Quinta-feira, Março 13, 2008

Métricas de compra, venda e risco de opções

De vez em quando alguém faz perguntas de ordem prática neste blog, que poderiam ser condensadas na seguinte: "Quanto devo comprar (ou vender) opções?". A pergunta é simples; tão simples quanto "Deus existe?".

Do ponto de vista científico, nenhuma das duas perguntas têm resposta. A resposta para ambas reside no campo subjetivo/filosófico. Mas certamente os cientistas não desistem por causa disso, e muitas e muitas teses de doutorado a respeito de precificação de opções ainda serão escritas. E muitos nerds serão contratados por grandes corretoras para fazer softwares de trading automático.

O fato é que determinar exatamente quando se comprar ou se vender, seja o que for, depende de se conhecer o futuro, o que é impossível. Mesmo se conseguíssemos prever o futuro com mais de 50% de acerto, ainda assim cometeríamos erros catastróficos que anulariam nossa pretensa vantagem.

Ainda assim, precisamos ter algum critério, para não agirmos ad-hoc e emocionalmente. A má notícia é que tal critério será subjetivo, ou seja, o que serve para uma pessoa não necessariamente serve à outra. Então, não adianta eu dar o "meu" critério aqui e sugerir que sigam-no cegamente. Vai que alguém perde dinheiro por causa disso e fica bravo comigo :)

Ainda assim, posso dizer que meu critério é a taxa de juros que a operação rende. Tenho basicamente feito lançamentos cobertos de opções, cujo risco é nulo, portanto só preciso me preocupar com o rendimento. Por exemplo, se minha carteira tem 10 mil em ações, a a venda coberta me rende 300 reais, e as opções vencem em 2 meses, isso dá 1,5% ao mês aproximadamente. Na página http://epx.com.br/ctb/bscalc.php tem uma calculadora de opções que também calcula o lucro em lançamentos cobertos.

Como eu disse noutro post, o rendimento desses lançamentos cobertos tem caído. Quando ficar sensivelmente abaixo de 1% ao mês, talvez seja hora de comprar opções ao invés de vendê-las, pois estão muito baratas.

O Bastter sugere um critério diferente para detectar opções não apropriadas para vender; é o índice "Não Vende" (NV), calculado pela soma de delta, gama e teta (em valores absolutos). Se o NV for maior que o preço da opção, ela está barata demais para vender (embora o Bastter não mencione no seu livro se seria então o caso de comprar).

Pessoalmente, acho que o NV é válido porém insensível; no meu critério baseado em taxa de juros, a venda de opções fica desinteressante muito antes do NV. E como eu não entendi o "rationale" por trás do NV, me sinto desconfortável em adotar um índice que não compreendo matematicamente.

Saindo da venda coberta e partindo para os "spreads", é preciso considerar o risco com muito mais carinho, pois teoricamente uma operação de spread não é lastreada. O risco de um spread é concentrado nas opções que foram *vendidas* -- as opções compradas não oferecem risco, o pior que pode acontecer é perder o dinheiro investido nelas.

O Bastter resolve o problema do risco de spreads na "força bruta", determinando algumas invariantes que facilitam a avaliação de risco:

* só lida com opções de compra;
* o lastro das operações é uma carteira de ações de primeira linha;
* o valor das opções *vendidas* em relação à carteira de lastro não deve ultrapassar uma certa proporção (o LIMITEX);

A carteira de ações é um lastro melhor que dinheiro pois, se o mercado subir, as opções vendidas valorizam (aumentando sua dívida) mas as ações também sobem (aumentando sua capacidade de pagamento).

O problema é que as opções valorizam mais depressa que as ações. Numa alta explosiva (e o operador não tomando nenhuma providência), mesmo a carteira de ações acabaria insuficiente para cobrir as opções vendidas.

Para controlar este risco, o Bastter estabeleceu outros índices:

* THEX, a proporção do theta total das opções em relação à carteira
* SVEX, a proporção do valor extrínseco total das opções em relação à carteira

Ambos os índices são empíricos e tentam controlar o risco em caso de alta explosiva. Tenho duas "broncas" em relação a estes índices: são empíricos, e são simplistas.

Por exemplo, o SVEX se presta a detectar remuneração demais, ou de menos. Mas a "remuneração ideal" é definida pela taxa-base de juros da economia -- e no Brasil esta taxa está caindo rapidamente, e o SVEX não leva isso em conta. Certamente o Bastter vai ter de redefinir o SVEX na próxima edição do livro.

O THEX tenta equiparar o theta a uma medida de risco, o que também é discutível.

Talvez a principal vantagem do Bastter seja evitar a necessidade de acompanhamento contínuo do mercado -- o que é importante para o investidor amador que tem outra profissão. O método Bastter é seguro, o que é uma conquista impressionante quando se trata de opções... Talvez muito conservador, mas perfeitamente seguro, e reconheço que todos que seguirem seu método, vão se dar melhor que os "traders" no longo prazo.

Eu é que sou chato, talvez por ter pouco dinheiro, e prefiro seguir índices mais científicos.

No caso de spreads, a corretora faz chamada de margem, ou seja, recolhe uma certa quantidade de dinheiro da sua conta, como garantia pelas opções que você vendeu. Gente muito mais inteligente e dedicada do que eu trabalha na determinação da margem -- portanto, ela deveria ser aproveitada como um tipo de índice.

Talvez uma medida de risco próxima da "ideal" seja a chamada de margem, multiplicada por um fator de segurança pessoal, e adotar o valor obtido como limite para suas operações.

Por exemplo, se você fez um spread vendendo 1000 reais em opções, e a chamada de margem foi de 2000 reais, você pode multiplicar por 3 e determinar que seu lastro total tem de ser 6000 reais. Ou seja, para cada 6 reais em dinheiro, você vende no máximo 1 real em opções de venda.

O Bastter ficaria de cabelo em pé, já que isso daria um índice LIMITEX de 17% -- muitas vezes acima do recomendado... Mas sempre podemos adotar um multiplicador maior, digamos 10 ao invés de 3, e assim tentar honrar o Bastter e respeitar o LIMITEX dele.

A chamada de margem tem uma segunda importância para operações não lastreadas: ela define a taxa de retorno da operação. Se o seu spread tem um potencial de lucro máximo de 500 reais e a chamada de margem foi de 2000, o retorno máximo sobre o capital preso é 25%. Se você for cuidadoso e deixar 6000 reais "parados" para amortecer ainda mais o seu risco, o retorno máximo baixa para 8,3%.

Também podemos desenvolver o raciocínio na direção oposta -- podemos adotar como critério não esperar retornos maiores que, digamos, 4% ao mês (nem agiota cobra taxa tão alta assim hoje em dia!). E com base nisso, considerar que precisamos 100 reais de lastro para cada 4 reais vendidos em opções (considerando uma operação com prazo de 1 mês). Até o Bastter aprovaria :)

Outras considerações aleatórias sobre quando comprar ou quando vender, sempre referindo-se a opções de compra, que são as únicas a ter liquidez no Brasil, salvo menção em contrário.

* O valor extrínseco da opção, ou seja, o "prêmio" pago pelo direito que ela garante, tende sempre a diminuir conforme passa o tempo; e diminui cada vez mais rapidamente conforme o vencimento se aproxima.

Isso quer dizer que, para COMPRAR uma opção, deve-se tentar a opção de prazo mais longo que se possa encontrar (e cujo preço não esteja caro demais). Já para VENDER uma opção, o ideal é fazê-lo bem próximo do vencimento, pois seu valor será corroído rapidamente.

Também significa que o COMPRADOR de uma opção deve livrar-se da opção bem antes do vencimento, enquanto o VENDEDOR deve procurar justamente esperar até o vencimento.

* A opção de maior valor extrínseco é aquela cujo strike (valor garantido) é igual ao valor atual da ação. Exemplo: VALE5 a $50 e VALED50.

Significa que esta é a opção mais vantajosa para VENDER, e a pior possível para COMPRAR.

Por outro lado, o VENDEDOR deve estar ciente que a chance de ser exercido é maior que 50%.

* O valor total da opção tende a oscilar junto com a ação quando ela está dentro do dinheiro (ou seja, delta tende a 1).

Exemplo: se VALE5 sobe de $50 para $51, uma hipotética opção VALED30 provavelmente subirá de $20 para $21.

Esse tipo de opção é a melhor para COMPRAR, pois gera o mesmo lucro que uma ação ($1), exigindo apenas uma fração do investimento ($20 ao invés de $50), dando taxas muito maiores (5% ao invés de 2%).

A melhor opção para COMPRA é, portanto, a mais dentro do dinheiro que possa ser encontrada, e a mais distante possível do vencimento. Infelizmente, tais opções têm pouca liquidez no Brasil.

* O valor total da opção tende a oscilar muito pouco quando ela está muito fora do dinheiro (ou seja, delta tende a zero). Exemplo: VALED60 com VALE5 valendo hipotéticos $35.

Os COMPRADORES deveriam fugir de tal opção pois equivale a um bilhete de loteria (qual a chance de subir de $35 a $60 em um mês e meio?).

E os VENDEDORES também provavelmente não deveriam vender esta opção, pois certamente seu valor total será muito baixo. O rendimento obtido é muito baixo.
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