
"Nenhum sulista que se preze usa curau instantâneo"
(do filme "Meu Primo Willy")
Apesar da frase acima, que reflete bem o que o nordestino pensa da canjica ou curau vendido em caixinha, fazer esta iguaria a partir dos ingredientes naturais (milho verde cozido, depois moído no liquidificador, depois coado) dá um trabalhão incompatível com a vida moderna. É coisa pra quem tem meia dúzia de escravos^Wserviçais em casa, eu ainda chego lá. Por ora, mato a saudade com a canjica instantânea mesmo.
Das diversas que já testei, a que mais me agrada o gosto é a São Brás. Minha esposa concorda com esta avaliação. O problema é que só se encontra São Brás lá no Nordeste. Achei canjica instantânea uma única vez num supermercado aqui do Sul (não lembro a marca) e era imprestável.
Assim como o mungunzá, quem faz a canjica aqui em casa sou eu. Por algum motivo, eu sempre acerto o ponto e a Ana nunca acerta. Tem certamente a ver com minha afeição a doces.
As dicas que posso dar sobre a preparação da canjica instantânea, que vão dar a ela um gosto bastante aceitável frente à "legítima", são as seguintes:
* Misture o leite frio com o pó, razoavelmente bem misturado, e deixe descansando. Quanto mais tempo, melhor; costumo deixar 2h.
O pó terá absorvido todo o leite, dando um aspecto de "praticamente pronto" à massa. Se estiver excessivamente consistente, você pode até adicionar 100ml a mais de leite (se é que prefere a canjica mais mole).
Este passo desmente o caráter "instantâneo" do produto mas na única vez que fiz a canjica "right away" (lascando fogo embaixo imediatamente após misturar), não ficou tão bom. Deixar de molho também abrevia o tempo de cozimento após a fervura.
* Elevar a temperatura lentamente, mexendo sempre. É preciso que ela ferva, mas que chegue lá não muito rapidamente.
* Depois de ferver, mexer sempre, observando o "ponto" ou comportamento da mistura. Não ultrapassar 10min de fervura.
O líquido muda claramente de "estado" quando a canjica ferveu tempo suficiente e está pronta. Parece que os grãos desaparecem e o líquido fica perfeitamente homogêneo, muda até de cor. Observe esta mudança, cozinhe mais um minuto ou dois e pronto.
Se você deixou de molho tempo suficiente, isto vai acontecer apenas 5 min após a fervura, ou nem isso.
Ferver tempo demais vai prejudicar a textura; deixar cozinhando muito tempo depois da "mudança de fase" vai deixar a canjica esquisita.
Repetindo, é preciso que a canjica realmente ferva e permaneça fervendo para ficar no ponto. É meio complicado ferver uma mistura grossa sem queimar no fundo, manter fervendo sem provocar excessiva evaporação, ainda mais num fogão comum. Aqui eu preciso ficar alternando entre fogo alto e baixo a cada 30s.
Pode-se colocar um pouco de canela na própria mistura, mas o gosto vai ficar forte. Acho melhor colocar por cima da canjica pronta, pois cria o contraste entre partes perfumadas e não-perfumadas pela canela.
Bon appétit.