2010/12/03

Avaliação: celular HTC Desire

Recentemente, adquiri um celular HTC Desire, com o objetivo de aprender alguma coisa sobre o sistema operacional Android, e "liberar" o N900 (para poder rodar o Meego sem medo de ficar sem telefone).

Como primeira "cenoura" a ser perseguida, pretendo portar o emulador de HP-12C para Android e Meego. Mas por ora tudo que fiz foi instalar o SDK. Então vou falar um pouco sobre o celular na qualidade de reles usuário.

Como tenho sido usuário de celulares Nokia, vou acabar fazendo mais comparações com estes que com o iPhone, que talvez seja o concorrente mais próximo.


1) Aspectos físicos

O aparelho é leve, bonito, fino e arredondado em todas as dimensões. A embalagem é interessante por si só, aprenderam alguma coisa com a Apple neste sentido. O padrão de conexão é Micro-USB, tanto para dados como para recarga.

A fonte é realmente pequena e o cabo USB é plugado nela, não é "hardwired", o que permite a reutilização das partes agora e no futuro.

O celular tem alguns botões reais. Não sei se gosto disto, já que algumas funções freqüentemente utilizadas ficam na tela e outras fora. Mas o controle de volume "real" é sempre bom. Um dos botões é também um trackpad ótico -- um dispositivo interessante e inédito.

O som do aparelho é nítido e bastante forte se o volume for elevado.


2) Recursos

O HTC Desire é recheado de recursos, como se espera de um smartphone, em particular nesta faixa de preço. A propósito, o Desire custa em torno de US$ 500 no exterior; como acontece com todo eletrônico, posto aqui tende a custar quase o dobro.

Ele possui GPS, bússola, acelerômetros, controle automático de brilho da tela, câmera de 5MP, recepção FM, saída para fone de ouvido 3.5mm, slot para cartão Micro SD (mas que não pode ser trocado "a quente", a bateria está estrategicamente no caminho), WiFi, Bluetooth 2.1.

Em relação ao Nokia N900, as diferenças parecem ser apenas a bússola e a tela capacitiva multitouch.

A memória RAM é de 512MB, bastante folgada. A grande memória e a presença de quase todo sensor concebível me fizeram optar por este celular como cobaia de desenvolvimento.

Como a tela é AMOLED, o gasto de energia é perfeitamente proporcional à claridade das imagens. Assim, um tema mais escuro gasta menos energia. O DPI da tela é muito alto, não se vê pixels individuais (tudo bem que minha visão é sofrível), e a qualidade de imagem é muito superior à de LCD.


3) Como celular

Como celular puro e simples, o Desire deixa a desejar :) por diversos motivos, alguns propositados, outros não.

Primeiro, a recepção é pior que a do N900 (que por sua vez é pior que de celulares mais "normais" como o N85). Também notei que às vezes é preciso desligar/religar para obter sinal (uma "mania" que o N900 também tem, depois de muitos dias ligado).

Discar numa tela touch é sempre uma tarefa desagradável. Um teclado físico convencional vai sempre melhor. O tamanho das "teclas" na tela podia ser maior. Por outro lado, quem mantém sua lista de contatos em condição impecável nunca precisa digitar números.

Para quem usa celular majoritariamente em ligações de voz, discando números, e precisa recepção sólida, o Desire não é uma boa escolha. Ele na verdade é um computador a que impingiram a função de celular, para uso esporádico.


3) Acesso à Internet

O HTC se redime dos problemas no rádio quando faz comunicação de dados. Não sei qual é a mágica, ou se é a pilha TCP/IP do Linux. Só sei que a velocidade de acesso, seja 3G ou EDGE, parece ser muito mais rápida e consistente no Desire do que nos Nokias.

Para completar, veio de fábrica um aplicativo para compartilhar o acesso à Internet via WiFi, um recurso muito bem-vindo. Embora haja suporte a tethering, acessar via WiFi é muito mais prático.

O celular foi feito para estar conectado o tempo todo. Se configurado desse jeito, funciona muito bem, faz o fallback automático de WiFi para 3G etc. No entanto, se seu plano não é ilimitado, ou você prefere manter WiFi e 3G desligados para a bateria durar até o fim do dia, o Desire (ou o Android) se atrapalha. Por exemplo, se um aplicativo precisa acessar a rede, e ela não está habilitada, ele simplesmente dá erro, enquanto os Nokia abrem um diálogo com os pontos de acesso disponíveis.

Pior é ter de passear nos Settings para ligar ou desligar a Internet. Felizmente, há widgets que permitem comutar WiFi e 3G (e também GPS, Bluetooth etc.). Ainda é menos prático que um diálogo de access points, mas a problemática de habilitar Internet sob demanda deixa de ser insuportável.


4) Como câmera

Infelizmente, tamanho do sensor e da lente ainda "mandam" na qualidade da câmera digital. Logo que abri a tampa traseira para colocar a bateria, vi que a câmera era tão pequena quanto a do N900 e do N85. (Que saudade do N93 e do N95.)

Assim, não alimentei grandes esperanças a respeito da qualidade fotográfica do Desire, e de fato as fotos são sofríveis, um pouquinho piores até que do N900. A qualidade de áudio também parece ser (muito) pior que a do N900. Se você procura um aparelho que lhe dispense de carregar uma P&S, tente outro.

O meu Desire já veio atualizado com Android 2.2, e oferece o recurso de filmagem até 720p, mas não sei se é muito útil, pois a taxa de frames nesta resolução é muito baixa. Curiosamente, configurar a câmera para ISO 800 melhora o FPS da filmagem 720p. Truque "interessante"; logo se vê que este celular roda Linux...

Para compensar, um ponto alto: o recurso de foco manual. Basta tocar na tela para indicar o que deve ser focado (por exemplo, um objeto próximo, em detrimento do que está distante). É um recurso que eu gostaria de ver em câmeras digitais. A interface de acesso às regulagens da câmera também é agradável.



5) Como computador/smartphone

Como computador, o Desire é muito competente. Os aplicativos abrem e rodam rápido; as transições e efeitos de tela nunca hesitam. Uma coleção razoável de aplicativos vem instalada de fábrica.

O teclado on-screen é sofrível, como não podia deixar de ser. Para mitigar o problema, há uma extensão da ideia do T9: acertando "mais ou menos" a área de cada letra, uma busca de dicionário determina o que você provavelmente queria digitar. Se você pretende usá-lo como único computador numa viagem (difícil) um teclado Bluetooth é uma boa pedida.

Como o sistema operacional Android é do Google, era de se esperar que a integração com os serviços do G fosse boa. De fato, basta cadastrar as contas, que automaticamente começam a pingar os e-mails, e os compromissos aparecem no Calendar. Uma mancada: o Google Talk só lida com uma conta. Precisei usar o Meebo IM para acessar todas as minhas contas de IM.

Aplicativos como Facebook e Twiiter vêm instalados de fábrica e são muito fáceis de configurar. O Skype pode ser instalado via App Market.

Há algumas arestas que não prejudicam o uso mas que irritam um pouco, é aquele tipo de coisinha que a Apple não deixa passar. Por exemplo, há dois aplicativos de e-mail: um do Google, outro da HTC. Depois de cadastrar as contas no segundo, descobri que o primeiro já tinha acesso às contas. Tem a questão do Google Talk ser mono-conta.

O widget de relógio não sabe o que é horário de verão; se configurar para o horário de São Paulo, ele fica exatamente uma hora atrasado em relação ao relógio do sistema (no cantinho da tela), que pega a hora da telecom e lida corretamente com o horário de verão. Se configurar o widget para "current location", ele mostra a hora certa enquanto está "perdido", e atrasa assim que determina a localização. Fui obrigado a remover o bonito relógio da tela.

Um aspecto "curioso", levando em conta que o aparelho roda Linux, é que as fontes são muito bonitas. A resolução da tela ajuda, é claro.


6) Inteface Sense

Uma característica controversa do Android é a possibilidade de substituição da interface de usuário pelo fabricante. Há uma UI "baunilha", que o Nexus One utiliza, mas este Desire utiliza a UI "Sense", desenvolvida pela HTC.

A maioria das pessoas diz que a Sense é muito boa; mas o principal problema de um celular com UI não-baunilha é que futuras atualizações do Android ficam a mercê do fabricante (que em algum momento vai abandonar modelos "antigos"). Restará tentar atualizar com firmware não-oficial.

Do ponto de vista de usuário, achei a interface muito interessante, divertida e alegre. Os widgets são úteis, o esquema de notificações é inteligente (embora alguns aplicativos entrões coloquem ícones lá, e não deveriam). Os fundos de tela animados são no mínimo engraçadinhos. Você pode por exemplo colocar uma bússola ou sua posição no mapa como background.

Uso muito pouco o celular, mas parece que o volume da campainha muda em função da posição (diminui se o telefone é movido, silencia se colocado de cara pra baixo). O site http://www.htcsense.com mostra esta e outras sacadas.

O principal defeito é a falta de coesão, aquela "coisa" que só a Apple faz por você. Citei diversos exemplos já (dois aplicativos para e-mail, problemas com fuso horário etc.) e o usuário atento notará outras coisinhas.

O próprio N900, que muita gente considera tosco, feito só para nerds Linux, é mais consistente. Todas as contas de IM são cadastradas num lugar só (Skype inclusive), pode-se instalar plug-ins para protocolos IM não suportados de fábrica etc. A integração de contatos é mais "seamless".


7) Bateria

Neste aspecto, o Desire é infelizmente igual aos demais smartphones: em uso pesado, a bateria vai embora realmente rápido. Assim como no N900 e no N85, o maior vilão de todos é o GPS: a bateria dura 2 horas se estiver ligado.

Para mim não houve maiores surpresas porque o N900 já tinha me "educado" a sempre ter um carregador por perto (a carga via USB barateia esta sina; por exemplo um adaptador USB automotivo para acendedor de cigarros custa uma bagatela no DX).

Mas é uma limitação que empana um pouco o brilho dos smartphones. Você tem um monte de recursos interessantes para usar em campo (câmera, GPS, bússola) mas ao mesmo tempo não tem, porque se ficar usando, fica sem celular para uma emergência. Fazer o que? Carregar dois celulares?

O DX me deu um crédito por considerar que o decodificador S/PDIF que comprei lá tem um defeito (um apito agudo na ausência de sinal ótico). Aproveitei-o para comprar uma "chupeta" -- uma caixinha com bateria de 3Ah e saída USB. Deve chegar só pelo ano que vem, quando vir eu testo e comento aqui.

Se deixar "idle", sem aplicativos carregados, sem Internet habilitada, a bateria vai mais longe, acho que chega a quase três dias. Chega mais longe que o N900.

Em termos absolutos, bateria é um problema. Em termos relativos o Desire não está tão mal. De vez em quando alguém diz que "Linux/Unix não presta pra mobile" mas os smartphones Symbian (cujo kernel foi em tese construído com todo o cuidado para poupar energia) apresentam autonomia muito semelhante.


8) App Market

É muito fácil achar e instalar aplicativos adicionais, via App Market. A qualidade dos aplicativos é muito variável, claramente não há um filtro forte como na loja da Apple, mas acha-se tudo que se possa imaginar. Exercite o caveat emptor, em particular se for pagar por algo.

Os joguinhos são meio bestas (mesmo as versões "lite" de jogos pagos). Um que gostei, e entendi porque tanto se fala dele, é o tal do Angry Birds.


9) Android

O Android é esquisito: os aplicativos são escritos em Java, e cada um roda numa VM própria. Depois de 14 anos fugindo do Java, agora não vai ter jeito; para desenvolver algo para o celular (e justificar o gasto com ele) terei de lidar com Java, Eclipse e monstrinhos do gênero.

Mas parece funcionar bem. Não há a menor sugestão de lentidão. A interface é infinitamente mais ágil que N900 e N85, tanto nas transições de tela (que depende de GPU) quanto carga de aplicativos (que não depende). Gostaria de usar um iPhone 4 por alguns minutos para poder comparar.

Não me fez gostar de Java, mas conseguiu me vender a ideia da arquitetura.

Fica a dúvida: por que um N900, onde tudo é compilado em C, e com hardware bom, GPU boa, seria tão mais lento? Elejo dois suspeitos: X-Window e GTK+. O Meego livrou-se deste último em favor do Qt, vamos ver no que vai dar.

É bem verdade também que a CPU do HTC Desire roda a 1GHz, inclusive muita gente acusa o Android de ter jogado os mobiles na "faixa dos gigaherts" unicamente para dar conta do Java, criando numa nova corrida dos hertz, e dane-se a bateria. Não creio que seja o caso; a duração da bateria, como já disse, não está muito diferente da concorrência.

Um conceito do Android que parece legal mas o power user descobre, rápido, que não funciona tão bem na prática, é o gerenciamento de processos. Você não fecha um aplicativo no Android; você esconde a janela, mas ele fica rodando. Se por acaso faltar memória, aí o Android vai ver se mata algum processo.

Aí acontecem coisas do tipo: a bateria dura pouco, e depois de carregar uma hora, a carga não chegou no verde. Você reseta o celular e o problema some. Certamente havia aplicativos ocultos trabalhando mais do que deviam. O problema tecnicamente não é do Android, é do aplicativo mal-feito que gasta bateria quando não devia, mas um aplicativo para mobile bem-feito... eis a exceção...

Entendo as intenções do Android: simplificar a UI, evitando ter de diferenciar diversos atos análogos (ocultar janela, fechar janela, fechar aplicativo). Mas também deu para entender porque o iPhone adotou a estratégia oposta, banindo multitasking de todo.

SDK: como já disse, não mexi com ele ainda, mas agradou-me muito a possibilidade de instalar em Mac, Linux e Windows. Instalei no Mac e no Linux e pretendo brincar com o Android em ambos.


10) Conclusão

Adquiri o Desire como ferramenta de desenvolvimento, mas é um celular muito interessante para uso diário, entupido de recursos. É digno e vale o preço que custa. Só não é um iPhone. (Considerando o hardware isoladamente, também não é um Nokia.)

O Android tem potencial, apesar de alguns problemas infantis de UI (ou UX, conforme a moda destes dias :) Se houver comprometimento em aparar estas arestas, ele vai longe.
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