Ainda estou para ver um estudo sério sobre, por exemplo, o preço que o Brasil pagou (e tem pago) por conta da "moda" do fascismo dos anos 30 que criou o fenômeno Getúlio Vargas. Com seu fascismo à brasileira, Vargas iniciou o processo de homogeneização cultural, um nivelamento por baixo, que na minha opinião foi o ponto exato o onde o Brasil perdeu o bonde e não achou outro até hoje.
Aí veio a II Guerra e, ao contrário do que seria o normal, o processo de homogeneização tomou ainda mais impulso, porque por supremo azar as maiores comunidades de imigrantes no Brasil eram justamente oriundos dos países do "Eixo do mal".
Mas não quero mais falar de Getúiio por hoje. Alguns efeitos colaterais do nazismo são os ecos na cultura popular. Imagine, por exemplo, quanta gente deixou de ir ao dentista, e portanto ganhou cáries e outros problemas bucais, só por conta do filme Maratona da Morte (Marathon Man).

Embora a ligação nazismo-dentista seja indireta (o vilão do filme foi inspirado em Josef Mengele, que não era dentista nem conhecido por torturar alguém usando instrumentos de densita), as cenas do tal filme estão indelevelmente marcadas no inconsciente coletivo.
Uma curiosa "cicatriz" do nazismo que eu carregava, e por muito tempo sem saber, era a ojeriza a marias-fumaça.
Desde que eu tenho contato com o mundo do train pr0n (ferreomodelismo, trainspotting, história de ferrovias etc. etc.) notei que a "comunidade" gostava muito de trens a vapor, pagava mais por miniaturas de marias-fumaça que os diesel, empenhava-se no live steam e na preservação de máquinas antigas mundo afora.
Na minha cabeça, isso nunca fez muito sentido. Por algum motivo, trens a vapor me eram antipáticos. Até o apito me irritava. O que eu gostava era do trem a diesel ou elétrico: moderno, quadradinho, tecnocrático.
Eu nem sequer sabia como uma máquina a vapor funcionava ("pecado mortal" para um amante de trens!), e nem queria saber. Ao mesmo tempo, eu reconhecia que era pouco razoável odiar uma máquina sem uma razão clara.
A resposta veio com o filme "Lista de Schindler". Lá estava a maria-fumaça levando prisioneiros para o campo de concentração.

Então eu lembrei que tinha visto um filme, ou uma série, sobre o Holocausto, quando era muito pequeno, tipo início dos anos 80. Até a patinada da máquina na partida era parecida, acho que foi esse mesmo o detalhe que me permitiu lembrar.
Enfim, agora eu sabia por que não gostava de marias-fumaça. E continuei não gostando, para mim todas podiam ir ao ferro-velho.
Mas, como diz o ditado popular, mordida de cobra se cura com veneno de cobra. Acabei fazendo as pazes com as máquinas a vapor ao assistir outro filme: "O Imperador do Norte".

Não que este filme não seja também violento e racista; um cara morre logo no terceiro minuto, atropelado pelo trem, e o foguista (negro) é rotineiramente xingado pelo sádico condutor do trem.
Por outro lado, há a voz macia de Marty Robbins cantando "A man and a Train", há o grande realismo no jargão e nas operações ferroviárias -- e o mendigo com cara de major que conhece todas as manhas para viajar de graça num trem.

Passei a gostar das marias-fumaça a partir de então, conforme meus posts recentes devem ter demonstrado. O apito da locomotiva a vapor me agrada e me emociona, conforme convém ao amante de trens. Meu problema existencial agora é resistir à tentação de viajar clandestino no trem :)