Terça-feira, Março 25, 2008

Usos não-convencionais para opções

Enquanto relia o post sobre métricas de compra e venda de opções, me ocorreu o seguinte: Por que alguém compraria ou venderia opções em situações que claramente não dão um bom lucro? O fato é que há gente fazendo isso, e talvez haja bons motivos.

Primeiro negócio aparentemente absurdo: vender opções profundamente in-the-money. Ganha-se pouco de prêmio (valor extrínseco); quase todo o ganho é valor intrínseco que será devolvido no momento do exercício da opção.

Exemplo: VALE5 está valendo R$ 50. Você vende opções VALED40 a, digamos, R$ 10,50. É praticamente certo que você será exercido: em meados de abril, terá de entregar uma VALE5 a R$ 40, e você acaba com R$ 50,50 nas mãos (R$ 10,50 de agora, mais R$ 40,00 no exercício da opção), menos as taxas de corretagem. De que valeu a pena isso?

Talvez essa operação tenha uma utilidade -- funcionaria como um empréstimo, cuja garantia é sua carteira de ações. Digamos que você precisava de R$ 10,00 rápido, com previsão de cobrir esse rombo em abril. Ao invés de pedir empréstimo ou usar o cheque especial, você vende opções. Com isso, deixou de pagar juros (ou pelo menos pagou um juro muito menor).

Antigamente, as pessoas conseguiam empréstimos baratos dando imóveis como garantia. Por diversos motivos, esse secular meio de financiamento barato está em extinção, mas lançar opções cobertas é o equivalente moderno.

"Mas por que não vender as ações logo de uma vez?" Bem, o objetivo aqui é conseguir o dinheiro a tempo de recomprar as opções e manter a carteira de ações intacta, sem deixar de receber os proventos da ação. Da mesma forma que muitas vezes é preferível fazer um empréstimo do que vender o imóvel.

Uma empresa pode lançar mão de outros meios para conseguir empréstimos no mercado, ao invés de recorrer a um banco. Ela poderia lançar debêntures, ou poderia lançar ações. O governo vende títulos de longo prazo. Infelizmente, são operações burocráticas e completamente fora do alcance da pessoa física ou da pequena empresa, no presente estado da tecnologia.

Para um futuro distante, poderíamos imaginar um anarco-capitalismo que levaria à extinção dos bancos tais quais existem hoje. Nunca mais ser forçado pelo gerente do banco a comprar um seguro de vida por "reciprocidade" a um empréstimo. Minha conta-corrente seria a conta da corretora de valores, e para conseguir um empréstimo, eu venderia debêntures no mercado.

Alguém iria comprar títulos da minha dívida -- tem maluco pra tudo no mundo -- a questão é por quanto. Se eu tivesse má reputação, meus títulos só seriam vendidos por preço baixo, o que aumenta a taxa de juros efetiva (digamos, eu receberia R$ 90 por um título que promete pagar R$ 100 daqui um mês, o que daria uma taxa acima de 10% ao mês).

Para quem não sabe, é assim que o governo toma dinheiro emprestado hoje. Só falta universalizar :)

É interessante que, apesar de ser o instrumento financeiro mais complicado que existe, a opção é o meio mais acessível da pessoa física "entrar no mercado" lançando títulos. Quem vende opções, vende uma espécie de seguro, portanto está vendendo uma espécie de serviço. É como ter uma lojinha no Mercado Livre.

Quinta-feira, Março 13, 2008

Métricas de compra, venda e risco de opções

De vez em quando alguém faz perguntas de ordem prática neste blog, que poderiam ser condensadas na seguinte: "Quanto devo comprar (ou vender) opções?". A pergunta é simples; tão simples quanto "Deus existe?".

Do ponto de vista científico, nenhuma das duas perguntas têm resposta. A resposta para ambas reside no campo subjetivo/filosófico. Mas certamente os cientistas não desistem por causa disso, e muitas e muitas teses de doutorado a respeito de precificação de opções ainda serão escritas. E muitos nerds serão contratados por grandes corretoras para fazer softwares de trading automático.

O fato é que determinar exatamente quando se comprar ou se vender, seja o que for, depende de se conhecer o futuro, o que é impossível. Mesmo se conseguíssemos prever o futuro com mais de 50% de acerto, ainda assim cometeríamos erros catastróficos que anulariam nossa pretensa vantagem.

Ainda assim, precisamos ter algum critério, para não agirmos ad-hoc e emocionalmente. A má notícia é que tal critério será subjetivo, ou seja, o que serve para uma pessoa não necessariamente serve à outra. Então, não adianta eu dar o "meu" critério aqui e sugerir que sigam-no cegamente. Vai que alguém perde dinheiro por causa disso e fica bravo comigo :)

Ainda assim, posso dizer que meu critério é a taxa de juros que a operação rende. Tenho basicamente feito lançamentos cobertos de opções, cujo risco é nulo, portanto só preciso me preocupar com o rendimento. Por exemplo, se minha carteira tem 10 mil em ações, a a venda coberta me rende 300 reais, e as opções vencem em 2 meses, isso dá 1,5% ao mês aproximadamente. Na página http://epx.com.br/ctb/bscalc.php tem uma calculadora de opções que também calcula o lucro em lançamentos cobertos.

Como eu disse noutro post, o rendimento desses lançamentos cobertos tem caído. Quando ficar sensivelmente abaixo de 1% ao mês, talvez seja hora de comprar opções ao invés de vendê-las, pois estão muito baratas.

O Bastter sugere um critério diferente para detectar opções não apropriadas para vender; é o índice "Não Vende" (NV), calculado pela soma de delta, gama e teta (em valores absolutos). Se o NV for maior que o preço da opção, ela está barata demais para vender (embora o Bastter não mencione no seu livro se seria então o caso de comprar).

Pessoalmente, acho que o NV é válido porém insensível; no meu critério baseado em taxa de juros, a venda de opções fica desinteressante muito antes do NV. E como eu não entendi o "rationale" por trás do NV, me sinto desconfortável em adotar um índice que não compreendo matematicamente.

Saindo da venda coberta e partindo para os "spreads", é preciso considerar o risco com muito mais carinho, pois teoricamente uma operação de spread não é lastreada. O risco de um spread é concentrado nas opções que foram *vendidas* -- as opções compradas não oferecem risco, o pior que pode acontecer é perder o dinheiro investido nelas.

O Bastter resolve o problema do risco de spreads na "força bruta", determinando algumas invariantes que facilitam a avaliação de risco:

* só lida com opções de compra;
* o lastro das operações é uma carteira de ações de primeira linha;
* o valor das opções *vendidas* em relação à carteira de lastro não deve ultrapassar uma certa proporção (o LIMITEX);

A carteira de ações é um lastro melhor que dinheiro pois, se o mercado subir, as opções vendidas valorizam (aumentando sua dívida) mas as ações também sobem (aumentando sua capacidade de pagamento).

O problema é que as opções valorizam mais depressa que as ações. Numa alta explosiva (e o operador não tomando nenhuma providência), mesmo a carteira de ações acabaria insuficiente para cobrir as opções vendidas.

Para controlar este risco, o Bastter estabeleceu outros índices:

* THEX, a proporção do theta total das opções em relação à carteira
* SVEX, a proporção do valor extrínseco total das opções em relação à carteira

Ambos os índices são empíricos e tentam controlar o risco em caso de alta explosiva. Tenho duas "broncas" em relação a estes índices: são empíricos, e são simplistas.

Por exemplo, o SVEX se presta a detectar remuneração demais, ou de menos. Mas a "remuneração ideal" é definida pela taxa-base de juros da economia -- e no Brasil esta taxa está caindo rapidamente, e o SVEX não leva isso em conta. Certamente o Bastter vai ter de redefinir o SVEX na próxima edição do livro.

O THEX tenta equiparar o theta a uma medida de risco, o que também é discutível.

Talvez a principal vantagem do Bastter seja evitar a necessidade de acompanhamento contínuo do mercado -- o que é importante para o investidor amador que tem outra profissão. O método Bastter é seguro, o que é uma conquista impressionante quando se trata de opções... Talvez muito conservador, mas perfeitamente seguro, e reconheço que todos que seguirem seu método, vão se dar melhor que os "traders" no longo prazo.

Eu é que sou chato, talvez por ter pouco dinheiro, e prefiro seguir índices mais científicos.

No caso de spreads, a corretora faz chamada de margem, ou seja, recolhe uma certa quantidade de dinheiro da sua conta, como garantia pelas opções que você vendeu. Gente muito mais inteligente e dedicada do que eu trabalha na determinação da margem -- portanto, ela deveria ser aproveitada como um tipo de índice.

Talvez uma medida de risco próxima da "ideal" seja a chamada de margem, multiplicada por um fator de segurança pessoal, e adotar o valor obtido como limite para suas operações.

Por exemplo, se você fez um spread vendendo 1000 reais em opções, e a chamada de margem foi de 2000 reais, você pode multiplicar por 3 e determinar que seu lastro total tem de ser 6000 reais. Ou seja, para cada 6 reais em dinheiro, você vende no máximo 1 real em opções de venda.

O Bastter ficaria de cabelo em pé, já que isso daria um índice LIMITEX de 17% -- muitas vezes acima do recomendado... Mas sempre podemos adotar um multiplicador maior, digamos 10 ao invés de 3, e assim tentar honrar o Bastter e respeitar o LIMITEX dele.

A chamada de margem tem uma segunda importância para operações não lastreadas: ela define a taxa de retorno da operação. Se o seu spread tem um potencial de lucro máximo de 500 reais e a chamada de margem foi de 2000, o retorno máximo sobre o capital preso é 25%. Se você for cuidadoso e deixar 6000 reais "parados" para amortecer ainda mais o seu risco, o retorno máximo baixa para 8,3%.

Também podemos desenvolver o raciocínio na direção oposta -- podemos adotar como critério não esperar retornos maiores que, digamos, 4% ao mês (nem agiota cobra taxa tão alta assim hoje em dia!). E com base nisso, considerar que precisamos 100 reais de lastro para cada 4 reais vendidos em opções (considerando uma operação com prazo de 1 mês). Até o Bastter aprovaria :)

Outras considerações aleatórias sobre quando comprar ou quando vender, sempre referindo-se a opções de compra, que são as únicas a ter liquidez no Brasil, salvo menção em contrário.

* O valor extrínseco da opção, ou seja, o "prêmio" pago pelo direito que ela garante, tende sempre a diminuir conforme passa o tempo; e diminui cada vez mais rapidamente conforme o vencimento se aproxima.

Isso quer dizer que, para COMPRAR uma opção, deve-se tentar a opção de prazo mais longo que se possa encontrar (e cujo preço não esteja caro demais). Já para VENDER uma opção, o ideal é fazê-lo bem próximo do vencimento, pois seu valor será corroído rapidamente.

Também significa que o COMPRADOR de uma opção deve livrar-se da opção bem antes do vencimento, enquanto o VENDEDOR deve procurar justamente esperar até o vencimento.

* A opção de maior valor extrínseco é aquela cujo strike (valor garantido) é igual ao valor atual da ação. Exemplo: VALE5 a $50 e VALED50.

Significa que esta é a opção mais vantajosa para VENDER, e a pior possível para COMPRAR.

Por outro lado, o VENDEDOR deve estar ciente que a chance de ser exercido é maior que 50%.

* O valor total da opção tende a oscilar junto com a ação quando ela está dentro do dinheiro (ou seja, delta tende a 1).

Exemplo: se VALE5 sobe de $50 para $51, uma hipotética opção VALED30 provavelmente subirá de $20 para $21.

Esse tipo de opção é a melhor para COMPRAR, pois gera o mesmo lucro que uma ação ($1), exigindo apenas uma fração do investimento ($20 ao invés de $50), dando taxas muito maiores (5% ao invés de 2%).

A melhor opção para COMPRA é, portanto, a mais dentro do dinheiro que possa ser encontrada, e a mais distante possível do vencimento. Infelizmente, tais opções têm pouca liquidez no Brasil.

* O valor total da opção tende a oscilar muito pouco quando ela está muito fora do dinheiro (ou seja, delta tende a zero). Exemplo: VALED60 com VALE5 valendo hipotéticos $35.

Os COMPRADORES deveriam fugir de tal opção pois equivale a um bilhete de loteria (qual a chance de subir de $35 a $60 em um mês e meio?).

E os VENDEDORES também provavelmente não deveriam vender esta opção, pois certamente seu valor total será muito baixo. O rendimento obtido é muito baixo.

Quarta-feira, Março 05, 2008

Meu primeiro DARF

Esses dias paguei meu primeiro DARF referente a ganhos de capital. Normalmente ninguém gosta de pagar impostos, porém este teve um valor especial. Como diz o adágio, quem nunca pagou impostos, é porque nunca ganhou dinheiro.

Devo dizer que este ganho veio através do lançamento de opções, já que se tivesse ficado apenas com ações da Vale desde a época da compra, teria o mesmo valor, por conta da crise do subprime. Para quem se dispõe a ter uma carteira de ações estável, que não venderá em hipótese nenhuma, vender opções é um dos melhores métodos para se ter um rendimento extra.

Lembrando também que ações paradas na carteira também geram dividendos. Os valores parecem ridículos individualmente: 10 reais de juros sobre capital próprio aqui, 15 de dividendos trimestrais ali... Mas ao longo de um ano, representará um rendimento anual não desprezível.

Ainda sobre a venda de opções, é preciso ficar atento daqui por diante, pois muita gente aprendeu com o Bastter e está fazendo a mesma coisa. Deu pra notar claramente o aumento na "abundância" das opções de compra. Na primeira vez que lancei opções, há alguns meses, dava para ganhar até 5% do capital total em prêmios. Lançando todo mês, daria 5% ao mês! Mas os prêmios foram caindo para 3%, 2%, o último lançamento deu pouco mais de 1% ao mês.

1% ainda não é desprezível, ainda deve ser mais do que a maioria das ações paga em dividendos, mas é bom ficar de olho, talvez os prêmios acabem ficando baixos demais. E neste caso, ainda pode-se ganhar dinheiro -- mas comprando opções. O livro do Bastter tem diversas métricas para determinar quando é vantagem comprar ao invés de vender. Eu prefiro usar minha calculadora Black and Scholes mesmo, e ficar esperto quando a volatilidade implícita cair muito...