Falam mal dos desenhos animados modernos. Também não gosto deles, mas não sei se são o grande risco para a mente infantil que alguns apregoam. Se desenho animado influencia alguém, então eu tive a pior formação possível: cresci vendo Pica-Pau, o sujeito mais folgado que existe. Fora que os desenhos dele são via de regra nonsense -- aquela coisa de ser trancado num cofre, que é jogado ao mar, e reaparecer ao lado do adversário. E os desenhos devem ser ambientados na Bolívia, porque os personagens sempre têm, e usam, bananas de dinamite. Por último, são muito datados e lançam mão o tempo todo de estereótipos que hoje em dia são quase inaceitáveis.
Mas esses desenhos antigos têm um "algo" que os novos não têm. São mais arte. Não foram feitos às pressas para fomentar a venda de um brinquedo preexistente, verbi gratia: Transformers, He-Man.
Além de serem "mais arte", têm ligação com "arte verdadeira". Aprendi a gostar de música clássica por meio de desenhos como este aqui:
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Decerto nesta época a CIA era mais esperta e sabia instilar melhor os valores judaico-cristãos-ocidentais na cabeça da criançada :) Às vezes a lavagem cerebral CIA sai pela culatra. Nos desenhos animados, as mocinhas são sempre loiras, as bandidas são sempre morenas; e por isso mesmo acabei preferindo as morenas.
Ok, sério agora. Hoje em dia fala-se muito de como fazer as crianças gostar de leitura, de música erudita etc. mas as tentativas de fazer isso são via de regra bisonhas. Ler "Amor de Perdição" de Camilo Castelo Branco (por que não um autor inglês? É mais "patriota" ler autores portugueses?) e achar que vai nascer amor às letras desta atividade forçada, sob ameaça de nota vermelha. [1]
Isso quando não rola aquele sincretismo ideológico com nacionalismo, adoração a Villa-Lobos, misturar com inclusão social... Aí, meu velho, é fim de jogo. Não há forma mais eficiente de espantar a audiência.
E não me digam que estou exagerando. Infelizmente tive contato por tempo demais com este tipo de coisa. Estudei música num lugar chamado Casa da Cultura, e lá eu aprendi a *desgostar* de música erudita, em particular de música brasileira e mais em particular ainda de Villa-Lobos, por conta do pedantismo docente e discente reinante no lugar.
Por ensinarem de forma ideologizada, passei a enxergar ideologia na música brasileira -- uma ideologia que não bateu muito bem com meu cérebro programado pela CIA :)
Felizmente, "desaprendi" e hoje gosto até de Villa-Lobos, ou melhor, da sua obra, porque gostar do "compositor da trilha sonora do Estado Novo" seria pedir demais. Até daquela música "O Guarani" que abre a "Voz do Brasil" eu gosto. Ouço samba-choro, Clara Nunes, Reginaldo Rossi, e por aí vai. Mas ficam de fora aquelas músicas "engajadas" [2], e o grosso do que se convencionou chamar MPB, que não é nem M, nem P e talvez nem B.
Eppur si muove, e vejo iniciativas bastante interessantes de instilar cultura brasileira do jeito certo, em particular na TV Cultura, que meu filho adora assistir. E o Pica-Pau continua passando na TV aberta, acho que nunca deixou de passar. Em último caso, há o YouTube, esta maravilhosa máquina de nostalgia.
[1] Afirmação inspirada pelo gwm, o "homem SHA-1".
[2] Novamente devo citar uma frase do gwm: "A definição entre esquerda e direita: gostar ou não de Chico Buarque."