Quarta-feira, Agosto 22, 2007

Opções 102

Depois da nossa tentativa de explicar opções didaticamente, voltamos nossa atenção para o problema de AVALIAR opções, ou seja, determinar o seu preço. Não é nada fácil.

Vamos abordar o problema começando novamente pelo seguro de automóvel, nosso primeiro exemplo de "derivativo". Embora tal seguro não possa ser comprado e vendido no mercado, podemos calcular seu custo:

Prêmio = (Valor do carro) x (Chance de perda total durante 1 ano) x (1 + % de lucro)

Estamos aqui presumindo que o único tipo de sinistro é a perda total. Para um automóvel que vale $10.000, cuja chance de sinistro seja 5% ao ano e o lucro desejado da seguradora seja 20%, o prêmio custa 10000 x 0.05 x 1.2 = $600.

Este é o valor para 1 ano de cobertura. Se vendermos nosso carro 3 meses antes do final da cobertura, e transferirmos nosso seguro ao novo dono, podemos cobrar dele $150 de seguro, que é o valor proporcionalmente a 3 meses.

Veja que a apólice de seguro vale cada vez menos na medida que o tempo passa, até virar pó no final da vigência. Guarde bem esse fato, porque o mesmo acontece com futuros e opções.

No caso dos contratos de futuros, onde ambos os lados buscam proteção, o lucro dá lugar à bola de cristal, ou seja, à expectativa dos contratantes.

Contrato = [(Preço atual do ativo) - (Preço garantido "strike")] x (expectativa)

Supondo um contrato de açúcar a $30, sendo que o preço atual do mesmo já está a $35. O preço do contrato vai ser $5. Se existe uma expectativa de mercado que o açúcar suba ainda mais, provavelmente o contrato vai custar mais que $5.

Note que o preço do contrato de futuro pode ficar "negativo". Se eu contratei fornecimento a $30 mas o açúcar vale apenas $20, terei de pagar $10 a alguém para levar o mico embora. Este é o problema dos contratos de futuro: geram obrigações para ambos os lados.

Quanto mais próxima estiver a data de exercício do contrato, o fator expectativa tende a 1, ou seja, inócuo, pois menos oscilações de preço são esperadas num tempo curto.

Agora, chegamos nas opções. Diferente dos contratos de futuros, elas não geram obrigações, apenas direitos. Uma tentativa bisonha de avaliar a opção de compra seria:

Prêmio = [(Valor da ação) - (Valor garantido pela opção)] x Expectativa

Se Petrobrás está valendo $50, e a opção garante compra a $40, seu valor INTRÍNSECO é $10. Se existe uma expectativa que Petrobrás suba ainda mais até o EXERCÍCIO da opção, certamente custará mais que $10.

Ah, eis o problema das opções. Assim como seguros e futuros, as opções têm validade limitada. Elas podem ser exercidas num dia certo. Passado esse dia, se ela não for exercida, não vale mais.

É por isso que é perigoso especular puramente em cima de opções. É como comprar uma caixa de tomates esperando que eles subam de preço. É bom que suba rápido, porque em uma semana estarão podres :)

A fórmula bisonha para calcular o valor das opções é um começo, pode servir como um guia, mas é simplista demais. Se, por exemplo, Petrobrás estiver valendo $40, a opção de compra a $40 estaria valendo zero. Mas se você verificar as cotações da BOVESPA, vai ver que opções nesta situação têm valor bem alto até.

Por que? Simplesmente porque existe uma chance razoável de Petrobrás subir acima de $40 a qualquer momento. E então a opção passa a ter valor intrínseco. Ou seja, o valor de uma opção é muito baseado em probabilidades.

Uma opção pode estar em três situações muito distintas, do ponto de vista da avaliação. Falando de opções de compra:

OUT OF THE MONEY: "STRIKE" (preço garantido) é maior que o preço da ação subjacente. Ou seja, o valor intrínseco da opção é nulo. Se a opção chegar ao dia de exercício nesta situação, ela vira pó. Azar de quem adquiriu a opção.

AT THE MONEY: Strike igual ao preço da ação. O valor intrínseco da opção ainda é nulo, mas pode subir a qualquer momento.

IN THE MONEY: Strike menor que o preço da ação. A opção tem valor intrínseco. Se ela estiver nesta situação no dia do exercício, valerá a pena exercê-la. Azar de quem lançou a opção.

Opções profundamente in-the-money têm valor de mercado praticamente igual ao valor intrínseco, ou seja, vale nossa fórmula bisonha. Opções profundamente out-of-the-money valem quase nada, como é de se esperar.

Opções at-the-money são as mais difíceis de avaliar, pois seu valor é baseado em probabilidades. Veremos mais à frente como calcular isto.

Um outro ingrediente crucial para avaliar opções é o TEMPO. Quanto mais distante estiver o dia do exercício, mais vale a opção. Isto é fácil entender. Uma opção que vai ser exercida amanhã não vale quase nada se estiver out-of-the-money, pois o mercado não vai mudar muito em 1 dia.

Por outro lado, essa mesma opção vale um bom dinheiro se for exercida daqui a 1 ano, pois tudo pode acontecer num tempo tão longo.

Muito bem, até agora parece que avaliação de opções é exercício de chutologia. Demorou bastante até alguém sair com fórmulas para avaliação de opções, mas aconteceu.

O primeiro mecanismo de avaliação é o BINOMIAL. Tem a vantagem de ser aplicável a qualquer tipo de opção ou futuro. Tem a desvantagem de não ser uma fórmula fechada, sendo necessário usar um computador para calculá-la (ou então bastante lápis e borracha).

Funciona assim: simula-se todos os cenários possíveis, dia a dia, de hoje até o dia do vencimento da opção. Alguns cenários finais são lucrativos, outros dão prejuízo. O valor da opção é a média ponderada de todos os cenários. Vamos ver um exemplo.

Supondo que compramos a opção de compra PETRA50, vencimento em Janeiro, strike a $40. O preço atual de Petrobrás é também $40. Portanto a opção está at-the-money. Nós estamos em Dezembro.

De acordo com as estatísticas, nós estimamos que Petrobrás tenha uma volatilidade de 10% ao mês, ou seja, oscile 10% para cima ou para baixo a cada mês. Se o preço de Petrobrás é $40 hoje, pode acontecer duas coisas em 1 mês:

a) Petrobrás sobe para $44. Neste caso, nossa opção valerá $4 no vencimento.

b) Petrobrás desce para $36. Neste caso, nossa opção vira pó.

O valor da opção é $2, pois tem 50% de chance de valer $4, e outros 50% de chance de valer nada.

Opa, esquecemos de levar em conta a taxa de juros. Quatro reais valem apenas $3,96 hoje. Portanto a opção vale mesmo é $1,98.

Vamos agora supor que não estamos em Dezembro, mas sim em Novembro. Isso dá 2 meses para o preço se movimentar. Neste caso, temos três desfechos possíveis:

a) O preço pode subir a $48,40 ($40 + 10% + 10%). A opção vale $8,40.

b) O preço pode manter-se em $40, por ter subido 10% e caído 10% em seguida. A opção não vale nada.

c) O preço pode manter-se em $40 por ter *caído* 10% e subido 10% em seguida. A opção não vale nada.

d) O preço pode cair a $33,05. A opção não vale nada.

Note que os desfechos (b) e (c) são exatamente iguais, é uma coisa normal do processo binomial.

Neste caso, o valor da opção é $2,10 (25% de $8.40), sem levar em conta os juros. Note que aumentar o prazo de vencimento em um mês acrescentou 10 centavos no valor da opção.

Tudo isto é muito bonito, mas todo o raciocínio desmonta se a ação mudar de valor. Se Petrobrás subir para $41, todos os cálculos têm de ser refeitos. O cálculo binomial tem de ser refeito o tempo todo, conforme muda o preço da ação.

Preste também atenção à importância da volatilidade. Se ela fosse zero, ou seja, se os preços não se movessem, o raciocínio binomial é inútil. E na verdade as opções não serviriam para nada. O valor das opções reside no fato do futuro ser desconhecido. Ninguém faria seguro de vida se tivesse absoluta certeza de não morrer.

Como foi dito, o processo binomial é tedioso, sendo necessário um programa de computador para calculá-lo. É desejável utilizar uma unidade de tempo pequena para aumentar a precisão do cálculo. Ao invés de mês a mês, deve-se formar a árvore binomial dia a dia. Isso dá 60 passos em 2 meses. Bastante trabalho para o computador.

Os economistas Black e Scholes desenvolveram esse raciocínio, usando tempos cada vez menores na árvore binomial, e chegaram a uma fórmula fechada para avaliação de opções. Foi uma grande conquista, mas muita gente ainda continua usando binomiais.

Tanto o processo binomial quanto a fórmula de Black e Scholes dependem incrivelmente da correta estimativa de VOLATILIDADE. É fácil achar estatísticas de volatilidade para todas as ações, porém ninguém pode realmente prever a volatilidade futura.

Como as pessoas têm mais medo dos preços caírem do que dos preços subirem, a volatilidade "para baixo" é considerada maior que a volatilidade "para cima", embora isso matematicamente não faça sentido. Este fato empírico, conhecido como "sorriso da volatilidade", faz as opções de venda custarem mais caro que as opções de compra, porque as opções de venda servem tipicamente para proteger o capital em quedas.

Em resumo, os fatores que influem na avaliação de opções de compra são:

-> Tempo até o exercício (positivamente)

-> Volatilidade (positivamente)

-> Aumento do preço da ação subjacente (positivamente)

No caso das opções de venda, é tudo igual, exceto que o preço da ação subjacente influencia negativamente no valor da opção. Ou seja, quem detém opções de venda, se dá bem quando o mercado cai...

O impacto da taxa de juros é bem mais díficil de avaliar. Como vimos, os juros descontam os lucros futuros, o que diminui o prêmio, não importa se a opção é de compra ou de venda.

Porém, há o aspecto do desembolso na hora de exercer a opção. Se você possui uma opçào de compra PETRA50, você *planeja* gastar 50 reais em Janeiro. Isso quer dizer que você já tem esse dinheiro, ou tem absoluta certeza dele em janeiro, certo?

Se as taxas de juros subirem, você pode colocar esses 50 reais na renda fixa, e em janeiro você terá o suficiente para exercer a opção, e *mais* um juro extra. Ou seja, sua opção lhe deu mais lucro do que o esperado.

Isso significa que: um aumento na taxa de juros aumenta o valor de uma opção de compra.

Já quem tem uma opção de venda, tem a garantia de receber um determinado valor. Quem possui PETRM50 vai receber $50 em Janeiro, haja o que houver. Se estamos em Novembro e a taxa de juros é 1% ao mês, esses $50,00 valem $49,02.

Se a taxa de juros subir, o valor presente vai cair. Se por alguma desgraça a taxa de juros subir para 2% ao mês, o valor presente de $50,00 será de $48,06. Está óbvio que a opção de venda perde valor quando o juro sobe.

Terça-feira, Agosto 21, 2007

Conseguir poupar, eis o problema

Quase todos os textos sobre investimentos, e isso inclui nosso blog, sempre partem do pressuposto que o leitor já tem um monte de dinheiro, e não sabe aplicá-lo. Na verdade, a situação é diametralmente oposta: a maioria das pessoas interessada no assunto ainda está pensando em economizar algum. Ler sobre este ou aquele investimento saboroso é uma tentativa de ganhar "inspiração" para a impossível tarefa de POUPAR DINHEIRO.

Não há como investir sem primeiro poupar dinheiro. E na verdade é preciso poupar *muito* dinheiro para investimentos sofisticados como ações e opções. Abrir uma conta numa corretora exige depósito mínimo de 5 mil reais. Existem pessoas entre nós que ganham isso todo mês, mas entra ano, sai ano e elas não conseguem juntar nada. O que dizer então de quem ganha salário mínimo?

Para quem não pode guardar muito, só existe uma saída: caderneta de poupança. E ela não é tão ruim quanto se apregoa. Na verdade, se analisarmos historicamente, ela nunca foi ruim. É uma das poucas coisas boas do Brasil: um investimento popular, que rende juros reais, garantido pelo governo, livre de impostos e aberto à qualquer poupador, por mais modesto que seja.

Parece desanimador. O caminho para chegar a investir em Bolsa ficou ainda mais longo... Mas é como diz o ditado, quem tem pressa que comece mais cedo. Mas afinal, por que é tão difícil poupar? Eu tenho uma teoria maluca a respeito disso, que gostaria de compartilhar.

Vivemos numa sociedade capitalista, onde tudo tem seu preço. Isso parece terrível, mas não é. É algo muito belo, em particular porque TANTO OS MEIOS DE PRODUÇÃO (O CAPITAL), QUANTO O TRABALHO, QUANTO OS BENS DE CONSUMO, TÊM VALOR EXPRESSO NA MESMA UNIDADE MONETÁRIA.

Isso parece uma coisa idiota, mas a civilização levou bastante tempo para chegar lá. Na Idade Média, o único meio de produção relevante era a terra, e apenas os nobres a possuíam. A "moeda de troca" dos feudos eram os casamentos entre famílias nobres. Até mesmo benfeitorias como moinhos, passíveis de serem construídas com "investimento" de trabalho do servo, eram de posse dos nobres.

A riqueza seguia um caminho de mão única: nascia e crescia na terra, era beneficiada com o trabalho dos servos, e no final virava alimento. Nunca poderia fluir no sentido oposto, ou seja, ser reutilizada para comprar mais terras.

Não adiantaria um servo ou um burguês artesão economizar a vida inteira, ele nunca conseguiria comprar um pedaço de terra. (Muito mais tarde, abriu-se a possibilidade de comprar títulos nobiliárquicos, numa tentativa de manter esse sistema à tona.) Na verdade, um servo não teria como economizar, pois suas únicas "modeas" eram o trabalho e a colheita, e nenhuma das duas pode ser estocada indefinidamente.

Nesse mundo, capital não se confundia com dinheiro. Dinheiro servia para transacionar mercadorias e serviços, mas não bens de capital. A sociedade ficava eternamente dividida em castas. Havia uma vantagem: devido à pouca utilidade do dinheiro, os juros eram baixos. Na verdade, juros eram expressamente proibidos pela Igreja Católica.

A Igreja Católica tinha grande participação nesse esquema, por ser a maior proprietária de terras da Europa. Não interessava à ela que se pudesse cobrar juros, pois neste caso o dinheiro tornar-se-ia fonte de renda, desprendendo as pessoas da terra. Esse modo de pensar não era pura maldade: a Igreja era cliente do pensamento aristotélico, e os gregos também estruturavam assim seu sistema econômico, colocando a terra como capital sem preço.

Uma das poucas formas de juntar "capital" era fazer muitos filhos. Sendo o trabalho o único meio de produção possuído pelos servos, ter uma família numerosa era vantajoso. Aumentar o rebanho de animais era outra forma, já que as pastagens eram um bem comum (o que dá a origem da expressão "tragédia dos comuns", que ocorre quando os rebanhos esgotam a pastagem). No Haiti era comum as pessoas usarem porcos como reserva de valor e moeda de troca.

Mas com o tempo, aqui e ali, diversos grupos davam um jeito de usar dinheiro ou ouro diretamente como meios de produção. Os judeus são o grupo mais conhecido, mas também havia os genoveses, e mesmo dentro da Igreja havia os cavaleiros templários. Aí veio o mercantilismo, e finalmente, veio a Reforma Protestante, que é um dos pilares do capitalismo moderno.

Todo esse processo não aconteceu da noite para o dia. Ainda encontramos resquícios medievais aqui e ali. Por exemplo, restrições à compra de ouro ou moeda estrangeira -- pois os excusados da restrição poderão adquirir bens inacessíveis à maioria. O comunismo provou ser um retrocesso essencialmente pelo mesmo motivo.

Unificar a expressão do capital e do consumo em uma única unidade monetária é tão revolucionário quanto a Escala Temperada foi para a música, pois unificou coisas justapostas porém imiscíveis (no caso da Escala temperada, foram as músicas baseadas em bemóis versus as músicas com sustenidos).

Enfim, voltando aos dias atuais, o dinheiro em nossa sociedade capitalista serve a dois propósitos completamente diferentes:

-> adquirir bens de consumo e serviços;

-> adquirir bens de produção, ou seja, capital.

Opcionalmente, o próprio dinheiro pode "ser" capital, gerando juros, mas quem toma emprestado esse dinheiro certamente vai adquirir alguma coisa com ele.

Tudo isso tem uma grande vantagem:

-> Dá a suprema liberdade de qualquer pessoa vender seu trabalho, poupar e passar a ser um detentor de meios de produção.

E uma grande desvantagem:

-> Aumenta muito as taxas de juros, em relação aos patamares seculares, devido à maior demanda do dinheiro para as mais variadas iniciativas.

Mas esta desvantagem vira novamente uma vantagem:

-> Permite ao poupador aumentar de forma significativa o capital, tão-somente sob efeito do tempo.

Nos tempos modernos, a taxa de juros "padrão", com que se pode contar em quase qualquer lugar e década, é 12% ao ano. Talvez seja necessário investir de forma ligeiramente mais arriscada em determinadas épocas, mas é perfeitamente obtenível. 12% ao ano é 1% ao mês, porcentagem que usaremos daqui para frente.

De forma muitíssimo genérica, podemos afirmar que existe uma relação matemática universal entre renda (que presumidamente vamos consumir) e capital:


Capital x 0,01 = Renda mensal


Se possuímos um capital de 100 reais, podemos facilmente extrair dele uma renda de 1 real por mês. Ou seja, apesar de capital e consumo serem expressos na mesma unidade monetária, existe um "degrau" bem íngreme entre os dois.

De maneira geral, quem gosta de poupar, se dá por feliz pelo fato desse degrau ser de apenas 100:1, e não ser infinito, como era na Idade Média. É melhor poupar do que ter de disputar justas e casar com uma princesa retardada para ser alguém.

Quem tem dificuldade de poupar, é essencialmente porque acha esse degrau horrivelmente alto. Parece-lhe ruim deixar de gastar 1000 reais prazerosamente, para perceber apenas 10 reais/mês em troca!

Graças ao fato que renda pode ser acumulada para virar capital, o dinheiro cresce exponencialmente com o tempo, se deixado intocado. Naturalmente ele não pode crescer infinitamente; um excesso de dinheiro na economia é contrabalançada por uma queda na taxa de juros (que aumenta o degrau renda:capital).

Considerando a taxa de 12% ao ano, o degrau capital:renda diminui para 30:1 se o dinheiro render juros por 10 anos. Isso significa que 33 reais economizados e reaplicados por 10 anos, gera 1 real de renda todo mês, pois os 33 reais terão engordado até 100. A chave aqui é o tempo. Quem tem pressa tem de sair mais cedo.

Considerando 30 anos de aplicação remunerada por renda fixa, o degrau diminui para apenas 3:1. Considerando 40 anos, o degrau desaparece. Um real economizado hoje gera um real de renda *mensal* daqui a quarenta anos. Mas poucas pessoas conseguem pensar nesses termos. Nem eu consigo. Afinal, estamos na era dos 15 minutos de fama...

Uma conseqüência "ruim" do capitalismo, e nesse aspecto ele anda de mãos dadas com o protestantismo, é que ele coloca uma tremenda responsabilidade sobre o indivíduo. O protestantismo ensina que cada um é individualmente responsável por sua salvação. O capitalismo permite a cada um ser rico desde que se discipline. Se não conseguir, você é um perdedor preguiçoso.

Talvez seja este o pivô das críticas ao capitalismo. Os socialistas não crêem que todas as pessoas sejam tão pesadamente imputáveis a respeito dos seus próprios destinos. Eu mesmo, que sou um liberal extremista, sou assaltado periodicamente por esta dúvida. Mas tenho concluído que as pessoas são sim grandemente responsáveis pelo seu futuro financeiro.

Poupar é uma filosofia de vida. Coletei algumas dicas de livros e pessoas. Quase nenhuma é de minha autoria; eu tenho dificuldades em poupar, tanto quanto o resto do mundo.

-> Poupar tem de ser uma filosofia de vida, praticada o tempo todo. E de preferência deve ser inclusive objeto de divertimento. É preciso ser como o mineiro ou o cearense da literatura.

-> Muita gente que não consegue poupar normalmente, consegue assumir a prestação de um financiamento. Isso é ruim pois mostra que só se consegue "economizar" se for para consumir. Mas pode ser bom porque mostra que há espaço no orçamento para acomodar um plano de poupança.

-> Seguindo esta linha de raciocínio, procure viver consistentemente com menos do que realmente ganha. É inclusive um bom exercício para os tempos em que você realmente tiver seu salário diminuído.

-> Planos de poupança e investimento têm de envolver toda a família. A má notícia é que seus familiares serão os primeiros a sabotá-lo. Ou então fazer sugestões ruins de investimento (como ir morar num apartamento maior) e ficar chateados se não forem acatados.

-> Além da família, a pressão por aparentar um nível social é um inimigo mortal da poupança. Devido à "utilidade marginal do dinheiro", quanto mais se ganha, mais caros ficam os bens desejados, e mais se gasta. Finja ser pobre, literalmente.

-> Pense na poupança como um ingresso para a liberdade. Ingressos podem perder-se. O mesmo para uma poupança mal investida. Tenha espírito preparado para eventuais perdas. Daí a importância de poupança ser uma filosofia de vida, e ser divertido.

-> Devo alertar novamente para o problema da família, tanto a próxima como a estendida. Família é uma instituição com forte ênfase na igualdade e fraternidade. Se você ganhar na loteria, consegue descolar-se de uma vez. Mas se tentar poupar aos poucos, "forças ocultas" vão tentar redistribuir seu dinheiro. Finja ser pobre.

Operação "covered call" de verdade

Desta fez fizemos para valer: uma pequena operação "covered call", conforme descrita no post anterior. Dados da operação:

-> Compra de um lote PETR4 com preço médio de 45.25. Total desembolsado: $4.525,15.

-> Venda de um lote de PETRI48 (opções de compra a 48.58, para o dia 17/9) a 1,70 cada. Total recebido: $170,00.

-> Líquido desembolsado: $4.395,15, já descontadas as taxas de corretagem.

Nem tudo foi feito na mesma hora, procuramos comprar barato e vender caro. Uma calculadora de opções foi muito importante para determinar quais opções estavam "caras", portanto boas para vender.

Interessante que hoje o dia estava melhor para comprar opções, a maioria das opções PETR estavam baratas. Apenas a PETRI48 estava boa para vender, e coincidência ou não era a mais líquida do dia.

Potencial máximo de retorno se formos exercidos: $4.838,00. Isso dá 11% ao mês! Nada mal. A única desvantagem é que levam nossa PETR4 embora.

Por outro lado, se PETR4 cair abaixo de 43,55, estaremos no prejuízo, mas não nos importamos, porque temos interesse de longo prazo nesta ação.

Quarta-feira, Agosto 15, 2007

Ganhando na baixa e espalhando o risco

Nesta semana tive uma pequena decepção com o POP do Bovespa. Selecionei uma porção de papéis POP da Petrobrás para acompanhar no Home Broker, e notei que o grosso deles não tem movimento nenhum: nem compradores, nem vendedores. O mesmo continua acontecendo com as opções de compra e de venda para prazos mais longos.

Como as opções de venda de curto prazo são as únicas com boa liquidez, o jeito é tentar fazer alguma coisa com elas. Temos fatos novos nos últimos dias:

* O Bovespa está caindo como uma pedra, direto dos 57000 para 50000 e previsão de ir mais para baixo. Ninguém acredita na catástrofe que eu "previ" (queda até 40000 pontos) mas por enquanto está só caindo.

* Especuladores um pouco mais criativos como nós já se perguntam como ganhar dinheiro num cenário de baixa ou oscilação em torno de um patamar estável.

* Descobri que o Home Broker da minha corretora permite lançar opções de compra! Medo... Mas só permite fazê-lo se a opção estiver "calçada" com a ação correspondente. Isso garante as opções (e garante que o cliente do Home Broker não vá lançar opções que não possa pagar depois).

Também há como lançar opções a descoberto e opções de venda, mas isso implica em depositar garantias, fazer a coisa por telefone... arriscado e complicado demais para quem ainda não vive disso.

Aí surge a operação "covered call": lançar opções de compra, que têm boa liquidez, tendo a ação subjacente como garantia. À primeira vista a operação não vai parecer atrativa.

Supondo que eu compre PETR4 a R$ 50,00 e venda PETRA50 por R$ 10,00.

Se em Janeiro/08 PETR4 estiver valendo R$ 15,00, eu ganhei R$ 25,00: 15 da ação e 10 que eu ganhei vendendo a opção. A opção terá virado pó.

Se PETR4 valer R$ 50,00 naquela data, eu ganhei R$ 60,00, pois a opção ainda não vale a pena ser exercida.

Por outro lado, se PETR4 estiver valendo R$ 100,00, eu continuo ganhando apenas R$ 60,00 pois eu me obriguei a vender minha ação por R$ 50,00.

Ou seja, essa estratégia não garante meu capital (pois não me protege de uma queda acentuada da ação), nem alavanca meus ganhos (pois todo lucro acima de R$ 60,00 é embolsado por quem comprou a opção).

Ainda assim, essa estratégia é interessante por diversos motivos:

* ela "espalha" o risco, e protege parcialmente meu capital: se PETR4 cair a R$ 40,00, eu ainda ganho R$ 50,00. Se eu acreditar que a ação vai cair mais, posso desmontar a operação recomprando as opções e vendendo a ação.

* PETR4 é pouco volátil. A probabilidade de ela subir ou cair de forma tão abrupta é bastante pequena. E ainda que aconteça, "daria tempo" de desfazer esta operação e tentar outro tipo mais adequado.

* Corroborando este fato, 70% das opções em qualquer mercado costumam virar pó. Isso normalmente, pois o índice pode atingir 90% facilmente. Isso significa que a verdadeira "mina de ouro" está em LANÇAR opções e não em comprá-las.

* Diferentemente de quase todos os outros ativos, opções PERDEM valor conforme passa o tempo. Ou seja, é um "negócio da China" vender algo por um preço, sabendo que esse preço só tende a diminuir, até chegar a zero. O problema: é preciso oferecer garantias para emitir opções. Dinheiro faz dinheiro...

* Finalmente, essa estratégia permite conciliar objetivos de curto e longo prazo sem obrigar você a pulverizar muito o capital. Se você acha que Petrobrás é uma ação para deixar de herança, e compra um pouco todo mês independente das quedas ou subidas, isso não impede você de "dar uns tiros" no mercado de opções para fazer um dinheiro no curto prazo. E se divertir.

A outra opção de ganhar no curto prazo em cima de uma carteira de longo prazo "imexível", seria alugar as ações (a corretora empresta tais ações para especuladores que apostam na baixa). Dá uns 4% ao ano -- nada muito emocionante, e obriga você a reter as ações durante a vigência do contrato de aluguel.