Graças a uma dica do amigo Sidnei, aventureiro de carteirinha, soube que a Estrada do Rio do Júlio foi reaberta. As mini-férias estão indo para o fim, então tinha de aproveitar para ir lá. Com a emoção adicional de fazer isso com um carro de passeio :)Para quem não sabe, é uma estrada rural de Joinville/SC, que sobe a Serra do Mar. Há muitas outras estradas de terra e pavimentadas que fazem o mesmo, mas esta "mora no coração" por ter sido um dos primeiros destinos "aventureiros". Outro atrativo (para mim) é a região possuir represas e usinas elétricas (a estrada foi construída por conta disso).
No início dos anos 90, a "gangue dos 4" (eu, Sidnei "Sidão", Emanoel "Animal" e Humberto "Zé Gotinha") desceu esta estrada de mountain bike, inúmeras vezes. Com o tempo, Sidnei noivou, o Humberto também ("sort of"), sobraram eu e o Emanoel, que trabalhávamos na mesma empresa de informática e como bons nerds não tínhamos nada pra fazer no sábado à noite.
Aí um dos dois sugeria: "Vamos subir a serra?" e lá íamos nós, sexta à noite, depois da faculdade, para fazer uma jornada nonstop de 120km e desnível de uns 900m: Joinville, Pirabeiraba, Rio do Júlio, Schroeder, Guaramirim, Joinville. Nosso "composto isotônico e nutricional" era Pingo de Ouro e Coca-Cola (invenção do Humberto) mais um eventual gole de água nas cascatas do caminho.

A estrada sempre foi precária, em particular o trecho final da descida, por ser muito íngreme. A rigor a estrada muda de nome nesse trecho, denomina-se estrada Macaquinhos, pois passa a margear o rio de mesmo nome, deixando a oeste o vale do Rio do Júlio.
As chuvas cavavam valetas irregulares na estrada, que nos infligiam tombos homéricos. Nem o Humberto, com seu reflexo felino, escapava. O Emanoel, esse era freguês de caderno dos buracos, e o Sidnei era atormentado por defeitos na bicicleta.
A estrada de vez em quando fechava por conta dos desmoronamentos, e acho que em 2001 desistiram de reabrí-la; apenas motos e jipes ainda passavam. Fiquei realmente surpreso com a reabertura e tinha de ir conferir, desta vez de automóvel.
Preferi subir que descer, pois é menos perigoso se encontrar um obstáculo de repente. Mas a estrada está melhor agora do que em qualquer outra época. Parece que a anexação de parte daquele território ao município de Schroeder tem surtido efeitos positivos.
Como eu sempre percorri a estrada no sentido de descida, achar o ponto de entrada para subir me custou alguns erros. A paisagem rururbana mudou muito nestes... 15 anos? há estradinhas para tudo que é lado no local, e a memória viciada numa única direção definitivamente não ajuda quando se tenta achar a paisagem "oposta".
Depois de ter lido um pouco sobre Mata Atlântica no site do Instituto Rã-Bugio, foi interessante constatar que em boa parte do trajeto do Rio do Júlio a mata é realmente primária e intocada (Uma área surpreendentemente grande de floresta daqui da região que parece virgem ao leigo, é na verdade secundária, ou seja, que recuperou-se depois de desmatada.)
Meu sentimento em relação à reabertura da estrada é ambíguo. Por um lado, fiquei extremamente feliz de poder ir lá de novo. (Se não reabrissem a estrada, meu plano era descer de bike assim que a esposa aprender a dirigir, para me transportar serra acima.) Por outro, temo pelo impacto ambiental. Há quem diga que a estrada aberta é paradoxalmente uma coisa boa para o meio ambiente, pois dá mobilidade à Polícia Ambiental para coibir caça e extração de palmito. Tomara que seja mesmo o caso.