Sábado, Setembro 05, 2009

Idéias aleatórias sobre ensino da eletricidade

Uma metáfora que de vez em quando utilizo para explicar a alguém sobre "como funciona a eletricidade", em particular sobre a diferença entre corrente (amperagem) e tensão (voltagem):

a) A corrente é a quantidade de elétrons que passa pelo fio, como automóveis andando numa estrada.

b) A tensão é a quantidade de energia que CADA UM desses elétrons carrega (como o número de pessoas que um carro está transportando).

Na verdade, não há metáfora, mas apenas comparação com o trânsito. Corrente é *realmente* a quantidade de elétrons em movimento (1A = 6.24 x 10^18 elétrons por segundo). Física nuclear usa muito a unidade "eletron-volt" (eV) para medir energia de partículas.

Mesmo livros de Física do 2o grau colocam a coisa em termos de "campo elétrico", "potencial elétrico", ou seja, tentam partir de um padrão muito alto e acaba que quase ninguém consegue realmente "enxergar" a eletricidade, e daí deduzir suas principais propriedades.

A metáfora hidráulica chega perto de ser boa para explicar eletricidade a leigos, só que a maioria das pessoas também não consegue visualizar que uma usina com desnível de 400m pode gerar o dobro de um desnível de 200m, dado o mesmo consumo de água.

Alguns fatos que tornam-se, a meu ver, fáceis de entender vendo a eletricidade como partículas carregando energia:

* Se 10 carros transportam 3 pessoas, ou 15 carros transportam 2, ou 30 carros transportam 1 cada, o resultado final é o mesmo: 30 pessoas transportadas. Fica fácil enxergar que potência = tensão X corrente.

* Elétrons ocupam espaço por serem matéria, mas energia, tal qual a luz, não ocupa. Assim, a energia dissipada num fio devido à sua resistência só depende do número de elétrons que está passando, pois apenas eles ocupam espaço. O que resulta na equação P=I^2.R.

Isto é análogo ao fato de um engarrafamento de trânsito depender apenas do número de carros, não do número de passageiros; e que a velocidade de tráfego não cai linearmente conforme aumenta o número de carros.

* Ainda sobre a resistência, o elétron precisa "gastar" parte da energia que carrega para "vencer" a resistência do fio. A quantidade de energia despendida depende apenas da corrente e da resistência, não da tensão.

Supondo uma corrente de 2A e uma resistência de 1 ohm, os elétrons perdem 2 volts ao passarem pela resistência, e a dissipação de energia vai ser 4 Watts. Não importa se a voltagem original dos elétrons era 2V, 3V ou 10000V; a perda é fixa, pois depende diretamente do fato dos elétrons "ocuparem espaço".

Nesse ponto, pode-se introduzir o conceito de "potencial elétrico", pois falta explicar POR QUÊ os elétrons se movimentam e transportam energia com eles. Aqui a metáfora hidráulica torna-se útil novamente, pois a água também flui apenas se existe um desnível. O desnível cumpre três papéis:

* é um dos constituintes da energia hidráulica, que faz e.g. mover uma turbina (trabalho = desnível X volume X peso da água)

* é o que faz a água fluir de um lugar para outro;

* "empurra" a água através de canos e estrangulamentos. Se dobrarmos a altura do desnível e mantivermos o duto de água exatamente igual, o volume de água que flui também dobrará.

A tensão também cumpre esse papel tríplice na eletricidade:

* define quanta energia cada elétron carrega;

* faz os elétrons andarem pelo fio numa direção só, coisa que normalmente não fariam;

* causa o aparecimento de uma corrente. Se a tensão dobrar e a resistência permanecer igual, a corrente também dobra.

Componentes da resistência

A metáfora hidráulica é ainda útil para entender "de onde vem" a resistência. Canos finos e fios finos são mais resistêntes à passagem de água e eletricidade (embora o motivo real disso seja muito mais complicado para a água). Dobrar o comprimento de um fio dobra a resistência, e assim por diante.

Tragédia dos comuns

Outra coisa que muita gente, inclusive professores, têm dificuldade de entender, é o seguinte "paradoxo":

a) Aumentar a resistência diminui a corrente, e portanto diminui a potência dissipada;

b) Se há duas ou mais resistências em série num circuito, a maior resistência dissipará a maior parte da potência.

Isto lembra a "tragédia dos comuns", onde a ação que beneficia um indivíduo torna-se altamente prejudicial se adotada por todos os demais. Se todas as resistências de um circuito série forem aumentadas de um certo fator, a distribuição entre elas permanecerá igual, porém a potência absoluta dissipada cairá por aquele mesmo fator.

O exemplo mais palpável é a resistência do chuveiro; a posição "quente" usa um segmento pequeno da resistência, enquanto a posição "fria" usa todo o comprimento dela. Isto vai contra o senso comum da maioria das pessoas.

Mesmo pessoas que conhecem a teoria caem nessa pegadinha, pois elas pensam na fórmula P=I^2.R e logo dizem "se a resistência é maior, a potência é maior". Esquecem que mudar a resistência vai mudar também a corrente. A fórmula correta a ser considerada neste caso é P=E^2/R, pois a tensão (E) não varia em função da resistência, e ainda deixa claro que diminuir a resistência aumenta a potência.

No mais, eu ia mencionar a história dos elétrons andarem apenas alguns centímetros por hora, e não na velocidade da luz (apenas a "pressão elétrica" desloca-se perto da velocidade da luz, como bolas de bilhar alinhadas transmitem o movimento para a última bola da fila), mas o Leoboiko já fez um comentário longo a este respeito, então... vide comentários :)
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