Quarta-feira, Agosto 18, 2010

Esnobismo em números, e um "causo"

Este artigo do Gizmodo, sugere que possuir um telefone "velho" em Nova Iorque (cujo código de área é 212) é um fator de destaque social. Grande sacada do Gizmodo. A gente acaba fazendo esse tipo de distinção até sem perceber.

Quem nunca fez pouco de uma empresa porque o telefone de contato começava com 9 (celular)? Os mais "nerds" inclusive sabem as faixas de telefones "fixos" do SkypeIn e ficam automaticamente desconfiados a respeito de entidades ou pessoas que os usam. Ou uma empresa cujo CNPJ começa com zero-zero, que costumava ser atribuído a microempresas.

Embora eu nunca use crediário, a mocinha do cadastro da loja via de regra não sabe disso, e eu sempre forneço o telefone celular primeiro. Aí ela dá a senha: "tem um número alternativo?" e eu a contra-senha: um número de telefone que começa com 3, nitidamente bem-vindo, que abriria portas.

Ou naquela vez que abri uma poupança na Caixa, não levei comprovante de residência, mas a mocinha perguntou "vem cá, você tem telefone fixo?" e tudo estava resolvido.

Numa cidade razoavelmente grande, é possível saber em que área mora uma pessoa pelo simples prefixo do telefone, e há quanto tempo ela está lá. Em Joinville, 3425 é "Zona Norte", costumava ser um handicap, mas agora a Zona Norte é desenvolvida e 3425 é "Zona Norte das antigas". Um 3427 é um pouquinho menos antigo. Já um 3454 desperta desconfianças, pois é Nova Brasília ou Morro do Meio. (Se eu solicitasse um telefone novo *hoje*, na área onde eu morava em Joinville, me dariam um 3454.)

E depois de cada prefixo, tem o número do terminal, que de certa forma indica a "ordem de chegada". Obviamente isto vai perdendo o sentido ao longo do tempo, porque os cancelamentos vão causando a reciclagem dos números. Mas o fato é que cancelamentos de telefone fixo são infreqüentes e a seqüência numérica ainda "entrega' quantos anos o sujeito vive naquele lugar. Basta saber a "idade" de mais alguns telefones da mesma central. Quando mudei-me para cá, lembro de pelo menos uma pessoa me dizendo "você mudou faz pouco tempo, né?" assim que informei meu telefone.

Se for pensar direitinho, um número de telefone diz muito sobre você. Faz pensar que os números deveriam ser completamente aleatórios, talvez até mesmo descartáveis. Já considerava paranóia alguém tirar seu número da lista telefônica e do 102, hoje acho que é uma medida de segurança bastante razoável, essencial até.

É claro, basear confiança num simples número pode ser uma furada. Me lembrei do "causo" a seguir:

Um amigo vendeu-me um telefone que ele até então alugava. Isso em 1998, quando aluguel de telefones era um negócio em extinção, mas ainda existia. Devo ter pago 200 reais; um telefone ainda valia isso na época, pois a instalação era imediata, enquanto um novo demoraria algumas semanas. Casualmente, este amigo mencionou que o ex-locatário não era bom pagador.

Logo começaram a pintar ligações de cobradores e "clientes", procurando pelos ex-locatários. Tratava-se de um casal que fazia "programas", atendiam ao gosto de qualquer freguês, o leque de "serviços" seria material para uma aula de análise combinatória.

Durante dois ou três anos ligou gente perguntando "quanto é o programa" (o mais comum era "eles" procurando os serviços "dele", sacou?). Esses dois deviam ser muito bons no que faziam, ou a carência do povo é muita.

Eu deixava o telefone desconectado da tomada e usava só para Internet, até que alguém reclamou para a BrasilTelecom e apareceu um técnico lá em casa "porque estão tentando ligar para você e não conseguem". Isso num sábado à noite! Imagino com que veemência a reclamação foi feita. O jeito foi reconectar o aparelho.

Os mais engraçados eram os cobradores. Um deles ficou insistindo, custou a acreditar que eu não tinha nada a ver com o casal 20. Aí eu comecei a me aborrecer, e perguntei afinal de contas quanto eles estavam devendo. "3200 reais." Isso em 1999, o dinheiro valia o dobro que hoje.

"Cara, como é que você vende 3200 reais de roupas a crédito para dois desconhecidos?" eu perguntei, meio que sem querer, não deu pra segurar o espanto. "Pois é né, a gente precisa vender e...". respondeu o coitado, nitidamente envergonhado. Mas a espontaneidade da réplica convenceu-o que eu não tinha mesmo nada a ver com o peixe.

Aposto que se for um cara honesto na loja dele e quiser comprar 300 reais fiado, não vai conseguir. Teria o cara confiado tanto num número de telefone "das antigas", como de fato era aquela linha?
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