Segunda-feira, Julho 28, 2008

Paridade do poder de compra

Em 1997, um excelente artigo da Gazeta Mercantil contestava a validade dos índices de inflação. A charge era particularmente boa: um pesquisador analisando caixas de Big Mac e latas de refrigerantes com uma lupa, enquanto atrás dele, desapercebido, um gigantesco monstro comia casas, automóveis e fábricas.

A mensagem básica era que medir a inflação com base numa cesta de bens de consumo era ingênuo, pois bens duráveis estavam ficando caros muito mais rapidamente -- sem que isso fosse considerado inflação.

Mais do que nunca, o conteúdo do artigo parece verdadeiro. Demorou, mas a inflação dos bens duráveis está contaminando os bens de consumo.

Algumas observações empíricas que faço, de 1997 até agora. Automóveis estão custando quatro, cinco vezes mais. Casas e apartamentos também. A Bolsa de Valores também valorizou esse tanto. Na verdade, a Bolsa valorizou muito mais; mas isso pode ser explicado pela diminuição da taxa de juros (teoricamente, se a taxa de juros cai à metade, a Bolsa dobra, mesmo sem qualquer mudança nos fundamentos das empresas de capital aberto).

Isso me lembra aquela piada, em que um colecionador vende um selo raro por 1 bilhão. Mas não recebeu em dinheiro, e sim em de 2 selos de 500 milhões cada... O mesmo quanto à Bolsa: alguém pode alegar ter quadruplicado seu dinheiro em 10 anos, só para descobrir que o automóvel que ele desejava quintuplicou de preço no mesmo período.

Não são coincidências interessantes? Mais interessante ainda é que muitos desses aumentos foram atribuídos ao dólar, entre 1999 e 2002. Só que estamos em 2008 e o dólar está no mesmo patamar que 1999. E aí? Por que um automóvel continua custando 4 vezes mais, e agora em dólar?

Uma coisa engraçada é que, por algum motivo, as pessoas toleram melhor esse tipo de inflação, enquanto são extremamente alérgicas a aumentos de preço nos itens de consumo. As ruas estão cheias de picapes cujo preço é R$ 150 mil (acho que nunca vou ter coragem de gastar isso num simples automóvel!). Todo mundo fica feliz quando sua casa dobra de valor no mercado imobiliário. Mas todo mundo fica chateado quando o quilo do feijão aumenta 30%.

O problema é que o plantador de feijão também precisa morar em algum lugar, e também gostaria de ter um carro. Quando ele descobre que a mesma lavoura só compra meia casa, ele desiste de plantar. Demora um pouco, mas a conseqüência é inevitável: o feijão sobe de preço.

Naturalmente, o feijão é contabilizado no índice oficial de inflação, e aí todo mundo começa a reclamar, porque a poupança está perdendo da inflação etc. etc. Na verdade, é tarde demais: a poupança já perdeu da inflação lá no passado. O quilo do feijão é apenas a conseqüência visível.

A outra faceta dessa paridade nos valores dos bens duráveis pode ter uma conseqüência interessante para os investidores. Muitos investidores lamentam-se de não ter colocado o dinheiro na Bolsa em 1999, porque hoje ele valeria muito mais. Outros afligem-se por terem comprado ações na alta e agora elas estarem caindo.

Mas, se os bens duráveis têm preços interrelacionados (para não dizer sincronizados), na verdade pouco importa o momento de entrar na Bolsa. Se você comprar Petrobrás e Vale e elas caírem, isso é chato. Mas se isso aconteceu, é porque petróleo e ferro estão ficando mais baratos. Isso vai traduzir-se em automóveis mais baratos para comprar e manter. Com energia mais barata, o cimento que constrói a casa também fica mais barato. E assim por diante. O padrão de vida não fica sensivelmente melhor ou pior apesar das oscilações da Bolsa.

Comprar uma ação seria como comprar uma casa: ela tem um valor intrínseco e uma utilidade bem definidas. Se você compra uma casa e ela desvaloriza 30%, isso não importa muito porque você ainda pode morar dentro dela.

Isto é perfeitamente consoante com a estratégia de "comprar e manter" (buy and hold), em particular a variante que aconselha pequenas compras periódicas na Bolsa. A idéia original desta estratégia é formar um bom preço médio nas ações, pois compra-se tanto nas épocas de baixa como de alta.

Talvez essa estratégia, por ser reconhecidamente boa, encerre uma verdade mais profunda: que o único jeito de acumular patrimônio é economizando. A única diferença entre colocar na poupança ou na Bolsa é que, na poupança, a unidade de medida é o real (ou o dólar), enquanto na Bolsa a "moeda" é o poder de compra de bens duráveis.

A outra diferença é que ações da Bolsa geram dividendos, porque o dinheiro está indo para atividades produtivas. Toda a vantagem que a Bolsa leva em cima da renda fixa, a longo prazo, é a geração de dividendos.

Os únicos dois grandes erros que o seguidor do "buy and hold" pode cometer são: comprar muito na bolha, e vender tudo no pânico. Bolhas e pânicos são momentos em que a Bolsa está consideravelmente distorcida em relação a outros bens duráveis. Isto acontece com *todos* os bens duráveis, não só com a Bolsa.

Se o investidor seguir fielmente à estratégia do Ben Graham, de comprar todo mês um valor fixo e pequeno, automaticamente evita esses erros, pois as bolhas duram relativamente pouco (diminuindo o número de compras ruins). Os pânicos costumam durar mais, o que também é vantagem pois dão a oportunidade de comprar mais ações bem baratinho.

Ben Graham também prescreve deixar mais de 50% das economias em renda fixa, para que sirva como "colchão" e evite a necessidade de vender no pânico, em caso de necessidade pessoal. Peter Lynch ensina que antes de tudo deve-se possuir sua própria casa, pois se todos os outros investimentos falharem, ao menos você tem onde morar, e um imóvel valoriza ao longo do tempo, embora lentamente.

Resenha: The smartest guys in the room

Este livro conta a história da Enron, a tristemente famosa empresa de energia que faliu em 2001. Assim como o fundo LTCM, o processo de queda também desenrolou-se em poucas semanas, e diferentemente do LTCM, deixou um grande rombo na praça.

Livro muito recomendado, por ser instrutivo a respeito das manhas e mutretas do mercado acionário e da contabilidade corporativa. Algumas considerações aleatórias:

* Mostra o quanto a cobertura jornalística normal e a Wikipedia são parciais (no sentido de incompletos). Feliz ou infelizmente, livros ainda são o veículo para se obter conhecimento sólido a respeito de algum assunto.

* Por diversas razões, quase sempre que se menciona a Enron, menciona-se a crise de energia da Califórnia em seguida, como se fosse uma relação 1:1. Este caso foi apenas uma das encrencas em que se meteu a Enron. Por outro lado, a Enron foi apenas uma das manipuladoras do mercado on-line de energia (nem mesmo foi a maior).

* A Enron nasceu de uma fusão de duas empresas de gás natural, e precisava de um nome "chamativo" para agradar o mercado. O nome originalmente escolhido pela consultoria foi Enteron. Depois de algum tempo, alguém mencionou que "enteron" é o nome de um pedaço do intestino, e a empresa seria motivo de piada. A remoção de uma sílaba resolveu o problema.

* As fraudes contábeis da Enron tinham o objetivo de inchar a receita, de modo a inflar o preço das ações. Por exemplo, a receita esperada de um contrato de 20 anos era contabilizada imediatamente (embora o dinheiro levaria 20 anos para entrar). Isso obrigava a empresa a fechar contratos novos o tmepo todo. Por outro lado, o reconhecimento de perda de projetos malfadados era adiada o máximo possível. Mas isso não quebraria a empresa também.

* O que quebrou a Enron foi contrair empréstimos dando suas próprias ações como garantia, bem como dependendo do "rating" de grau de investimento das agências de análise de crédito (aquelas mesmas que deram o grau de investimento ao Brasil esses dias). Com a descoberta das fraudes contábeis, as ações caíram, o que provocou o corte do crédito. Como a Enron produzia muita pouca receita de verdade (dinheiro), quebrou em questão de semanas.

* A necessidade extrema de dinheiro emprestado era conseqüência direta de esbanjamento. Para fechar rapidamente os contratos que inflavam a receita, muitas vezes a Enron concordava em adiantar vultosas quantias ao contratante. E a cultura interna da Enron era de total desperdício e generosa distribuição de benesses aos executivos.

* O papel dos bancos nessa lambança foi emprestar dinheiro à rodo, sem contestar muito o que a Enron andava fazendo. Isso é conseqüência da baixa taxa de juros; os bancos estavam procurando desesperadamente fontes novas de receita. Por um instante, foi agradável estar no Brasil, onde os bancos não fariam tamanha bobagem porque emprestam todo o dinheiro ao governo :)

Por último, e o que mais interessa a nós investidores, é a promiscuidade entre bancos, empresas de auditoria e analistas de mercado. Depois deste livro, não pretendo nunca mais dar ouvidos a um analista de mercado. Exemplos:

* Todo banco tem analistas de mercado, que recomendam ações e fundos aos clientes. Porém, eles são pressionados a recomendar ações da empresa X, porque outros setores do banco têm interesse em fazer negócios com X, e X pede essa recomendação como "reciprocidade". E os empréstimos contraídos por X são lastreados pelas ações X.

* As empresas de auditoria fazem mais dinheiro com consultoria do que com auditoria mesmo. Se a auditoria "queimar" a empresa X, ela não contrata mais os consultores. Aí rola aquela pressão para a auditoria pegar leve.

* A Enron perseguia sistematicamente os analistas de mercado e administradores de fundos que duvidavam de sua saúde financeira. Um deles teve de trocar de emprego duas vezes. Outro foi chamado em público de "asshole" e "antipatriótico" por ser um conhecido apostador em baixas.

Sexta-feira, Julho 25, 2008

Super Combo I: resenha de livros que se contradizem

Depois de vários meses cheios de despesas por conta do nascimento do Felix, pude dispor da minha mesada normal, e é claro, "estourei" ela inteirinha em livros, todos sobre finanças. Três deles:

- Option Volatility and Pricing

- When Genius Failed - How one small bank created a trillion-dollar hole

- Rogue Trader (a história de Nick Leeson)

Em primeiro lugar, a maioria dos livros que comprei custou *muito* barato, pois são impressos naquele papel-jornal. Na verdade, os livros de jornal revelaram ser os melhores; os livros mais caros, mais bem-encadernados, acabaram sendo relativas decepções.

Em tese, eu não precisava de outro livro sobre opções, mas o Option Volatility and Pricing prometia trazer estratégias avançadas com spreads. O livro é bem escrito, e de fato fala bastante sobre estrategias de spreads, mas sempre com foco na volatilidade implícita. A idéia central que permeia todo o texto é: se a volatilidade implícita está alta em relação à volatilidade histórica, deve-se explorar isto.

Estranhei essa confiança tão grande na volatilidade histórica. Olhei na data de edição: 1994. Isso explica tal confiança; muitas desgraças inéditas já aconteceram desde então no mundo das finanças. Uma delas é contada no livro "Rogue Trader", cuja história todo mundo minimamente informado a respeito de finanças já conhece.

O outro livro, "When Genius Failed", conta outra história, menos famosa, porém muito mais instrutiva. É a história do fundo LTCM (Long-Term Capital Management), que abriu em 1994 e implodiu em 1998 com a moratória russa.

O LTCM foi criado por um grupo de pesos-pesados das finanças, incluindo os conhecidíssimos cientistas Scholes e Merton (criadores do modelo Black-Scholes para opções). A idéia do fundo era fazer dinheiro exclusivamente de arbitragem, ou seja, de explorar ineficiências de mercado.

O exemplo canônico de arbitragem do LTCM é a diferença de cotação de títulos da dívida pública. Descontados os juros, títulos de (por exemplo) 29 anos e 30 anos deveriam valer a mesma coisa. Mas, por algum motivo, às vezes os títulos de 29 anos valiam um pouco mais. Quando isso acontecia, o LTCM comprava o 29 e vendia o 30, e esperava a diferença zerar para desfazer a operação.

A estratégia é quase perfeita, mas gera pouco dinheiro (alguns centavos para cada $1000 de títulos). Assim, o LTCM usava e abusava de alavancagem, até 30:1. Ou seja, se o fundo tinha 1 bilhão de ativos, o LTCM apostava até 30 bi (emprestados dos bancos) em arbitragem, tamanha a confiança na segurança da estratégia. Um crítico apelidou a estratégia de "catar centavos na frente de um rolo compressor".

O LTCM arbitrava diversos ativos em diversos mercados do planeta, por dois motivos. Primeiro, porque fazendo isso o LTCM esperava reduzir ainda mais seu risco (era estatisticamente impossível que duas ou mais arbitragens desandassem ao mesmo tempo). Segundo, porque o sucesso do LTCM atraiu mais investidores, e o dinheiro tinha de ser aplicado em algum lugar para manter a rentabilidade de até 30% ao ano.

A crise russa causou um efeito global que o LTCM imaginava impossivel: todas as discrepâncias em todos os mercados do mundo aumentaram. Por algum motivo, todo mundo queria os títulos 29 e ninguém queria os 30. Em questão de dias, o LTCM perdeu quase todo o patrimônio (lembrando que, com uma alavancagem de 30:1, uma queda de 3,3% no mercado significa queda de 100% do capital.

Devido às perdas e saques, o LTCM precisava de mais dinheiro emprestado para manter-se solvável. Os 14 bancos que sustentavam o LTCM tinham três opções:

* Cortar o crédito. O problema é que apenas os primeiros 2 ou 3 que fizessem isso veriam seu dinheiro de volta; os demais tomariam calote total e imediato.

* Manter o crédito, sem aumentá-lo: seria o mesmo que aceitar tomar calote imediato, pois o LTCM atingiria patrimônio negativo em 48 horas;

* Fornecer mais crédito para tentar manter o LTCM solvável até o fim da crise. Assim, haveria uma chance de todos os bancos receberem todo, ou quase todo, o seu dinheiro de volta. (Naturalmente, os cotistas nunca mais veriam 1 centavo do dinheiro.)

Outro medo que todos tinham, e que levou o FED a envolver-se nas negociações, é que o calote do LTCM nos mercados poderia causar uma onda de pânico sem precedentes, que poderia quebrar os próprios bancos envolvidos.

Foi uma história muito interessante de conhecer, porque revelou quão graves foram as crises do final dos anos 90, e quão ruins as coisas podem ficar mesmo quando não existe fraude ou desonestidade na jogada.

Quinta-feira, Julho 10, 2008

Sílvio santos marginal(ista)

Aquele quadro do Sílvio "Topa ou não topa" também serve para ilustrar um outro aspecto interessante da moderna teoria econômica, o marginalismo. Calma, não estamos falando da violência. Estamos falando do valor marginal do dinheiro.

Suponha que você esteja participando do Topa ou Não Topa, e restam apenas duas malas. Uma tem 1 milhão de reais, a outra tem cinqüenta centavos. O banqueiro lhe oferece 200 mil para você "topar", ou seja, desistir da chance de ganhar 1 milhão. Você aceitaria?

Pela análise fria dos números, o correto seria não topar porque a chance de 50% de ganhar 1 milhão "vale" 500 mil. Como eu citei no post anterior, tem gente maluca que "não toparia" nem mesmo 500 ou 600 mil, por ganância e confiança excessiva na sorte.

Agora, é certo que a maioria de nós toparia tão pouco quanto 100 mil (garantidos) em troca do milhão incerto. Será que somos tão covardes assim? Ou somos apenas "prudentes" e temos aversão ao risco?

Aí entra a teoria marginalista do dinheiro, que explica tais decisões "covardes" de forma bastante convincente.

A idéia é a seguinte: considerando um salário de 5.000 reais, os primeiros 500 reais "valem" muito mais que os últimos. Porque com o "fundo" do seu salário, você compra arroz, feijão, como qualquer pessoa, por mais pobre que fosse. Com pouco dinheiro, você consegue fazer uma grande coisa, que é se manter vivo.

Já com a parte restante do seu salário, você compra coisas de "valor real" progressivamente menor: comida mais saborosa, diarista, combustível, guloseimas, DVDs e assim por diante. Não é porque você ganha 10 salários mínimos que você passa a comer 10 vezes mais. Nem vai ser 10 vezes mais feliz. Claramente, o valor marginal de um montante de dinheiro cresce sub-linearmente.

Sem perder tempo com fórmulas, vamos considerar que o valor marginal aproximado de um montante de dinheiro é proporcional a seu logaritmo. Assim, o valor marginal de $1000 é apenas 50% maior que o valor marginal de $100, apesar do valor monetário ser 10 vezes maior.

Assim, temos uma explicação mais convincente para a aversão ao risco das pessoas comuns. Voltando ao caso das duas maletas:

maleta boa = log(1000000) = seis

50% de chance de ganhar a maleta boa = 50% de seis = três

oferta do banqueiro = log(100000) = cinco

Assim, fica claro que, para quem não tem nada, os 100 mil certos têm valor marginal muito mais alto, porque 100 mil têm quase o mesmo valor marginal que 1 milhão, e a chance de perder o milhão diminui muito sua utilidade marginal.

Naturalmente, o ponto de vista não é o mesmo para todas as pessoas. Se o participante do Topa ou Não Topa já possui um patrimônio de 500 mil, não vai dar bola para uma oferta de 100 mil; mas valeria correr o risco para ganhar 1 milhão.

patrimônio inicial do participante: log(500000) = 5.7

se ganhar o milhão: log(1000000+500000) = 6.2

(ganho de valor marginal de 0.5)

se topar a oferta do banqueiro: log(500000+100000) = 5.8

Matematicamente, vale muito mais a pena arriscar o milhão, pois o jogador aumenta cinco vezes mais o valor marginal do seu patrimônio em relação à oferta do banqueiro. É claro que há apenas 50% de chance de ganhar o milhão, então o aumento *médio* do valor marginal é 2.5 vezes acima da oferta do banqueiro. Ainda vale a pena arriscar.

Qual seria a menor oferta que o banqueiro deveria fazer para este jogador abastado aceitar? Se o patrimônio inicial era de 5.7 (em valor marginal), e existe 50% de chance de sair com 6.2, a média dos desfechos é 5,95, que em valor monetário equivale a

antilog(5,95) = aprox. 890 mil reais (500 mil + 390 mil)

Assim, para este jogador, faz sentido aceitar uma oferta do banqueiro de no mínimo 390 mil reais, pois ela traz o mesmo benefício marginal.

O valor marginal do dinheiro tem diversos outros efeitos práticos, alguns óbvios, outros nem tanto. Por exemplo, ele ajuda a explicar porque o Bolsa-Família tirou tanta gente da pobreza. Por pouco dinheiro que seja, ele é usado para comprar bens de altíssima importância (e portanto de alto valor marginal).

Também explica porque é possível a alguém a ganhar 50% menos que antes, e ainda assim conseguir viver razoavelmente bem, na verdade quase tão bem quanto antes. A pessoa corta, quase sem notar, os gastos de baixo valor marginal.

Também é algo digno de estudo verificar a interação entre alíquotas progressivas de Imposto de Renda e a teoria marginalista. Por um lado, a tributação progressiva penaliza muito quem ganha mais, porque tributa exponencialmente uma parte da renda que naturalmente já vale menos.

Por outro lado, se a tabela progressiva ajuda a financiar alíquotas mais baixas no início da tabela, talvez valha a pena pois o ganho marginal na baixa renda é muito maior que a perda marginal na alta renda. (Naturalmente estou desconsiderando outros problemas de alíquotas muito altas, como a Lei de Lafer).

Sexta-feira, Julho 04, 2008

A obsolescência dos bancos

Embora direitistas como eu costumem pregar a obsolescência do governo, existem várias outras instituições que também têm futuro duvidoso conforme avança a tecnologia das finanças. Refiro-me aos bancos, tais como os conhecemos hoje.

O que um banco faz, primariamente? Aceita depósitos de pessoas com dinheiro, e empresta a pessoas que precisam de crédito. Isto poderia muito bem acontecer diretamente no mercado, sem intermediários, assim como o governo já toma emprestado vendendo títulos do Tesouro Direto.

Por que precisamos dos bancos para remunerarmos nosso dinheiro ou obtermos crédito?

1) Porque é um local de "rendez-vouz". Tanto o depositante quanto o tomador sabem que podem obter ali o que procuram. Ficaria consideravelmente mais difícil se ambos tivessem de se procurar mutuamente.

2) O banco normalmente garante uma taxa de juros para o depositante. Uma taxa pior do que se ele se entendesse diretamente com o tomador. Mas a padronização é sempre desejável (é por isso que McDonalds vende).

3) O banco garante os depósitos, e existem mecanismos adicionais que mantém parte dessa garantia mesmo que o banco vá à falência.

4) Como parte dessa garantia, o banco determina e controla o risco do tomador de crédito, cobrando taxas mais altas de tomadores mais arriscados.

5) Ainda como parte da garantia ao tomador, um banco tem ferramentas legais/judiciais muito mais "poderosas" para cobrar devedores do que uma pessoa física ou empresa comum.

6) Finalmente, os bancos detém o monopólio desse negócio. Factorings fornecem crédito para transações mercantis, mas não podem captar depósitos.

Ao longo do tempo, a tecnologia vai negar estas razões de um banco existir:

1) Assim como as Bolsas tendem assintoticamente a fazer 100% dos negócios eletronicamente, nada impede que crie-se um mercado de microcrédito ou cooperativa de crédito, onde depositantes e tomadores encontrem-se diretamente.

Tal mercado poderia começar usando a infra-estrutura atual do mercado de capitais, inicialmente sem identificar cada tomador individualmente. Os tomadores poderiam ser classificados por alguma agência de risco (pelo menos esse setor do banco não perderá seu emprego nunca :)

Conforme sua classificação de risco, a pessoa seria autorizada a vender títulos de determinado nome. Por exemplo o título CREDD49 poderia ser um título de crédito padronizado ("CRED"), classificação de risco D (seja lá o que isso significar!) vencendo em Abril (4) de 2009 (9). No vencimento, o vendedor tem de devolver, digamos, 100 reais.

Quem quiser emprestar para os sujeitos classe "D", simplesmente compra os títulos CREDD48 ao preço de mercado. Esse preço será regulado pelo risco e pelas leis de oferta e procura. Considerando risco e juros, o título poderia estar sendo negociado hoje a $90, o que significa que o vendedor-tomador de crédito recebe apenas $90 hoje mas tem de pagar $100 em Abril próximo.

Isto fica muito parecido com o sistema bancário islâmico. O Islã proíbe a cobrança de juros, então toda a remuneração de quem empresta gira em torno de comissões e taxas de desconto. Os títulos que o governo vende no mercado são negociados com deságio pelo mesmo motivo.

Se o "depositante" precisar reaver seu dinheiro antes de Abril, ele simplesmente revende o título CREDD49 para outro trouxa^Wplayer do mercado.

Existe o risco dele não reaver todo o dinheiro que investiu devido a algum pânico, como o subprime, onde o mercado não acredita que os tomadores classe D sejam capazes de honrar seu compromisso. Neste caso, os títulos seriam revendidos a um preço baixo.

Uma segunda opção de securitização dos depósitos, muito menos sexy porém talvez servindo como passo intermediário, é o banco passar a aceitar "depósitos" na forma de venda de ações do banco ao invés de dinheiro. Qualquer interessado poderia comprar uma ação do banco se desejasse um rendimento maior (com mais risco); isso provocaria imediatamente um aumento de capital do banco. Quando o "depositante" vendesse a ação, e ela fosse recomprada pelo banco, o capital automaticamente diminuiria. Nada impede que isto seja feito em paralelo com depositantes e tomadores "convencionais".

2) A garantia da taxa de juros desaparecerá, porém em troca os compradores de títulos de crédito receberão muito mais, em média, do que hoje. Isso porque deixa de haver intermediários.

3) A garantia do comprador-depositante receber seu dinheiro de volta é o problema mais complexo deste "distributed banking". Mas é na essência o mesmo problema do mercado de capitais, onde uma empresa pode falir, ou de alguém que lança opções e não consegue cobrí-las.

Provavelmente o mecanismo de garantia teria de envolver depósito de margem, ou de bens. Talvez soe desagradável que um tomador de $100 tenha de deixar $33 depositados como margem, mas o fato é que os empréstimos concedidos pelos bancos exigem garantias muito maiores, embora essa garantia seja muito flexível (pode ser fiduciária, com imóveis, com carta-fiança etc.)

4) O outro problema complexo é a classificação de risco -- algo extremamente difícil, ainda mais se tiver de ser feito a respeito de milhões de pessoas. Mas a tecnologia avança na direção de tornar isso possível, inclusive de forma algorítmica (apesar do Citibank ter se ferrado nos anos 90 fazendo isso).

5) As pessoas tomadoras de crédito no mercado teriam de sujeitar-se ao peso da lei em caso de inadimplência, assim como investidores da Bolsa e empresas de capital aberto já estão sujeitas hoje. Não seria possível conceber um sistema de crédito "peer-to-peer" num sistema judicial lento, incerto e "camarada" de quem não paga suas dívidas.

Numa fase intermediária, o crédito peer-to-peer poderia ser um sistema "opt-in", em que os devedores optariam livremente em aderir a regras de cobrança mais rígidas. Como tais devedores conseguirão taxas de juros mais baixas, a tendência é os bons devedores aderirem logo e sobrarem apenas os maus devedores, o que apressaria a derrocada dos bancos convencionais.

6) Como o sistema bancário é um monopólio artificial, é certo que será abolido ou "contornado" cedo ou tarde.

Alguns sintomas adicionais que os bancos convencionais estão morrendo:

a) Assim como todo posto de gasolina tem loja de conveniência, todo banco que se preze oferece cada vez mais serviços fora do feijão-com-arroz: fundos de investimentos, seguros, previdência, corretagem de Bolsa, fiança, classificação de crédito e assim por diante.

Isto não é simplesmente para ter mais lucro. É porque eles sabem que terão de mudar de ramo para sobreviver.

b) O escândalo do subprime expôs o fato que os bancos já securitizam seus créditos, ou seja, vendem sua dívida para o mercado. Ou seja, pelo menos metade do sistema bancário "distribuído" por nós proposto já está em franco andamento.

O problema é que, no caso de inadimplência, os bancos ainda atuam como garantidores dos depositantes, e assim ficaram com o mico na mão. Faltou securitizar os depósitos, diluindo o risco no mercado.


Paradoxalmente, eu acho os bancos estatais vão sobreviver aos bancos privados, porque os bancos estatais têm muitas funções extra-bancárias, como financiamento de agricultura, habitações baratas, custódia de depósitos judiciais e outras funções ditas "sociais" que os bancos privados não fazem.

Naturalmente, mesmo esses bancos estatais vão diminuir muito de tamanho conforme deixem de fazer intermediação de crédito. E tenderão a desaparecer na medida que (e em lugares que) suas funções "sociais" deixem de ser necessárias.