2009/05/25

O que abunda não desagrada

Esses tempos tava em moda uma nova palavrinha do jargão corporate: overqualification, como o novo grande problema do mercado de trabalho. Até revistas femininas estavam mencionando isto como fator de desemprego. (Mais um motivo pelo qual eu leio revistas femininas: quando alguma "onda" chega lá, é porque realmente está na boca do povo.)

Fora a possibilidade de fornecer uma desculpa auto-congratulatória para não ser aceito num emprego ("sou overqualified"), até que ponto este problema realmente existe? Outra pergunta, de ordem um pouco mais teórica: existe alguma possibilidade de que um excesso de educação possa ser um problema?

Isso me lembra uma história de faculdade do meu pai. Na época (1975) quase não havia faculdades, mas estavam começando a despontar uma aqui, outra ali. A sala foi instruída a debater o tema: o que acontece se grandes fatias da população fossem estudar e conseguissem ter diploma de 3o grau? (Isso a longo prazo, já que em 1975 o desafio ainda era o analfabetismo.)

A resposta de alguns alunos foi a esperada: "Se todo mundo fizer faculdade, vai faltar gente pra cavar valeta, ou vai ter de por universitário pra cavar valeta".

Ao que o professor (acho que era um capitão do Exército) respondeu: é bom que assim seja. Uma valeta cavada direito, com boa drenagem é coisa muito importante, pode até salvar vidas. Colocando universitário pra cavar valeta, a gente tem certeza que vão esticar um fio para ela ficar reta, que vão usar uma baliza para ela ter profundidade e largura regulares.

A única possível falha no argumento do professor é seu otimismo quanto à esperteza dos universitários (pois equipara educação a inteligência, que têm correlação mas não é perfeita). Fora isso, faço minhas estas palavras.
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