Resenha: The smartest guys in the room
Este livro conta a história da Enron, a tristemente famosa empresa de energia que faliu em 2001. Assim como o fundo LTCM, o processo de queda também desenrolou-se em poucas semanas, e diferentemente do LTCM, deixou um grande rombo na praça.
Livro muito recomendado, por ser instrutivo a respeito das manhas e mutretas do mercado acionário e da contabilidade corporativa. Algumas considerações aleatórias:
* Mostra o quanto a cobertura jornalística normal e a Wikipedia são parciais (no sentido de incompletos). Feliz ou infelizmente, livros ainda são o veículo para se obter conhecimento sólido a respeito de algum assunto.
* Por diversas razões, quase sempre que se menciona a Enron, menciona-se a crise de energia da Califórnia em seguida, como se fosse uma relação 1:1. Este caso foi apenas uma das encrencas em que se meteu a Enron. Por outro lado, a Enron foi apenas uma das manipuladoras do mercado on-line de energia (nem mesmo foi a maior).
* A Enron nasceu de uma fusão de duas empresas de gás natural, e precisava de um nome "chamativo" para agradar o mercado. O nome originalmente escolhido pela consultoria foi Enteron. Depois de algum tempo, alguém mencionou que "enteron" é o nome de um pedaço do intestino, e a empresa seria motivo de piada. A remoção de uma sílaba resolveu o problema.
* As fraudes contábeis da Enron tinham o objetivo de inchar a receita, de modo a inflar o preço das ações. Por exemplo, a receita esperada de um contrato de 20 anos era contabilizada imediatamente (embora o dinheiro levaria 20 anos para entrar). Isso obrigava a empresa a fechar contratos novos o tmepo todo. Por outro lado, o reconhecimento de perda de projetos malfadados era adiada o máximo possível. Mas isso não quebraria a empresa também.
* O que quebrou a Enron foi contrair empréstimos dando suas próprias ações como garantia, bem como dependendo do "rating" de grau de investimento das agências de análise de crédito (aquelas mesmas que deram o grau de investimento ao Brasil esses dias). Com a descoberta das fraudes contábeis, as ações caíram, o que provocou o corte do crédito. Como a Enron produzia muita pouca receita de verdade (dinheiro), quebrou em questão de semanas.
* A necessidade extrema de dinheiro emprestado era conseqüência direta de esbanjamento. Para fechar rapidamente os contratos que inflavam a receita, muitas vezes a Enron concordava em adiantar vultosas quantias ao contratante. E a cultura interna da Enron era de total desperdício e generosa distribuição de benesses aos executivos.
* O papel dos bancos nessa lambança foi emprestar dinheiro à rodo, sem contestar muito o que a Enron andava fazendo. Isso é conseqüência da baixa taxa de juros; os bancos estavam procurando desesperadamente fontes novas de receita. Por um instante, foi agradável estar no Brasil, onde os bancos não fariam tamanha bobagem porque emprestam todo o dinheiro ao governo :)
Por último, e o que mais interessa a nós investidores, é a promiscuidade entre bancos, empresas de auditoria e analistas de mercado. Depois deste livro, não pretendo nunca mais dar ouvidos a um analista de mercado. Exemplos:
* Todo banco tem analistas de mercado, que recomendam ações e fundos aos clientes. Porém, eles são pressionados a recomendar ações da empresa X, porque outros setores do banco têm interesse em fazer negócios com X, e X pede essa recomendação como "reciprocidade". E os empréstimos contraídos por X são lastreados pelas ações X.
* As empresas de auditoria fazem mais dinheiro com consultoria do que com auditoria mesmo. Se a auditoria "queimar" a empresa X, ela não contrata mais os consultores. Aí rola aquela pressão para a auditoria pegar leve.
* A Enron perseguia sistematicamente os analistas de mercado e administradores de fundos que duvidavam de sua saúde financeira. Um deles teve de trocar de emprego duas vezes. Outro foi chamado em público de "asshole" e "antipatriótico" por ser um conhecido apostador em baixas.

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