Sexta-feira, Outubro 29, 2010

Mais um detalhe sobre o estouro da bolha

Um item que esqueci de abordar no post anterior, sobre o estouro da bolha imobiliária: FGTS.

Além da forte expansão do crédito, existe um outro combustível não-renovável alimentando o boom imobiliário: o FGTS. Como as regras de uso do FGTS para compra de imóveis foram flexibilizadas (não conheço as regras exatas mas diz-se que dá pra comprar praticamente qualquer imóvel, seja usado, na praia ou o que for) muita gente entreviu aí uma oportunidade de "sacar" o FGTS em vez de deixá-lo parado.

No plano individual, não vejo problemas em se fazer isso, o FGTS é uma aberração; transformá-lo em algo mais palpável como imóveis ou ações é perfeitamente válido, no plano individual.

Agora, analisando do ponto de vista macro, é óbvio que o "estoque" de FGTS disponível para comprar imóveis não vai durar muito. Definitivamente não se pode interpolar esse aumento de procura para o futuro.

O outro problema do uso do FGTS é que ele embute um certo "dano moral". Como é um dinheiro com o qual não pode se contar (e por isso é que eu chamei de aberração), estamos sempre tentados a realizá-lo sem contar tostões. O sujeito tem 50 mil no FGTS, compra algo que na verdade vale 25 mil, mas ainda assim acha que está "no lucro" porque sabe Deus de que outra forma, e quando, ia ver a cor desse dinheiro.

E é claro, essa "queima" do FGTS infla o mercado imobiliário. Ouso dizer que o atual nível de preço dos imóveis só "existe" porque há FGTS e crédito para alimentá-lo. No mercado à vista ele não existe, ninguém paga na pedra o que se está a pedir por um imóvel hoje, salvo melhor juízo (eu, pelo menos, não pagaria).

Repetindo, até acho bacana o governo permitir que se use o FGTS para alguma coisa. Não é um erro do governo; é um meio-acerto. Ideal mesmo seria liberar para mais usos, ou melhor ainda, deixar sacar e pronto. Distribuiria o "impacto" do aumento temporário do poder de compra para todas as áreas.
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