
É como eu tenho dito ultimamente para a Ana: não adianta apenas passar por uma cidade ou lugarejo, é preciso pisar nele, viver como os locais vivem, misturar-se, nem que seja por poucas horas, para realmente conhecê-lo.
Por motivos de trabalho, "fui obrigado" a fazer isto em Campina Grande, Paraíba, e segue algumas fotos, acompanhadas de algumas impressões que escrevo apenas para espaçar as imagens :)
À esquerda: feira-livre, centro de Campina Grande.O Nordeste em geral já é visto de forma estereotipada por quem é "do Sul" (assim eles denominam quem está de Brasília para baixo). E a forma que o turista tipicamente emprega para conhecer o NE potencializa ainda mais o estereótipo: ele vai a um resort paradisíaco no litoral, mas que é uma bolha, um corpo estranho.
Enfim, eu sou esquisito mesmo, ir a resort (ou à Disneylândia, ou a qualquer lugar que só exista em função de turista) é o tipo de turismo que me enoja. É isso aí, eu sou o turista que abomina os lugares freqüentados por turistas, assim como o Groucho Marx que não ingressaria num clube que o aceitasse como sócio.
Então, se você quer conhecer o "Nordeste real", um lugar interessante que não existe em função do turista, mas não é avesso a gente "de fora", Campina Grande é um bom lugar para começar. Se ainda quiser incluir praia no roteiro, João Pessoa está a apenas uma hora de distância.
À direita: prédio dos Correios.CG é situada no "Agreste" do NE, uma região mais alta, com temperaturas mais baixas que o litoral, e clima mais seco. Ainda não é o sertão, mas a vegetação que cresce livremente nos morros já é mais rala e enfezada.
Trópico é trópico, é muito quente sob o sol, mas qualquer sombrinha alivia. Além do mais, venta bastante. No prédio onde "morei" por alguns dias, havia apenas dois aparelhos de ar-condicionado, isso entre 40 ou 50 apartamentos.
À esquerda: catedralCG é uma espécie de pólo que atende de diversas maneiras todo o interiorzão, da Paraíba e mesmo dos Estados próximos. É onde as pessoas vêm se abastecer de coisas (a feira estava dura de gente por conta disso), é onde há oportunidade de estudar (CG concentra um grande número de universidades).
Eu gostava de relacionar a geografia litorânea de Recife com a de Joinville (o Rio Cachoeira daqui é o Capibaribe de lá, a ilha do Recife Antigo é a ilha de São Francisco e assim por diante). E nessa minha mania de traçar comparações absurdas, me ocorreu que Campina Grande é análoga a Blumenau/SC.
Senão vejamos: o tamanho de ambas é parecido; ambas têm esta interessante transitividade com os interiores dos respectivos estados; ambas têm um "séquito" de cidades em torno, que confundem-se com a "capital". Têm festas tradicionais (Oktoberfest/São João).
À direita: Museu do Algodão, antiga estação ferroviáriaHoje, CG é conhecida mais pelas universidades, mas num passado nem tão distante, era muito forte na produção de algodão. Ainda se produz alguma coisa, e uma interessante experiência com fibras naturalmente coloridas (em tons de marrom, bege e verde, dispensando o poluente tingimento) está à mostra no Museu do Algodão.
O terreno atrás da ex-estação é grande, aparentemente havia um grande pátio, mas já foi erradicado. O trilho ainda passa por ali, dizem que passa um trem de carga por dia (da CFN), mas ainda não tive a sorte de vê-lo, muito menos fotografá-lo.
À esquerda: Museu do AlgodãoJá fui outras vezes a CG e sempre acabava deixando de ir à antiga estação ferroviária, uma falha imperdoável! Mas desta vez não passou em branco, graças ao Raul que gentilmente levou-me para conhecer alguns lugares, inclusive cidades próximas, e xavecou o guardinha do museu para entrarmos fora do horário. Vou ter de relembrar onde há museus em Joinville para ter condições de retribuir o favor um dia... incrível como a gente deixa de prestigiar estes lugares em nossa própria terra.
Eu gosto de "velharias", nunca me canso de observar o capricho com que os "antigos" faziam as construções, com os parcos meios da época. Detalhes nas janelas, nas portas etc. Neste aspecto o Nordeste é campo bem mais vasto que, por exemplo, o Sul, simplesmente porque as cidades são muito mais antigas por lá.
À direita: igreja e mosteiro, cidade próxima a CG.As cidades próximas a Campina Grande são interessantes de visitar, embora muito pequenas. As igrejas e prédios ligados de alguma forma à Igreja Católica (colégios, mosteiros, conventos) detêm a "parte do leão" das construções interessantes.
Visitei a cidade de Areia, próximo a CG, mas já no "Brejo", uma região climática sui generis: mais alta, mais fria, mais úmida. A vegetação assemelha-se mais à da Mata Atlântica. E a paisagem muda de repente, mesmo de automóvel. (A mudança do agreste para zona da mata, vista do avião, também é rápida, é quase como se houvesse uma linha desenhada no chão.)
À esquerda: igreja matriz de Areia/PB.A zona urbana de Areia é curiosa, por estar exatamente no topo de uma colina, lembrando vagamente a cidade de Corleone no filme "O Poderoso Chefão". Você vai subindo, e pode ver a cidadezinha encarapitada lá em cima.
Parece que era o lugar onde costumavam morar os senhores de engenho, o que explica as belas construções, dois ou três teatros etc. Também ouvi dizer que as mulheres de Areia eram difíceis e orgulhosas. (Se isto for verdade, Areia/PB tem um análogo em TImbó/SC :)
À direita: antigo fórum de AreiaVisitamos o antigo fórum de Areia, convertido em museu desde 2005. Um prédio antigo e bonito, piso do segundo andar em madeira (aquelas tábuas serradas manualmente).
Mas foi difícil imaginar o local como um fórum em funcionamento, ainda em 2004. Devia ser claustrofóbico, com dezenas de pessoas a trabalhar lá dentro. O único alívio devia ser a varanda dos fundos, que fica literalmente na beira da colina. A paisagem é bastante relaxante. Até me imaginei como juiz, fumando um cachimbo e olhando o infinito lá de cima...
À esquerda: Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.A parte mais central e "visitável" de Areia é basicamente uma rua, com três quarteirões de comprimento. Curiosamente, havia uma igreja no começo... e outra no final da mesma rua, uma distância à pé. Para que duas igrejas tão próximas?
Segundo o Raul, provavelmente esta segunda igreja era a "dos pretos". Na verdade, segundo apurei na Internet, esta foi a primeira igreja do lugar; a matriz é que é mais recente.
Achei curioso haver um pinheiro na praça desta igreja, conforme pode ser visto na foto.
Voltando a falar de Campina Grande, há muitas residências no estilo art deco por lá. Parece que é um dos grande repositório deste estilo do Brasil. Não entendo nada disso, mas as poucas construções aqui da terrinha que me disseram ser art-deco, eu aprecio :)
No mais, segue a galeria completa de fotos no Flickr. Enjoy.