Em 1997, um excelente artigo da Gazeta Mercantil contestava a validade dos índices de inflação. A charge era particularmente boa: um pesquisador analisando caixas de Big Mac e latas de refrigerantes com uma lupa, enquanto atrás dele, desapercebido, um gigantesco monstro comia casas, automóveis e fábricas.
A mensagem básica era que medir a inflação com base numa cesta de bens de consumo era ingênuo, pois bens duráveis estavam ficando caros muito mais rapidamente -- sem que isso fosse considerado inflação.
Mais do que nunca, o conteúdo do artigo parece verdadeiro. Demorou, mas a inflação dos bens duráveis está contaminando os bens de consumo.
Algumas observações empíricas que faço, de 1997 até agora. Automóveis estão custando quatro, cinco vezes mais. Casas e apartamentos também. A Bolsa de Valores também valorizou esse tanto. Na verdade, a Bolsa valorizou muito mais; mas isso pode ser explicado pela diminuição da taxa de juros (teoricamente, se a taxa de juros cai à metade, a Bolsa dobra, mesmo sem qualquer mudança nos fundamentos das empresas de capital aberto).
Isso me lembra aquela piada, em que um colecionador vende um selo raro por 1 bilhão. Mas não recebeu em dinheiro, e sim em de 2 selos de 500 milhões cada... O mesmo quanto à Bolsa: alguém pode alegar ter quadruplicado seu dinheiro em 10 anos, só para descobrir que o automóvel que ele desejava quintuplicou de preço no mesmo período.
Não são coincidências interessantes? Mais interessante ainda é que muitos desses aumentos foram atribuídos ao dólar, entre 1999 e 2002. Só que estamos em 2008 e o dólar está no mesmo patamar que 1999. E aí? Por que um automóvel continua custando 4 vezes mais, e agora em dólar?
Uma coisa engraçada é que, por algum motivo, as pessoas toleram melhor esse tipo de inflação, enquanto são extremamente alérgicas a aumentos de preço nos itens de consumo. As ruas estão cheias de picapes cujo preço é R$ 150 mil (acho que nunca vou ter coragem de gastar isso num simples automóvel!). Todo mundo fica feliz quando sua casa dobra de valor no mercado imobiliário. Mas todo mundo fica chateado quando o quilo do feijão aumenta 30%.
O problema é que o plantador de feijão também precisa morar em algum lugar, e também gostaria de ter um carro. Quando ele descobre que a mesma lavoura só compra meia casa, ele desiste de plantar. Demora um pouco, mas a conseqüência é inevitável: o feijão sobe de preço.
Naturalmente, o feijão é contabilizado no índice oficial de inflação, e aí todo mundo começa a reclamar, porque a poupança está perdendo da inflação etc. etc. Na verdade, é tarde demais: a poupança já perdeu da inflação lá no passado. O quilo do feijão é apenas a conseqüência visível.
A outra faceta dessa paridade nos valores dos bens duráveis pode ter uma conseqüência interessante para os investidores. Muitos investidores lamentam-se de não ter colocado o dinheiro na Bolsa em 1999, porque hoje ele valeria muito mais. Outros afligem-se por terem comprado ações na alta e agora elas estarem caindo.
Mas, se os bens duráveis têm preços interrelacionados (para não dizer sincronizados), na verdade pouco importa o momento de entrar na Bolsa. Se você comprar Petrobrás e Vale e elas caírem, isso é chato. Mas se isso aconteceu, é porque petróleo e ferro estão ficando mais baratos. Isso vai traduzir-se em automóveis mais baratos para comprar e manter. Com energia mais barata, o cimento que constrói a casa também fica mais barato. E assim por diante. O padrão de vida não fica sensivelmente melhor ou pior apesar das oscilações da Bolsa.
Comprar uma ação seria como comprar uma casa: ela tem um valor intrínseco e uma utilidade bem definidas. Se você compra uma casa e ela desvaloriza 30%, isso não importa muito porque você ainda pode morar dentro dela.
Isto é perfeitamente consoante com a estratégia de "comprar e manter" (buy and hold), em particular a variante que aconselha pequenas compras periódicas na Bolsa. A idéia original desta estratégia é formar um bom preço médio nas ações, pois compra-se tanto nas épocas de baixa como de alta.
Talvez essa estratégia, por ser reconhecidamente boa, encerre uma verdade mais profunda: que o único jeito de acumular patrimônio é economizando. A única diferença entre colocar na poupança ou na Bolsa é que, na poupança, a unidade de medida é o real (ou o dólar), enquanto na Bolsa a "moeda" é o poder de compra de bens duráveis.
A outra diferença é que ações da Bolsa geram dividendos, porque o dinheiro está indo para atividades produtivas. Toda a vantagem que a Bolsa leva em cima da renda fixa, a longo prazo, é a geração de dividendos.
Os únicos dois grandes erros que o seguidor do "buy and hold" pode cometer são: comprar muito na bolha, e vender tudo no pânico. Bolhas e pânicos são momentos em que a Bolsa está consideravelmente distorcida em relação a outros bens duráveis. Isto acontece com *todos* os bens duráveis, não só com a Bolsa.
Se o investidor seguir fielmente à estratégia do Ben Graham, de comprar todo mês um valor fixo e pequeno, automaticamente evita esses erros, pois as bolhas duram relativamente pouco (diminuindo o número de compras ruins). Os pânicos costumam durar mais, o que também é vantagem pois dão a oportunidade de comprar mais ações bem baratinho.
Ben Graham também prescreve deixar mais de 50% das economias em renda fixa, para que sirva como "colchão" e evite a necessidade de vender no pânico, em caso de necessidade pessoal. Peter Lynch ensina que antes de tudo deve-se possuir sua própria casa, pois se todos os outros investimentos falharem, ao menos você tem onde morar, e um imóvel valoriza ao longo do tempo, embora lentamente.