Até agora, o que falamos no artigo sobre a obsolescência dos bancos tem se confirmado. Desde julho do ano passado, diversos bancos e seguradoras quebraram e/ou foram estatizadas no mundo desenvolvido. Bancos sobrevivem de juros, juros são uma coisa em extinção, logo...
Um aspecto que tem me intrigado nesta história toda, é o papel da taxa-base de juros da economia. A taxa-base, aquela que o COPOM altera quase todo mês e todo mundo presta atenção, é simplesmente a taxa que o governo aceita pagar pelo dinheiro que toma emprestado. Como o governo é a entidade mais segura de um país em termos de solvabilidade, todo mundo vai automaticamente pagar um juro maior que este, daí o nome taxa-base.
Aí um dos comentários do artigo mencionado acima foi: e se o governo parar de tomar emprestado, o que acontece com os juros? Na época eu não tive uma resposta convincente para isto; parecia inconcebível um governo não ter dívidas e rolá-las continuamente. Mas, com os juros chegando a zero nos países desenvolvidos, títulos da dívida pública são praticamente a mesma coisa que cédulas de dinheiro (talvez com a diferença que títulos da dívida possam ter valores de face muito maiores, então volta a ser possível carregar um bilhão de dólares numa maletinha 007).
Também houve um outro comentário, no qual alegou-se que os bancos não iam desaparecer porque é do interesse do governo que permaneçam. De fato, se o governo é um eterno tomador de empréstimos, os bancos são engrenagens essenciais no refinanciamento do governo. Os governos impedem a quebra dos bancos não porque são bonzinhos ou porque querem evitar problemas aos depositantes. É por interesse próprio mesmo. E neste caso o caminho natural é a simbiose -- na forma da estatização dos bancos na medida que eles deixam de ser negócios viáveis.
O contrário tambem é verdadeiro: os bancos dependem dos governos, ou mais especificamente, da taxa-base de juros que ele paga. O Brasil deve ter os poucos bancos realmente saudáveis que restam no mundo -- porque o governo paga juros altíssimos pela sua dívida. Um belo dia isso vai acabar, como já acabou no mundo desenvolvido, e aí como ficarão os bancos sem esse referencial emburrecedor e sem esse tomador de capacidade infinita onde se pode enfiar todo o dinheiro ocioso?
Eles têm duas opções: voltar aos dias de J. P. Morgan, onde os bancos eram efetivamente os reguladores da economia e o governo era "apenas mais um" tomador de empréstimos, com avaliação de risco pior do que os grandes conglomerados privados. (Até no Brasil, o faturamento do Barão de Mauá era maior do que o orçamento do Império). A outra opção é os bancos minguarem e desaparecerem. Acredito totalmente na segunda alternativa.