Este sujeito me manda uns livros de vez em quando. Acho que uma vez eu fiz uma limpa na biblioteca e mandei uns livros para ele, cobrando apenas o correio. Desde então ele me manda um livro de vez em quando. E não cobra nada, o que me deixa merecidamente de consciência pesada.
Em particular dois destes livros que recebi são altamente recomendáveis. Não que eu concorde com tudo que dizem, mas fazem pensar.
DA MATTA, Roberto. O que faz do brasil, Brasil?
Roberto Da Matta é o famoso antropólogo que tenta explicar o Brasil, o que é impossível, mas ele é o que mais perto chega deste objetivo inalcançável. Aclamado por muitos, odiado pelos neolulistas, o que já lhe dá um "head start" de credibilidade :)
O livro explora alguns dos elementos-chave do nosso Brasil:
a) a mais marcante característica do brasileiro que é a ambiguidade, a aparente incapacidade de ser "bem peixe ou bem carne". Cita como exemplo o clássico feijão com arroz, nossa principal comida, que não é nem sólida nem líquida. Mas nem tudo está perdido; feijão com arroz é excelente comida, e ambiguidade evita extremismos.
b) A relação entre casa e rua, como dois espaços dicotômicos, o que impede ou enfraquece o senso de comunidade. A casa é sagrada, mas na rua pode tudo (dirigir mal, jogar papel no chão).
c) A ilusão da igualdade racial, onde a ausência do conflito aberto, a organização social "cada macaco no seu galho" e a previsão legal da igualdade (desconectada da realidade) são erroneamente interpretadas como a resolução do problema racial. Por outro lado, é inegável que temos "upsides": ninguém se escandaliza com miscigenação, por exemplo.
d) A noção de que trabalhar (em particular fazer trabalho manual) é para classes inferiores. Da Matta cita a relação entre a palavra latina trapaliare (instrumento de tortura), óbvia origem da palavra trabalhar. Se você não sabia a fonte original desta relação, agora sabe. Na verdade esta distinção entre trabalho físico e intelectual vem desde a Grécia Antiga; a "ética protestante" é invenção bem mais recente.
Conforme eu fiz questão na finalização de cada ponto acima, Da Matta também evita colocar as pedras-de-canto do Brasil sob um enfoque eminentemente negativo, conforme seríamos tentados a supor. Ele procura descrevé-las como nossas características, simplesmente.
LANIER, Jaron. Gadget - você não é um aplicativo!
Este livro é particularmente voltado para quem milita na área de informática. Faz pensar para onde a Internet e a moderna tecnologia está nos levando.
O autor tem uma visão particularmente catastrofista, com a qual, em geral, não concordo. Entrevi uns sobretons neo-luditas e magoados no texto dele. Me fez lembrar aquele povo que amava uma tecnologia e passa a odiá-la quando é demitido da empresa onde trabalhava com ela.
O sujeito bate forte em particular na "pirataria" de música via Internet. Como ele mesmo é músico, é parte interessada e a opinião dele perde força. Também me fez lembrar o Metallica, quando parou de fazer música boa e aí ficou culpando a pirataria pela queda nas vendas.
Algumas afirmações dele:
a) que iniciativas como a Wikipedia impõem uma certa "ditadura da informação", onde apenas uma visão de um objeto se impõe sobre as demais.
b) que a "grande nuvem", correntemente materializada na busca do Google, induz as pessoas a achar que sempre há "outro alguém" a produzir o conhecimento, eximindo-a de fazer isso, levando a um emburrecimento generalizado.
c) que a implosão do modelo de copyright vai remover a fonte de financiamento de autores de livros, músicas etc. essencialmente banindo a classe média do processo criativo. Quem quiser criar arte, terá de se submeter a um "mecenas", na forma de patrocínio de uma grande empresa que forçosamente é uma das "donas da nuvem".
d) que o Linux seria uma prova que a criatividade em nuvem tem limites. Ele baseia esta afirmação em alguns fatos verdadeiros (Linux não decolou no desktop) outros duvidosos (que Linux seria ruim/sofrível em qualquer caso de uso; que seguir a filosofia UNIX foi um anacronismo).
e) que a informação "gratuita" remove a fonte de financiamento da imprensa 'formal', na ilusão que e.g. criticar o governo através de blogs e "twitaços" tem eficácia equivalente a de um jornalista renomado fazendo o mesmo. Não é equivalente porque os "twitaços" das facções favorável e contrária cancelam-se mutuamente; sempre haverá grande número de partidários e opositores a qualquer coisa, por pior que ela seja.
Enfim, são afirmações fortes, que fazem pensar.
O que este autor vê como um perigo, outros vêem como favas contadas. O Paul Graham (acho que foi ele) escreveu num dos artigos que a classe média tal qual a conhecemos está fadada a desaparecer mesmo, porque o "combustível" da prosperidade da classe média -- a escassez de gente educada -- está acabando. Não quer dizer que todo mundo vai virar pobre, mas a velha receitinha de fazer faculdade e arrumar um emprego estável (e ter uma vida essencialmente tão confortável quanto a de um milionário às custas do capital do empregador) não vai funcionar para sempre.
De todas as ideias do livro, eu só concordei inteiramente com uma: o item "e" supracitado. Considero uma sacada genial, algo para preocupar-se seriamente.
Concordo parcialmente com "a" e "b" porque, ao contrário do que parece, é a contribuição individual que faz a nuvem chover; há muita coisa por ser inventada; e há muito conhecimento "fora" da nuvem, basta ler qualquer livro sobre um tema específico para ver quão superficial é "a nuvem". A única área onde a nuvem supera o livro é a própria informática, um parnasianismo que não constitui surpresa alguma. Mas não acho que Wikipedia seja "ditadura". Não mais (e certamente muito menos!) que a Enciclopédia Britânica costumava ser há 50 anos atrás.
E é isso aí. Espero que esta resenha-wannabe seja útil.