conseguir vender suas ações a pelo menos 40 reais no exercício da opção.
Se a ação subir mais, a opção deixa de ter valor, mas aí a ação está rendendo. É desta forma que os investimentos "com principal garantido" são construídos.
Teoricamente, o maior componente do preço de uma opção é a diferença entre o preço de exercício e o preço de mercado. Por exemplo, uma opção de venda a 50 reais deveria valer em torno de 10 reais quando Petrobrás valesse 40. Qualquer opção de venda com valor menor ou igual a 40 não tem qualquer valor intrínseco.
Na verdade elas têm valor maior que zero pois vendem uma proteção contra eventos futuros. A fórmula de Black and Scholes é basicamente uma média ponderada dos possíveis preços futuros da ação.
Assim, mesmo opções "out of the money" (com valor intrínseco nulo) terão valor, pois existe uma chance, por menor que seja, do preço da ação mexer-se muito e cair na faixa em que a opção volta a ser interessante.
Os três "inputs" mais importantes de Black and Scholes são: valor intrínseco (óbvio), taxa de juros e volatilidade, matematicamente expressada como a variância. Naturalmente, quanto maior a volatilidade, maior a chance do preço da ação atingir níveis "inesperados". A volatilidade sempre aumenta o preço da opção, seja ela de compra ou de venda.
Até aqui tudo bem, parece extremamente fácil criar um investimento com "principal garantido". Digamos, se você comprar Petrobrás a 40 e obter opções de venda a 38, protege 95% do seu principal. Como a opção de venda a 38 não tem valor intrínseco, deveria sair a preço de banana.
O problema é que na prática, em todos os mercados, tais opções "out of the money" sempre apresentam preços maiores que o calculado por Black e Scholes.
Tal distorção é denominada "sorriso da volatilidade". Advém do fato de que é preciso adicionar um "x" de volatilidade à fórmula original para fazer o preço teórico concordar com o mercado. Quanto mais "out of the money", maior o "x", formando uma curva que lembra um sorriso irônico com o canto da boca.
Em alguns mercados, a mesma distorção acontece no sentido inverso, ou seja, quanto mais "in the money" estiver a opção, mais cara ela fica.
Na pratica, isto significa que quem adquire uma opção de venda está pagando mais caro do que deveria. E por que paga? Isto é objeto de muito estudo. O mais provável é o medo do futuro. A lembrança de eventos catastróficos (quebra da Bolsa etc.) aumenta o preço do "seguro".
Isso explica porque os fundos de investimentos com principal garantido não rendem lá essas coisas. Também é algo que vai dificultar sua vida na hora de construir um investimento ação + opção de venda. Talvez seja necessário adquirir a opção de venda num momento diferente da ação, aproveitando momentos de preços mais baixos de um e outro.
Por outro lado, o "sorriso da volatilidade" torna o investimento puramente em opções um pouco menos arriscado, pois assegura que uma opção ainda encontre mercado (com prejuízo, naturalmente) mesmo quando esteja "óbvio" que ela vai virar pó.
