Super Combo I: resenha de livros que se contradizem
Depois de vários meses cheios de despesas por conta do nascimento do Felix, pude dispor da minha mesada normal, e é claro, "estourei" ela inteirinha em livros, todos sobre finanças. Três deles:
- Option Volatility and Pricing
- When Genius Failed - How one small bank created a trillion-dollar hole
- Rogue Trader (a história de Nick Leeson)
Em primeiro lugar, a maioria dos livros que comprei custou *muito* barato, pois são impressos naquele papel-jornal. Na verdade, os livros de jornal revelaram ser os melhores; os livros mais caros, mais bem-encadernados, acabaram sendo relativas decepções.
Em tese, eu não precisava de outro livro sobre opções, mas o Option Volatility and Pricing prometia trazer estratégias avançadas com spreads. O livro é bem escrito, e de fato fala bastante sobre estrategias de spreads, mas sempre com foco na volatilidade implícita. A idéia central que permeia todo o texto é: se a volatilidade implícita está alta em relação à volatilidade histórica, deve-se explorar isto.
Estranhei essa confiança tão grande na volatilidade histórica. Olhei na data de edição: 1994. Isso explica tal confiança; muitas desgraças inéditas já aconteceram desde então no mundo das finanças. Uma delas é contada no livro "Rogue Trader", cuja história todo mundo minimamente informado a respeito de finanças já conhece.
O outro livro, "When Genius Failed", conta outra história, menos famosa, porém muito mais instrutiva. É a história do fundo LTCM (Long-Term Capital Management), que abriu em 1994 e implodiu em 1998 com a moratória russa.
O LTCM foi criado por um grupo de pesos-pesados das finanças, incluindo os conhecidíssimos cientistas Scholes e Merton (criadores do modelo Black-Scholes para opções). A idéia do fundo era fazer dinheiro exclusivamente de arbitragem, ou seja, de explorar ineficiências de mercado.
O exemplo canônico de arbitragem do LTCM é a diferença de cotação de títulos da dívida pública. Descontados os juros, títulos de (por exemplo) 29 anos e 30 anos deveriam valer a mesma coisa. Mas, por algum motivo, às vezes os títulos de 29 anos valiam um pouco mais. Quando isso acontecia, o LTCM comprava o 29 e vendia o 30, e esperava a diferença zerar para desfazer a operação.
A estratégia é quase perfeita, mas gera pouco dinheiro (alguns centavos para cada $1000 de títulos). Assim, o LTCM usava e abusava de alavancagem, até 30:1. Ou seja, se o fundo tinha 1 bilhão de ativos, o LTCM apostava até 30 bi (emprestados dos bancos) em arbitragem, tamanha a confiança na segurança da estratégia. Um crítico apelidou a estratégia de "catar centavos na frente de um rolo compressor".
O LTCM arbitrava diversos ativos em diversos mercados do planeta, por dois motivos. Primeiro, porque fazendo isso o LTCM esperava reduzir ainda mais seu risco (era estatisticamente impossível que duas ou mais arbitragens desandassem ao mesmo tempo). Segundo, porque o sucesso do LTCM atraiu mais investidores, e o dinheiro tinha de ser aplicado em algum lugar para manter a rentabilidade de até 30% ao ano.
A crise russa causou um efeito global que o LTCM imaginava impossivel: todas as discrepâncias em todos os mercados do mundo aumentaram. Por algum motivo, todo mundo queria os títulos 29 e ninguém queria os 30. Em questão de dias, o LTCM perdeu quase todo o patrimônio (lembrando que, com uma alavancagem de 30:1, uma queda de 3,3% no mercado significa queda de 100% do capital.
Devido às perdas e saques, o LTCM precisava de mais dinheiro emprestado para manter-se solvável. Os 14 bancos que sustentavam o LTCM tinham três opções:
* Cortar o crédito. O problema é que apenas os primeiros 2 ou 3 que fizessem isso veriam seu dinheiro de volta; os demais tomariam calote total e imediato.
* Manter o crédito, sem aumentá-lo: seria o mesmo que aceitar tomar calote imediato, pois o LTCM atingiria patrimônio negativo em 48 horas;
* Fornecer mais crédito para tentar manter o LTCM solvável até o fim da crise. Assim, haveria uma chance de todos os bancos receberem todo, ou quase todo, o seu dinheiro de volta. (Naturalmente, os cotistas nunca mais veriam 1 centavo do dinheiro.)
Outro medo que todos tinham, e que levou o FED a envolver-se nas negociações, é que o calote do LTCM nos mercados poderia causar uma onda de pânico sem precedentes, que poderia quebrar os próprios bancos envolvidos.
Foi uma história muito interessante de conhecer, porque revelou quão graves foram as crises do final dos anos 90, e quão ruins as coisas podem ficar mesmo quando não existe fraude ou desonestidade na jogada.

1 Comments:
"Foi uma história muito interessante de conhecer, porque revelou quão graves foram as crises do final dos anos 90, e quão ruins as coisas podem ficar mesmo quando não existe fraude ou desonestidade na jogada."
Como não? Eles eram especuladores, e especuladores são desonestos e malvados, Kra!
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