Domingo, Agosto 23, 2009

Fé, boas obras e sectarismo

Esses dias fui visitar um amigo. Quem me conhece, sabe que isso é por si só um evento raro. Este amigo em particular é presbiteriano e responsável direto por eu não ser ateu -- e me fazer mudar de idéia é feito hercúleo e evento raro (não estou me gabando disso, eu sou teimoso pra c*** mesmo).

Lá pelas tantas a conversa pendeu para religião, eu comentei de uns problemas na minha igreja, que eu andava meio afastado, e ele atalhou "é, as igrejas também não colaboram para atraírem a galera". Achei que ele estava falando especificamente dos luteranos (ele já foi luterano), mas insistiu no comentário mais uma ou duas vezes, e pareceu-me então que ele estava atirando num alvo maior.

Até que ele abriu o jogo: estava chateado porque a igreja dele tinha falado poucas e boas das "festas juninas": que era festa pagã, que era adoração de santos, que era coisa do demônio, e que tava todo mundo proibido de ir. O que pareceu a ele (e a qualquer pessoa razoável) uma restrição absurda e um desrespeito à nossa cultura. Afinal de contas, se o cristão for fugir de festas que coincidem com equinócio e solstício, vai ter de cancelar a Páscoa e o Natal.

Ainda mais interessante foi a conclusão dele: "Todo mundo é cristão, mas os pentecostais falam mal dos evangélicos tradicionais, os evangélicos falam mal dos católicos e assim por diante. No fim das contas, os melhorzinhos são os católicos, porque não falam mal de ninguém".

O nome disso é "sectarismo". Vou estender o argumento do meu amigo, afirmando que o sectarismo das igrejas evangélicas ocorre "de baixo para cima" mas não "de cima para baixo". Explico: as igrejas pentecostais toleram as neopentecostais, porém o contrário não é verdadeiro. O pessoal da Assembléia de Deus acha-se irmão do pessoal da Universal, mas a Universal hostiliza abertamente a AD e todas as outras pentecostais.

Ou seja, além de sectaristas, essas igrejas impõem-se um "jugo desigual". Além de proceder não-cristão, é BURRICE, pois desprezam os tolerantes e toleram quem lhes despreza.

(Para quem não está acostumado com a expressão: a metáfora bíblica do jugo desigual é costumeiramente usada para abordar a questão dos "casamentos mistos". Jugo é algo parecido com uma cangalha, utilizado para dirigir uma junta de bois; jugo desigual é colocar dois animais com força diferente na mesma cangalha, estragando o dia de ambos. Um casamento "misto" seria um "jugo desigual" para o crente, pois este seria sobrecarregado. Naturalmente, a definição de "não crente" é quase sempre carregada de sectarismo.)

Esse sectarismo fundamentalista, parente próximo do purismo encontrável em muita gente que trabalha com informática, não pode trazer nada de bom. Basta olhar para o mundo islâmico para ver onde a história acaba: xiitas contra sunitas, e cada um deles contra o resto do mundo. E isso em questão de décadas. E a semente dos homens-bomba cristãos já está lançada, vide quem coloca bomba em clínica de aborto. Nem os fundamentalistas ateus são apreciados, que dizer dos demais?

Há algum tempo, o Silas Malafaia, um palestrante evangélico muito conhecido, que pertence à Assembléia, enxergou o óbvio, mas apenas porque a água bateu na bunda, ou seja, porque a Universal está desvinculando a Record da igreja e está comprando horários em outros canais, desalojando à força de dinheiro os demais teleevangelistas como ele:



Coincidentemente, nos últimos dias o tema Igreja Universal veio à tona novamente. Essa ressurgência do tema não é o motor deste post, mas não deixa de ser uma coincidência curiosa.

Costuma-se dizer que "tempo ocioso é oficina do diabo". Muitos "cristãos" devem ter excesso de tempo ocioso, para ficar perdendo tempo falando mal de outras igrejas e crenças, ao invés de ocupar-se com a SUA crenca. Aliás, se começar a prestar atenção nos sermões, é curioso o quanto dedicam-se a estudar Satanás, os demónios, os "anjos maus" etc. Para mim, quem fala demais de um assunto, é porque tem fascinação secreta por ele.

A coisa fica mais interessante quando o evangélico deita-se a falar mal dos kardecistas, que têm uma ênfase pesada na tolerância, na caridade e no desenvolvimento de muitos trabalhos assistenciais. Note que eu não sou kardecista, eu não acredito em reencarnação, nem em espíritos atazanando pessoas. Agora, eu digo com sinceridade que INVEJO os trabalhos que eles desenvolvem e INVEJO a aparente ausência de sectarismo na crença deles, assim como eu invejo a mansidão do meu amigo cristão supramencionado.

Por mais que o kardecismo possa soar inverossímil, há coisas boas nele; coisas que os evangélicos deviam no mínimo imitar. Quando mais não seja por VERGONHA NA CARA.

Um evangélico sectarista diria que as tais obras de caridade não significam nada, é tudo obra do diabo etc. Muito bem; de fato a base da fé evangélica, inclusive da luterana, é que a pessoa salva-se unicamente pela fé, não pelas boas obras. Agora, muitos "cristãos" estão forçando demais este argumento e desprezando a verdade universal de que "você é o que faz". E principalmente esquecendo que ter fé IMPLICA num padrão de conduta superior, que forçosamente inclui boas obras, tolerância, e rejeição ao sectarismo -- qualidades facilmente observáveis em cristãos "de verdade" (o que aumenta a estupidez relativa dos cristãos "de mentira", porque não sabem aprender nem olhando os bons exemplos).

O fato é que muita igreja pentecostal tem uma linha de pregação que resvala no desencorajamento à caridade, porque "quem é pobre é porque não tem fé". A Universal é tida como uma aberração mas é apenas uma exageração desses argumentos; ela nasceu e cresceu dentro de um caldo de cultura preexistente, um caldo que é mantido morno e nutritivo por muitos cristãos inexpertos de outras denominações.
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