Um interessante artigo do Marcelo Rubens Paiva, "A moda do reaça", confirmou algumas impressões que eu vinha coletando nos últimos anos.
Prima facie eu não gostei do artigo. Depois, analisando com um pouco mais de carinho, descobri o que me desagradou: ele a) toma partido; b) não tenta explorar os porquês desta nova "moda".
Enfim, acho que fui rigoroso demais. Descontando os fatores acima, o artigo é relevante, pois sopra o apito a respeito de uma tendência nova por aqui: o neoconservadorismo. Esse mesmo que assola os EUA faz década.
Há algum tempo atrás, escrevi no meu blog sobre isto, também começando a partir de um fato observado: a comunidade de software livre a que pertenço, as pessoas com quem tenho contato e a quem respeito, começaram a se encher o saco de Linux e de ler Slashdot. Estão todos usando Mac e lendo Gizmodo.
Para quem não é do ramo, Slashdot e Gizmodo são sites de notícias a respeito de informática. O Slashdot tem um foco mais plural, abordando muito questões de direitos humanos, propriedade intelectual, ciência pura, e naturalmente software livre. Gizmodo tem mais foco em consumo: a manchete típica é sobre o último iPhone ou tablet lançado no mercado. Totalmente alienado :)
E assim muita gente se alienou, abandonando o sonho meia-nove de usar Linux no desktop, extirpar da Terra as malvadas companhias lucrativas de software e fazer de Richard Stallman o ditador benevolente do mundo. O sonho acabou. Por quê?
Porque cansamos. Depois de muitos projetos conflitantes, que dividiam os esforços da comunidade; depois de muitas decisões técnicas tomadas muito mais por ideologia e preconceitos do que por razões técnicas; depois de MUITA politicagem na "comunidade" brasileira de software livre, interessada unicamente em levar grana do governo e se autopromover; por tudo isso, cansamos.
No artigo eu extrapolei este esgotamento ao resto da sociedade. Por que algo aparentemente besta como neoconservadorismo pode ter emergido nos anos 1990, nos EUA? Simplesmente porque as pessoas cansaram. Depois de quarenta anos de discurso em favor de minorias, o cara pertencente à maioria "dominadora" acorda um dia e pensa: peraí, a minha vida também não é fácil, e não tenho a simpatia de ninguém, que merda é essa?
Afinal, as décadas passam e os problemas ficam. Os palestinos continuam brigando, as mulheres continuam querendo anéis de noivado com diamantes, as diferenças relativas entre regiões continuam, o GNOME e o KDE continuam trocando farpas, o Linux continua sem desktop que preste, e as pessoas estão (na média) mais infelizes que em 1960. Pra que tanta luta, então?
É claro que a luta não foi em vão. O mundo está melhor hoje do que em 1960. Só que os discursos de luta precisariam se atualizar. Mas eis o problema: eles não se atualizam; eles acabam se radicalizando e finalmente morrem, não raro sem terminar sua missão, e dando lugar às antíteses.
Como no Brasil essas "ondas" sempre chegam com 20 ou 30 anos de atraso, ousei dizer que o neoliberalismo e o neoconservadorismo não tinham "vindo com o FHC mas felizmente passado com o Lula". Pelo contrário, estavam justamente aportando em terra brasilis.
E aí está, o reacionário voltando à moda.
E digo mais: vai ficar tão na moda que sujeitos como eu, tachados de "reacionários" nas últimas duas décadas apenas por não terem abraçado a moda do politicamente correto de esquerda, acabarão tachados de indecisos ou de comunistas.