Desta vez, está muito difícil escolher em quem votar para Presidente da República. Estou pensando seriamente votar em branco, ou votar na Marina para auditar a urna. Em se tratando dos dois candidatos favoritos (Serra e Dilma), são parecidos demais e nenhum representa o que eu desejo para o Brasil da próxima década.
Não é segredo para ninguém que sou um liberal. De vez em quando alguém me diz, em tom de chacota: "Só no Brasil pra pobre ser de direita". De fato não sou rico, mas é de uma idiotice infinita associar liberalismo a "coisa de rico". Tudo que eu quero é o Estado fora do meu caminho. Não me entra na cabeça que as grossas camadas de burocracia que interpõem entre os cidadãos e seus respectivos direitos possam ser uma coisa boa.
Liberalismo, eis uma coisa escassa nesse país. Desde o alvorecer da República, o Brasil oscila entre o dirigismo estatal de esquerda e de direita. O último que trabalhou um pouco em reformas liberalizantes, o ex-presidente FHC, é tratado como um leproso (pelas mesmas pessoas que agora enaltecem o Sarney). O penúltimo que tentou coisas parecidas, André Rebouças, acabou exilado e cometeu suicídio na Ilha da Madeira.
Mas enfim, diz-se que democracias maduras produzem candidatos bastante uniformes, que representam de fato a vontade do povo, e votações apertadas. Serra e Dilma são isso aí mesmo. Talvez eu esteja querendo algo que meu país simplesmente não pode produzir. (Ainda sobre o assunto burocracia, veja o final deste post.)
Lula
Verdade seja dita, o Lula foi um bom candidato e um bom presidente. Votei nele duas vezes, porque ele prometeu coisas que na época eu desejava, e achava necessárias: renda mínima (Bolsa-Família), aumento do salário mínimo, Fome Zero, e "mudança de ares" na política. Não me arrependo, ele entregou o que prometeu.
Mas o Lula dá sinais de cansaço. As bobagens homéricas que ele tem falado nos últimos dias, só podem ser resultado de esgotamento, uma coisa perfeitamente natural.
Além disso, exauriu-se o "momentum" do governo atual em continuar os projetos por conta dos quais eu votei no Lula. Vamos pegar o exemplo do Bolsa-Família. Começou bem, pegou um protótipo de distribuição de renda do governo anterior, e arredondou. Mas nesta altura do campeonato, depois de 8 anos, isto já devia ter evoluído o programa de renda mínima, aquele do Suplicy.
Não só não evoluiu, como involuiu. O Bolsa-Família agora virou argumento eleitoreiro. Diz-se aos pobres: "é nós contra 'eles'". "Se o PSDB ganhar, o BF acaba". Se o BF já tivesse evoluído para renda mínima, o "nós contra eles" deixaria de existir.
Então, já existe aí um bom argumento para votar num candidato que não o de governo. (A não ser que o candidato do governo fosse o próprio Suplicy...)
O espírito conciliador do Lula também já encheu o saco. Os problemas são tons de cinza, mas as soluções são sempre pretas ou brancas. Em absolutamente toda decisão a tomar, o Lula senta em cima na esperança de que ela desbote.
Dilma
A ministra Dilma paga um alto preço pela sua sinceridade. É preciso sempre levar isto em conta. Mas, mesmo descontando este fator, não pretendo votar nela, e vou dar os meus motivos.
Primeiro, é claramente uma representante do dirigismo estatal, um Geisel de saias, e fã de Keynes. Keynes foi um grande economista mas houve outros depois dele; todas as ciências evoluíram nos últimos 100 anos, e a economia não constitui exceção.
Segundo, teve aquele furo homérico dela, de defender a regulamentação de TI. Tudo bem que ela estava falando para sindicalistas, mas infelizmente não tem perdão. Por motivos semelhantes, nunca votei e nunca vou votar no atual governador de SC, Luís Henrique, pois ele defendeu a prorrogação da famigerada reserva de mercado de informática (o que lhe valeu o apelido de Rainha da Sucata).
Terceiro, porque os mais apaixonados defensores da Dilma, defendem-na pelos motivos errados. Há toda uma classe média neolulista que de repente enxergou o Santo Graal no continuísmo, inclusive muitos amigos meus (a maioria do #d00dz).
Um episódio curioso ilustra bem esta minha impressão. Quando fui na Caixa Econômica Federal esses dias sacar meu FGTS, olha só o que o atendente me disse:
"A mulher que atendi antes de você reclamou da burocracia. Mas o problema não é a burocracia, é falta de gente. E se o PSDB ganhar, vai ficar pior!".
Infelizmente, acho que entendi a mensagem de forma muito diferente da pretendida. Foi como se a Regina Duarte estivesse me dizendo: "eu tenho medo".
Depois, tem o vice da Dilma: Michel Temer. Não vou com a cara deste sujeito. É simples assim, não tenho nem motivos para falar mal dele. Preferia mil vezes o Meirelles como vice dela, mas nem esta colher de chá vão me dar.
A Dilma tem alguns atrativos. Ela tem mais culhões que o Lula, quem sabe tenha a coragem de fazer algumas reformas de base que o Lula ficou devendo. A Dilma é um investimento mais arriscado que o Serra, e mais risco significa maior potencial de retorno.
UPDATE: A Dilma conseguiu afundar um pouco mais no pragmatismo, apoiando publicamente o Garotinho.
Serra
O Serra é pintado como o "candidato da direita malvada", do "PSDB da privataria".
Infelizmente para ele e para mim, isto não é verdade. O Alckmin é que mereceria tais rótulos, este é malvado mesmo, e talvez viesse com uma agenda liberalizante. Apenas talvez. O Serra, definitivamente não.
O Serra é um político mais calejado que a Dilma; sabe não falar bobagens, e sabe ser dissimulado. Fica difícil saber qual é a dele, por exemplo em relação a pontos sensíveis como a regulamentação de TI.
Também tem experiência real de governo, afinal o estado de SP é praticamente um país.
Outra vantagem do Serra é ser o estuário do ódio da classe média neolulista e do Fernando Henrique Amorim -- coisas que por si só sugerem que ele é um bom candidato.
O que mais me irrita no Serra, a ponto de provavelmente não votar nele, é a pouca coragem de assumir posições claras. O que a Dilma tem de excessivo, nele falta. Se o PSDB acredita no seu projeto, por que fica "escondendo" o FHC? Cadê a coragem de defender ideais?
A oposição (PSDB, DEM) andam fazendo tanta bobagem, que às vezes penso que estão recebendo mensalão para fingir-se de loucos. Esses dias, o PSDB ameaçou com um projeto de expansão do Bolsa-Família, um plágio claro. Se quisessem propor algo realmente ousado, porque não a renda mínima universal, com o beneplácito do Suplicy do PT? Como disse Raul Seixas, "tá tudo pronto aqui, é só vim pegar".
A última mancada do Serra foi defender o Rio na questão dos royalties do petróleo. Talvez foi uma afirmação eleitoreira, mas talvez revele a falta de vontade em mudar o estado de coisas, em fazer as necessárias reformas. Absolutamente todo mundo sabe que a política de royalties da exploração mineral é absurda.
Aí o Mr. Burns ficou tão brochante quanto o Brinquedo Assassino. Zero a zero e bola ao centro.
Ciro Gomes
O Ciro Gomes tem algumas qualidades atraentes: é inteligente, desbocado, sincero, e tenta ser algo diferente do que está aí.
Mas fica na tentativa. Nas entrelinhas, revela ser um político de museu. Mais um keynesiano, que acredita em despejar dinheiro para "resolver problemas" em determinado local ou região. E por extensão da mesma lógica, achar que as regiões com menos problemas são assim porque já houve despejo de dinheiro lá.
Esta é a impressão que ele me passa. Teria potencial se não tivesse emburrecido assim, e se parasse com aquela pega infantil contra o Serra, que não fica bem num ex-governador. Imagine se o cara vira presidente, e resolve brigar com o governador do Estado em que você mora?
Marina Silva
A Marina cresceu bastante depois que saiu do PT, e o PV tem minha simpatia, por conta de personagens como Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis. O PV tem se tornado um destino freqüente de ex-esquerdistas que acordaram pra vida.
O lado ruim da Marina é tocar o samba de uma nota só: ecologia, ecologia, ecologia. E o pior é o seguinte: seu desempenho como ministra do Meio Ambiente ficou abaixo do par do campo. Foi intransigente, pagou pra ver e dançou. A política ambiental do Brasil é altamente idiota e infelizmente a Marina não conseguiu melhorar isto (não sei se por ideologia, ou por ter sido sabotada).
Side-line: para dar um exemplo da burrice da poliítica ambiental, basta dizer que criam inúmeros imbróglios para a construção de hidrelétricas, e proíbem a construção de termelétricas perto dos centros de maior consumo. Enquanto isso, só em São Paulo capital, 1.000 novos automóveis entram em circulação POR DIA -- cuja potência combinada equivale a uma termelétrica.
UPDATE: a Marina parece ter ouvido as minhas "preces" e tem se mostrado, pelo menos nas propagandas, de forma mais inteligente, sem ficar insistindo apenas na nota da ecologia. Eu estava pensando em votar nela só para auditar a urna (teria de ter um voto na Marina e seria meu...) mas devagarinho este voto parece uma opção consistente. Então, tenho até outubro para decidir se é #marina ou #branco.
Em resumo...
Em resumo, tá feia a coisa. Embora sejam quatro candidatos capazes e de cabeça no lugar (devo admitir que nenhum deles é um Jânio Quadros da vida), ao mesmo tempo não estão à altura da década vindoura. Agendas ultrapassadas, falta de ousadia, estreiteza de visão.
E queria ou não, um deles vai ser nosso presidente no ano que vem. Brasil, ame-o ou deixe-o! Quem sabe haja surpresas positivas quando começar de fato a campanha eleitoral.
Para finalizar, uma piada: burocracia no Além
Esses dias, uma vizinha emprestou-me um livro de espiritismo. Ela descobriu que sou leitor compulsivo e não deixo um livro passar sem lê-lo todo, não importa o tema.
Pois bem: no tal livro, explicou-se que existe no Além, no mundo dos espíritos, um "setor de encaminhamento de pedidos em oração". Quando alguém reza e pede por algo, seu pedido é protocolado lá. Sabia desta? Aposto que não.
A primeira coisa que os espíritos que trabalham lá fazem, é discriminar entre pedidos "possíveis" e "impossíveis", sendo que estes últimos vão, compreensivelmente, para o fundo do monte. Os pedidos "possíveis" são analisados e podem ser autorizados, ou não.
É, tem burocracia até no mundo dos mortos!
Desta "descoberta", tirei duas conclusões, não sei qual é a correta; talvez ambas. A primeira conclusão é que eu preciso abstrair um pouco desta questão; se eu leio um livro de espiritismo e me impressiono com um detalhe tão particular... eu sou um obcecado?
A segunda conclusão deriva do fato do espiritismo ter adeptos quase que unicamente no Brasil (apesar de ter sido inventada por um francês). Talvez o tal "setor de encaminhamento de orações" só pudesse mesmo ter saído da cabeça de um brasileiro.