Na verdade, tudo gira em volta do problema de pegar um fio ou linha unidimensional, e transformá-lo num tecido bidimensional.
A forma mais óbvia de fazer isso é o tecido plano, ilustrado à esquerda. Na sua forma mais simples, os fios de urdume (azul e laranja) passam alternadamente por cima e por baixo de um terceiro fio (roxo) esticado transversalmente.Apesar de simples, este tipo de tecido tem algumas desvantagens. Ele não tem elasticidade, exceto se os próprios fios forem elásticos. É preciso fazer um "rolo de urdume", com todos os fios de urdume (que podem ser milhares), antes de efetivamente começar a tecer (apenas o fio roxo pode ser contínuo e único).
Além de tudo, é quase impossível tecê-lo de forma 100% manual, é preciso possuir ao menos um tear manual. Por isso, você dificilmente vai ver mulheres fazendo este tipo de tecido enquanto fofocam numa tarde chuvosa.
O tricô, ou malha, "knitting" em inglês, possui uma estrutura muito diferente. São "laços" de fio, feitos sempre por dentro de um laço que já existia antes. Como o laço é circular, ele pode ser esticado em qualquer direção, e assim a malha possui elasticidade, mesmo que o fio não possua.Embora eu tenha usado "fios" de cores diferentes no desenho ao lado, a malha pode ser produzida a partir de um único fio, e pode ser feita com simples agulhas de tricô. Também podem ser feitas com máquinas, embora uma máquina de fazer malha seja muito mais complexa que um tear plano.
O grande desafio de fazer malha é que os últimos laços, os laços "vivos", precisam de alguma forma ficar retidos numa agulha, para que os próximos laços possam ser passados por dentro deles. É por isso que um trabalho inacabado de tricô sempre está com a agulha espetada nele.
Toda máquina de malha produz o tecido de forma circular, como um tubo, e em tese pode fazê-lo usando um único fio: cada volta da máquina construiria um ponto. Isto tomaria muito tempo, de modo que muito mais fios são utilizados, em torno de 100. Uma volta constrói 100 pontos, ou alguns centímetros de tecido.
O crochê tem certo parentesco com a malha, mas constrói o tecido no sentido vertical, em vez de horizontal, e é (ao menos para mim) o mais difícil de visualizar.O ponto mais básico é o "ponto corrente", ilustrado à esquerda. Apesar das diversas cores, apenas um fio é utilizado em todos os laços. A ideia é introduzir a agulha no laço A, formando um novo laço B, e retornando. Depois introduzir a agulha em B, formando o laço C, e retornando. E assim por diante. São apenas laços, não há nós segurando nada no lugar.
Este ponto é utilizado por algumas máquinas de costura, pois consegue costurar usando apenas um fio. O calcanhar-de-aquiles do ponto-corrente é o fio no final da costura: se ele não estiver amarrado e for puxado, desmancha todos os pontos. Esta propriedade é bem-vinda quando se deseja abrir uma costura facilmente (como numa boca de saco).
Como há apenas um laço "vivo" num trabalho qualquer, não é preciso deixar a agulha espetada num trabalho incompleto como se faz no tricô. Por outro lado, é possível desmontar completamente um trabalho de crochê simplesmente puxando o fio. Esta desmontagem é na verdade bem-vinda quando se precisa corrigir um erro detectado mais à frente.
Mas o ponto-corrente também constrói um objeto unidimensional, que não é o que queremos. Para construir um tecido, é preciso adicionar aquelas outras bossas do crochê como "ponto alto", "ponto baixo", "baixíssimo", etc. que são simplesmente técnicas de ancorar uma corrente nova numa preexistente, sempre com um fio contínuo. Quanto mais "baixo" o ponto, menor o número de correntes entre uma ancoragem e outra, e mais fechado fica o tecido.