Este post eu dedico ao meu (nem tão) velho pai, que me proporcionou desde pequeno o convívio com o maravilhoso mundo do áudio.
Há muito tempo atrás, foi o Rudá Moura postar sobre o Alan Parsons Project. Alan Parsons era o engenheiro de som dos Beatles que resolveu ele mesmo gravar alguma coisa, e ficou mundialmente famoso.
Do alto da minha ignorância a respeito de música pop, gostaria de citar dois exemplos, duas músicas, que demonstram didaticamente como é importante a figura do engenheiro de som, que quase sempre permanece anônimo.
O primeiro exemplo é a música "Sultans of Swing" do Dire Straits:
Coloquei o video do YouTube porque é uma forma simples dos leitores "relembrarem" a música, mas vou logo avisando que a qualidade é ruim, e algumas características da música se perdem. Talvez uma procura mais cuidadosa traga uma versão com mais qualidade.
Dire Straits é o tipo de música "universal": não importa quantos anos passem, continua "atual" e agradável. Além disso, quase todo mundo se agrada dela.
Mas esta música deles, "Sultans of Swing", é para mim especial. Ela é macia, não-intrusiva, não-agressiva, pode-se conversar facilmente com ela tocando ao fundo. Talvez seja o tipo de som que os audiófilos chamam de "valvulado". Curiosamente, ela soa "valvulada" não interessa em que aparelho de som seja executada...
Claramente a preocupação do engenheiro de som não foi obter a melhor fidelidade. Ela parece ter sido comprimida, o volume é perfeitamente constante. Há agudos mas claramente o baixo se faz notar mais que o prato.
É um exemplo perfeito de que fidelidade perfeita não é sempre a resposta.
A propósito, tem aquela história (que não consegui achar o artigo original para confirmar) de que há três "escolas" de projeto de aparelhos de som: americana, europeia e japonesa. A escola americana prega fidelidade -- o som tem de sair o mais próximo possível do original. A escola europeia dá mais ênfase à transmissão do "conteúdo emocional" da música. E a escola japonesa prega que o som tem de sair como o engenheiro de som quis que saísse.
É o tipo de diferença que faz, por exemplo, eu adorar o som do meu Sony mas odiar o som dos Aiwa em geral, embora muita gente compre, e goste, daqueles mini-system Aiwa joiados. Assim como roupas e sapatos, não há um tipo de som que vá servir/agradar a absolutamente todo mundo.
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O outro exemplo de engenharia de som é mais controverso: Californication, do Red Hot Chili Peppers:
Esta música é considerada por muitos um exemplo didático de má engenharia de som, pois a música satura, e em alguns pontos chega a "clipar" -- aquela saturação seca do transistor, com cliques e buzzes. Havia, ou há, uma tendência de aumentar o volume das músicas nos CDs porque alguns testes demonstraram que o grande público julgava que músicas mais fortes soavam "melhor". Californication é apontada como o protótipo do exagero de emprego desta técnica marketeira.
Curiosamente, eu discordo desta avaliação. Para mim, a música soa "velha", ou melhor, soa como se fosse executada numa aparelhagem de som velha, com potência sofrível e volume no talo. O tipo de aparelhagem que eu encontrava nas festinhas de adolescente, já que na "minha" época não havia amplificador classe D, e um mini-system de 45W RMS já era proibitivamente caro.
Sendo assim, há algo de nostálgico, de anos 80, na engenharia de som desta música. A distorção seca que ela carrega é, para mim, parte integrante e indissociável de Californication. Meus cumprimentos ao injustiçado engenheiro de som.