Sexta-feira, Outubro 15, 2010

Mais um "trem da bala" em SP?

Já faz algum tempo que escrevi o artigo sobre o trem-bala. Na época fui uma voz isolada, e a imprensa/blogosfera chapa-branca defende esta obra com unhas e dentes. Mas devagarinho começam a despontar mais e mais pessoas enxergando que o trem-bala é uma obra cara, eleitoreira e com pouco "bang for the buck", cujo dinheiro seria mais bem investido em trens metropolitanos.

Agora a Prefeitura de São Paulo resolveu embarcar numa canoa furada do mesmo gênero: o tal do monotrilho.

Monotrilho é, obviamente, um "trem de um trilho só". Salvo implementações malucas (como a que equilibrava os vagões com giroscópios sobre um trilho comum), o "trilho" do monotrilho é normalmente muito largo e alto, e o trem "abraça" este trilho para se equilibrar.

O monotrilho tem três características atraentes: é bonitinho, mais barato de construir que uma ferrovia normal, e é particularmente fácil fazê-lo elevado. A maioria dos monotrilhos existentes no mundo são de fato elevados. Por ser bonitinho e vistoso, com um ar mais modernoso que um veículo sobre trilhos convencionais, muitos dos monotrilhos estão em parques de diversões.

Parques de diversões? Pois é... o principal problema do monotrilho é que ele é "de brinquedo". Não se presta a grandes volumes de passageiros. Existem usos pontuais válidos -- por exemplo, há um projeto de monotrilho para interligar aeroporto, estação de metrô e shopping em Recife, que deve dar 2km em linha reta, com volume de usuários relativamente pequeno. Mas uma cidade do tamanho de SP... tem é que botar metrô e/ou trem metropolitano.

Basta olhar para a carroceria de um veículo monotrilho típico: parece um ônibus de turismo, e de fato a capacidade de um monotrilho é semelhante a de um corredor de ônibus.

De maneira geral, a experiência mundial com ferrovias "esquisitas" não é boa. Monotrilho, metrô com rodas de borracha, levitação magnética etc. etc. acabam sempre provando caros ou problemáticos (vide este site). O que comprovadamente funciona é o trilho de ferro com roda de ferro, seja qual for a velocidade; o TGV francês provou isto.

Sei que metrô é caro e trem de superfície envolve desapropriações caras, mas o monotrilho de SP também implicará em desapropriações em área nobre, então por que não fazer a coisa certa logo de cara?

Um outro aspecto, que eu só tomei conhecimento com esta discussão do monotrilho, é que os elevados tendem a degradar a paisagem urbana, basicamente porque os entornos de cada coluna viram "terra de ninguém". O Minhocão tem sido citado como prova cabal de que elevados de todo o gênero são ruins.

É óbvio: se o caminho elevado tinha como objetivo economizar em desapropriações, só consegue isso mediante supressão da faixa de domínio lateral, porque embaixo ninguém pode ficar. Isto se traduz numa avenida ou ferrovia passando a 2m da varanda do apartamento de muita gente :)

De certa forma este monotrilho consegue ser pior que o trem-bala da Dilma. Porque se absolutamente tudo der errado, ao menos a infra-estrutura do trem-bala pode ser reutilizada por trens convencionais, de carga ou passageiros. Como aconteceu com a Ferrovia do Aço. Já um elevado monotrilho, se for abandonado, não serve nem pra andar de skate.

Se ainda fosse algo inédito, como se não houvesse de onde copiar como se faz a coisa certa! Meu, é só esses políticos fretarem um avião e irem a Munique. O transporte público lá é trem metropolitano e bonde, feijão com arroz. E grandes estacionamentos em cada estação, tal qual aquele projeto da Marta Suplicy que tanto ridicularizaram.

Está faltando coragem de fazer a coisa certa, ou está sobrando safadeza ao adotar tecnologias "ferroviárias" esquisitas para depois poder dizer "tá vendo, esse negócio de trem é falácia".
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