Opções 102
Depois da nossa tentativa de explicar opções didaticamente, voltamos nossa atenção para o problema de AVALIAR opções, ou seja, determinar o seu preço. Não é nada fácil.
Vamos abordar o problema começando novamente pelo seguro de automóvel, nosso primeiro exemplo de "derivativo". Embora tal seguro não possa ser comprado e vendido no mercado, podemos calcular seu custo:
Prêmio = (Valor do carro) x (Chance de perda total durante 1 ano) x (1 + % de lucro)
Estamos aqui presumindo que o único tipo de sinistro é a perda total. Para um automóvel que vale $10.000, cuja chance de sinistro seja 5% ao ano e o lucro desejado da seguradora seja 20%, o prêmio custa 10000 x 0.05 x 1.2 = $600.
Este é o valor para 1 ano de cobertura. Se vendermos nosso carro 3 meses antes do final da cobertura, e transferirmos nosso seguro ao novo dono, podemos cobrar dele $150 de seguro, que é o valor proporcionalmente a 3 meses.
Veja que a apólice de seguro vale cada vez menos na medida que o tempo passa, até virar pó no final da vigência. Guarde bem esse fato, porque o mesmo acontece com futuros e opções.
No caso dos contratos de futuros, onde ambos os lados buscam proteção, o lucro dá lugar à bola de cristal, ou seja, à expectativa dos contratantes.
Contrato = [(Preço atual do ativo) - (Preço garantido "strike")] x (expectativa)
Supondo um contrato de açúcar a $30, sendo que o preço atual do mesmo já está a $35. O preço do contrato vai ser $5. Se existe uma expectativa de mercado que o açúcar suba ainda mais, provavelmente o contrato vai custar mais que $5.
Note que o preço do contrato de futuro pode ficar "negativo". Se eu contratei fornecimento a $30 mas o açúcar vale apenas $20, terei de pagar $10 a alguém para levar o mico embora. Este é o problema dos contratos de futuro: geram obrigações para ambos os lados.
Quanto mais próxima estiver a data de exercício do contrato, o fator expectativa tende a 1, ou seja, inócuo, pois menos oscilações de preço são esperadas num tempo curto.
Agora, chegamos nas opções. Diferente dos contratos de futuros, elas não geram obrigações, apenas direitos. Uma tentativa bisonha de avaliar a opção de compra seria:
Prêmio = [(Valor da ação) - (Valor garantido pela opção)] x Expectativa
Se Petrobrás está valendo $50, e a opção garante compra a $40, seu valor INTRÍNSECO é $10. Se existe uma expectativa que Petrobrás suba ainda mais até o EXERCÍCIO da opção, certamente custará mais que $10.
Ah, eis o problema das opções. Assim como seguros e futuros, as opções têm validade limitada. Elas podem ser exercidas num dia certo. Passado esse dia, se ela não for exercida, não vale mais.
É por isso que é perigoso especular puramente em cima de opções. É como comprar uma caixa de tomates esperando que eles subam de preço. É bom que suba rápido, porque em uma semana estarão podres :)
A fórmula bisonha para calcular o valor das opções é um começo, pode servir como um guia, mas é simplista demais. Se, por exemplo, Petrobrás estiver valendo $40, a opção de compra a $40 estaria valendo zero. Mas se você verificar as cotações da BOVESPA, vai ver que opções nesta situação têm valor bem alto até.
Por que? Simplesmente porque existe uma chance razoável de Petrobrás subir acima de $40 a qualquer momento. E então a opção passa a ter valor intrínseco. Ou seja, o valor de uma opção é muito baseado em probabilidades.
Uma opção pode estar em três situações muito distintas, do ponto de vista da avaliação. Falando de opções de compra:
OUT OF THE MONEY: "STRIKE" (preço garantido) é maior que o preço da ação subjacente. Ou seja, o valor intrínseco da opção é nulo. Se a opção chegar ao dia de exercício nesta situação, ela vira pó. Azar de quem adquiriu a opção.
AT THE MONEY: Strike igual ao preço da ação. O valor intrínseco da opção ainda é nulo, mas pode subir a qualquer momento.
IN THE MONEY: Strike menor que o preço da ação. A opção tem valor intrínseco. Se ela estiver nesta situação no dia do exercício, valerá a pena exercê-la. Azar de quem lançou a opção.
Opções profundamente in-the-money têm valor de mercado praticamente igual ao valor intrínseco, ou seja, vale nossa fórmula bisonha. Opções profundamente out-of-the-money valem quase nada, como é de se esperar.
Opções at-the-money são as mais difíceis de avaliar, pois seu valor é baseado em probabilidades. Veremos mais à frente como calcular isto.
Um outro ingrediente crucial para avaliar opções é o TEMPO. Quanto mais distante estiver o dia do exercício, mais vale a opção. Isto é fácil entender. Uma opção que vai ser exercida amanhã não vale quase nada se estiver out-of-the-money, pois o mercado não vai mudar muito em 1 dia.
Por outro lado, essa mesma opção vale um bom dinheiro se for exercida daqui a 1 ano, pois tudo pode acontecer num tempo tão longo.
Muito bem, até agora parece que avaliação de opções é exercício de chutologia. Demorou bastante até alguém sair com fórmulas para avaliação de opções, mas aconteceu.
O primeiro mecanismo de avaliação é o BINOMIAL. Tem a vantagem de ser aplicável a qualquer tipo de opção ou futuro. Tem a desvantagem de não ser uma fórmula fechada, sendo necessário usar um computador para calculá-la (ou então bastante lápis e borracha).
Funciona assim: simula-se todos os cenários possíveis, dia a dia, de hoje até o dia do vencimento da opção. Alguns cenários finais são lucrativos, outros dão prejuízo. O valor da opção é a média ponderada de todos os cenários. Vamos ver um exemplo.
Supondo que compramos a opção de compra PETRA50, vencimento em Janeiro, strike a $40. O preço atual de Petrobrás é também $40. Portanto a opção está at-the-money. Nós estamos em Dezembro.
De acordo com as estatísticas, nós estimamos que Petrobrás tenha uma volatilidade de 10% ao mês, ou seja, oscile 10% para cima ou para baixo a cada mês. Se o preço de Petrobrás é $40 hoje, pode acontecer duas coisas em 1 mês:
a) Petrobrás sobe para $44. Neste caso, nossa opção valerá $4 no vencimento.
b) Petrobrás desce para $36. Neste caso, nossa opção vira pó.
O valor da opção é $2, pois tem 50% de chance de valer $4, e outros 50% de chance de valer nada.
Opa, esquecemos de levar em conta a taxa de juros. Quatro reais valem apenas $3,96 hoje. Portanto a opção vale mesmo é $1,98.
Vamos agora supor que não estamos em Dezembro, mas sim em Novembro. Isso dá 2 meses para o preço se movimentar. Neste caso, temos três desfechos possíveis:
a) O preço pode subir a $48,40 ($40 + 10% + 10%). A opção vale $8,40.
b) O preço pode manter-se em $40, por ter subido 10% e caído 10% em seguida. A opção não vale nada.
c) O preço pode manter-se em $40 por ter *caído* 10% e subido 10% em seguida. A opção não vale nada.
d) O preço pode cair a $33,05. A opção não vale nada.
Note que os desfechos (b) e (c) são exatamente iguais, é uma coisa normal do processo binomial.
Neste caso, o valor da opção é $2,10 (25% de $8.40), sem levar em conta os juros. Note que aumentar o prazo de vencimento em um mês acrescentou 10 centavos no valor da opção.
Tudo isto é muito bonito, mas todo o raciocínio desmonta se a ação mudar de valor. Se Petrobrás subir para $41, todos os cálculos têm de ser refeitos. O cálculo binomial tem de ser refeito o tempo todo, conforme muda o preço da ação.
Preste também atenção à importância da volatilidade. Se ela fosse zero, ou seja, se os preços não se movessem, o raciocínio binomial é inútil. E na verdade as opções não serviriam para nada. O valor das opções reside no fato do futuro ser desconhecido. Ninguém faria seguro de vida se tivesse absoluta certeza de não morrer.
Como foi dito, o processo binomial é tedioso, sendo necessário um programa de computador para calculá-lo. É desejável utilizar uma unidade de tempo pequena para aumentar a precisão do cálculo. Ao invés de mês a mês, deve-se formar a árvore binomial dia a dia. Isso dá 60 passos em 2 meses. Bastante trabalho para o computador.
Os economistas Black e Scholes desenvolveram esse raciocínio, usando tempos cada vez menores na árvore binomial, e chegaram a uma fórmula fechada para avaliação de opções. Foi uma grande conquista, mas muita gente ainda continua usando binomiais.
Tanto o processo binomial quanto a fórmula de Black e Scholes dependem incrivelmente da correta estimativa de VOLATILIDADE. É fácil achar estatísticas de volatilidade para todas as ações, porém ninguém pode realmente prever a volatilidade futura.
Como as pessoas têm mais medo dos preços caírem do que dos preços subirem, a volatilidade "para baixo" é considerada maior que a volatilidade "para cima", embora isso matematicamente não faça sentido. Este fato empírico, conhecido como "sorriso da volatilidade", faz as opções de venda custarem mais caro que as opções de compra, porque as opções de venda servem tipicamente para proteger o capital em quedas.
Em resumo, os fatores que influem na avaliação de opções de compra são:
-> Tempo até o exercício (positivamente)
-> Volatilidade (positivamente)
-> Aumento do preço da ação subjacente (positivamente)
No caso das opções de venda, é tudo igual, exceto que o preço da ação subjacente influencia negativamente no valor da opção. Ou seja, quem detém opções de venda, se dá bem quando o mercado cai...
O impacto da taxa de juros é bem mais díficil de avaliar. Como vimos, os juros descontam os lucros futuros, o que diminui o prêmio, não importa se a opção é de compra ou de venda.
Porém, há o aspecto do desembolso na hora de exercer a opção. Se você possui uma opçào de compra PETRA50, você *planeja* gastar 50 reais em Janeiro. Isso quer dizer que você já tem esse dinheiro, ou tem absoluta certeza dele em janeiro, certo?
Se as taxas de juros subirem, você pode colocar esses 50 reais na renda fixa, e em janeiro você terá o suficiente para exercer a opção, e *mais* um juro extra. Ou seja, sua opção lhe deu mais lucro do que o esperado.
Isso significa que: um aumento na taxa de juros aumenta o valor de uma opção de compra.
Já quem tem uma opção de venda, tem a garantia de receber um determinado valor. Quem possui PETRM50 vai receber $50 em Janeiro, haja o que houver. Se estamos em Novembro e a taxa de juros é 1% ao mês, esses $50,00 valem $49,02.
Se a taxa de juros subir, o valor presente vai cair. Se por alguma desgraça a taxa de juros subir para 2% ao mês, o valor presente de $50,00 será de $48,06. Está óbvio que a opção de venda perde valor quando o juro sobe.
