Pelo menos um cargo na União Européia, a presidência do conselho, cuja "posse" é rotacionada entre os membros da União a cada seis meses. Há uns anos atrás a vez coube à Grécia. Um conhecido meu, holandês, soltou um comentário na linha "ih, ferrou, corrupção vai comer solta".
Para mim foi meio que uma surpresa, não imaginava isto fosse ainda um problema num país membro da EU. Deu aquela sensação que "incharam" a União e admitiram membros abaixo do par do campo.
Mas infelizmente não posso arrogar-me o crédito de prever o estouro da bolha grega; nem eu nem ninguém imaginava que a coisa ia ser como as notícias recentes têm mostrado.
Um raciocínio semelhante vale para a Itália. Tendo lido o livro "Gomorra" há uns dois ou três anos (cujo conteúdo deixaria até Don Corleone deprimido) não dava pra fingir que ela formava um bloco homogêneo com a EU.
Aí, surge uma onda de reportagens, blogadas e opiniões botando a culpa de tudo no capital internacional e na mídia.
Sempre sem dar nomes aos bois. "Ah, foram eles, sempres os mesmos." Que banco teria quebrado a Grécia? Que jornal estaria espalhando notícias falsas com intuito de causar pânico?
É da psique humana negar sua responsabilidade quando comete alguma bobagem. Isso é até compreensível, ainda mais numa situação de estresse. O que não é compreensível é gente inteligente tomar esta reação praticamente instintiva e comprá-la como a grande verdade.
É como aquele cara que vive acima das suas posses, se endivida, contrai um empréstimo para pagar outro, refinancia até a mãe, aí chega o dia da verdade e o banco toma o carro de volta e coloca no SPC. É natural que este sujeito fique ressentido com o banco, mas não é razoável que coloque a culpa nele; seria comportamento de psicopata.
Aí começam as racionalizações ideológicas, que compõem em cima do erro primeiro. Como o Estado "trabalha pelo bem-estar de todos", não seria justo tachar o Estado perdulário da mesma forma que o indivíduo perdulário.
Eu penso diferente, de boas intenções o inferno está cheio e não acho que os fins justifiquem os meios, ainda mais quando os fins não passam de uma definição abstrata. Estado não existe; e governo que trabalha pelo bem-estar de todos, eis a exceção.
Quando o governo nos diz que pagamento de pensões integrais ao funcionalismo público é "gasto social", é para qualquer um pensar duas vezes na real validade deste conceito. (Veja este artigo do Unafisco a respeito, com alguns contra-argumentos.)
Mas a racionalização tem mais uma camada. A própria corrupção é alçada a mal necessário, a conseqüência indesejável porém menor do processo democrático. Ou seja, Estado perdulário e corrupto não é desculpa, o capital internacional continua sendo o vilão. Então tá.
Ah sim, esqueci da mídia, a outra cabeça da Besta. A imprensa noticiaria casos de corrupção no intuito de enfraquecer a democracia. Inclusive no Brasil, ou principalmente no Brasil, conforme sugere este artigo da Carta Maior.
Claro que a corrupção no governo Dilma é "bom" mas o do governo FHC foi "ruim". Há de se fazer esta fina distinção, afinal o governo Dilma trabalha pelo povo...
Não que eu ache que mídia, capital internacional e mercado financeiro sejam "bonzinhos". Eu estou vendo a mídia negando a bolha imobiliária, pra ficar num exemplinho. Em particular a respeito do mundo das finanças posso recomendar aos interessados uma extensa bibliografia a respeito de golpes, fraudes e administração irresponsável.
Agora, é preciso ter honestidade intelectual. Não vale ficar pensando de forma compartimentalizada para justificar sua ideologia. Se alguém manipula o mercado de derivativos, isso não é desculpa para ministro usar ONG pra desviar nosso dinheiro. Um erro não conserta o outro.
Também é preciso ter senso de proporção. A carga tributária brasileira é 35% do PIB (e seria 40% não fosse o Lula, verdade seja dita), a dos EUA é 31%, da Europa é uns 50% em média. É uma quantidade imensa de recursos concentrada nas mãos de poucos controladores.
O potencial ofensivo é muito maior que o de qualquer investidor, e o escrutínio tem de ser muito mais intenso, inclusive por parte da mídia. Um jornal que trate de governo em menos que um terço das páginas não está fazendo seu trabalho.
Além disso o governo "tem o pau na mão": influi descaradamente no processo legislativo, tem batalhões de procuradores à sua disposição para fazer valer suas teses no sistema judicial (no qual também influi diretamente por deiversos outros meios).
É bem engraçado como os defensores do Estado forte "esquecem" destes detalhes, e alardeiam que o Estado é fraco, sem recursos etc. Qual o interesse que eles têm em propagar estas mentiras?
A corrupção governamental não é um problema nem menor nem igual do que a safadeza no mercado financeiro. É um problema muito, muito maior. É O Um Problema.
Até porque, se não fosse, o regime comunista estaria de pé até hoje, e teria dominado o mundo. Os ideólogos de esquerda deviam pensar com carinho nisto.