Quinta-feira, Julho 02, 2009

Democracia e baderna

Existe no Brasil uma confusão essencial sobre democracia, que já causou a sua abolição diversas vezes. A última "edição" tem durado bastante, mas não está nem de longe livre deste problema:

* Muita gente (tradicionalmente "de esquerda") confunde baderna com democracia.

* Muita gente (tradicionalmente "de direita") confunde democracia com baderna.

Uma obra necessária, que qualquer pessoa do povo concorda que é necessária, que levava 5 anos para ser realizada com os parcos tecnológicos de 1880, e agora demora 20 anos por que os diversos setores do governo ficam batendo cabeça, isso é baderna. É perfeitamente possível ouvir todas as partes interessadas, respeitando a democracia, sem quadruplicar os prazos em relação a 1880.

Manifestações de rua parecem baderna, mas são democracia, ainda que incomodem outros que não o alvo da manifestação.

Quando funcionários públicos que ganham salários estratosféricos fazem greve todo santo ano, quase sempre no mesmo mês, isso é baderna. Fazer greve "porque está na Constituição" não é democracia. Greve é um instrumento extremo, reservado para quem enfrenta condições subumanas de trabalho, assim como dar um tiro em alguém que invade sua casa é a única situação (extrema) onde é aceitável dar um tiro em alguém. E ainda assim sujeito a dar muitas explicações para o delegado.

Quando controladores de vôo fazem greve por absoluta falta de condição de trabalhar (um problema conhecido desde o início dos anos 90), isso é democracia, não é baderna, AINDA que a lei proíba militares de fazer greve.

A burocracia reinante no país, com os DETRAN e os cartórios de mestre-sala e porta-bandeira, não é nem democracia nem baderna. No Brasil, o ditado de Napoleão vale ao contrário: "Nunca tome por burrice o que pode ser explicado por conspiração." Criar dificuldades para vender facilidades. Mas este problema de nível mais baixo não será objeto deste post.

Olhando as diversas expansões e contrações das liberdades democráticas no Brasil, podemos associar cada uma delas a este mau entendimento do que seja democracia, trocando apenas o sinal.

Eu atribuí cada uma das polaridades da confusão a um viés político, mas isso provavelmente tem mais a ver com o fato de que o Brasil tem sido governado pela "direita" desde sempre. Na verdade, qualquer governo tende a confundir democracia com baderna.

Como "nunca antes neste país" a esquerda governou por tanto tempo e num regime estável, só agora podemos constatar isso in loco -- com o Lula sempre às turras com a imprensa, acusando-a de baderneira e uma ameaça à democracia, quando ela na maioria das vezes só está apontando as badernas que ameaçam a democracia.

Curiosamente, enquanto reclama da imprensa, tolera as badernas dos achegados e tenta vendê-las embrulhando-as no celofane do "jogo democrático".

Na verdade a característica mais negativa, ou talvez a que mais me incomode, do governo Lula é a extrema ambivalência, o conseguir exercitar as duas polaridades dessa confusão AO MESMO TEMPO, confundindo baderna com baderna e democracia com democracia. Outra ambivalência essencial do governo Lula, esta fora do seu controle, é ser perpetrante e vítima ao mesmo tempo da confusão baderna-democracia, pois muita gente ainda toma sua subida ao poder por sintoma de baderna.

Note que eu disse que o governo Lula é ambivalente. O PT não é. O PT apenas confunde baderna com democracia, infelizmente pelo motivo errado: ainda pensa que está na oposição. Quando acontece uma baderneira greve de funcionários públicos, o Lula é ambivalente, o PT apóia. Quando o governo quer fazer uma obra, o PT se coloca ao lado de qualquer coisa que se mexa que possa obstar a obra (índios, verdes, MS*, etc.). Quem assistir durante alguns dias a TV Câmara vai constatar que os parlamentares petistas ficam o tempo todo criando projetos de lei embaraçosos e prejudiciais ao governo. Sob essa métrica, PT é muito mais oposicionista que o PSDB.
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