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Terça-feira, Junho 06, 2006

A malandragem necessária

"Para sobreviviver é preciso ser malandro." Acho que todo mundo já ouviu essa frase em alguma forma, principalmente nós brasileiros :) E sou obrigado a concordar. Não estou é claro referindo-me a prática de atos ilegais ou imorais, mas sim à necessidade de ter-se jogo de cintura.

Sobre a malandragem (no bom sentido, repito), podem ser escritos vários tratados. Uma espécie bem particular de malandragem tem ocupado meus pensamentos nos últimos dias, e é sobre ela que quero falar brevemente: o jogo de cintura (ou a falta dela) de algumas civilizações , e as conseqüências disso para seu desenvolvimento.

Nós brasileiros nos julgamos o povo mais malandro do mundo, tanto nos bons como nos maus sentidos. Não sei se concordo com essa visão, mas acho que até não nos saímos mal nesse ranking, conforme pretendo justificar adiante.

Malandro é o povo que consegue se adaptar a um mundo injusto sem perder sua identidade. Cedo ou tarde, todo país ou nação será vítima de atos hostis: invasão, dominação, represálias etc. O "outro" país vai querer impor sua cultura e pontos e vista ao dominado. Como reagir a esse tipo de coisa?

A reação mais bela seria resistir até o último homem, mas talvez não seja a reação mais sensata. Talvez o povo invasor tenha algo a ser aproveitado (olha a malandragem chegando...), seja em termos de cultura, recursos, investimentos, educação. Se é verdade que não existem etnias superiores ou inferiores, quaisquer 2 povos do mundo podem "trocar figurinhas" e aprender alguma coisa um com o outro.

Existe ainda o fator "estragou, então conserte". Na maioria das guerras do mundo, o país vencedor que dominou determinada região procurou desenvolver economicamente aquela região, até para "legitimar" a invasão, e melhorar sua imagem pública. Eis outra oportunidade que o povo dominado pode agarrar.

Um povo que exercitou essa malandragem muitas vezes, com muito sucesso, é o povo judeu. Conforme pode ser visto no Velho Testamento, Israel foi dominada inúmeras vezes e sempre procurou estabelecer relação simbiótica com o dominador, conseguindo manter sua identidade e religião. Talvez o exemplo mais patente seja o Livro de Ester (Ester casa com o rei do povo dominador).

No chamado "período silencioso" da Bíblia (400 anos descobertos entre o final do Antigo Testamento e o início do Novo), os dominadores de Israel foram por sua vez dominados, várias vezes, até a chegada de Roma que dominou a Eurásia quase toda. Israel só pereceu quando grupos radicais resolveram insurgir-se contra Roma, trocando simbiose por confronto. O resultado foi a Diáspora.

Ironicamente, hoje Israel ocupa o lado oposto da relação, pois domina a nação palestina. Isso é injusto para com o povo palestino, mas estes últimos carecem de malandragem. Ao invés de "tocarem o terror", eles deveriam procurar aproveitar o lado bom do vizinho indesejado. Israel tem uma das maiores concentrações de riqueza e cabeças pensantes do mundo, um verdadeiro shopping center de oportunidades de desenvolvimento.

Mas os palestinos fazem questão de restaurar o status quo do século XIX, o que não vai acontecer. Só vão conseguir ficar cada vez mais marginalizados e odiados.

O mesmo acontece com os iraquianos hoje. Eles estão chateados pois viraram um protetorado dos EUA. Concordo que é uma perspectiva desagradável, mas deveriam lembrar que se livraram de um ditador sanguinário no processo. E o presidente dos EUA é renovado a cada 4 anos. Se hoje parece que o Bush não é melhor que Saddam, quem sabe em 2 ou 3 anos não aparece lá um Bill Clinton, disposto a "reparar erros"...

Infelizmente, a malandragem que o árabe tem ao negociar no mercado de frutas, ele não consegue traduzir para um contexto mais amplo. Resultado: os EUA vão beber todo o petróleo deles sem deixar nada em troca.

Falando em EUA, eles também demonstram sua burrice querendo ao mesmo tempo dominar o mundo e tornar impermeáveis suas fronteiras. Não é assim que se domina o mundo. Nos tempos de Roma, um israelita nascido sob o domínio de Roma tinha cidadania romana, e podia andar por onde quisesse dentro do Império sem ser amolado.

O exemplo mais conhecido de judeu-romano era o Apóstolo Paulo, que usou dessa condição para se livrar de diversas canas. Emprestando sua cidadania ao dominado, bem como dando a ele alguma independência cultural, Roma garantia que os povos dominados permaneceriam contentes e sem revoltas.

Nós brasileiros temos altos e baixos na malandragem diplomática. Os baixos eu não preciso citar, pois são de conhecimento geral. Um ponto *muito* alto é a inexistência de guerras na América Latina há um século e meio. Existem tensões e ferias, mas todos são suficientemente espertos para concordar tacitamente que guerra não é bom para ninguém. Nos fingimos de pacíficos (embora não sejamos) e como resultado todo mundo gosta de nós.

Também os povos dominadores vão para o buraco - e rápido - quando não sabem ser malandros. Um notório povo dominador que "não seguia as regras" nem tinha a necessária malandragem, foi o regime nazista. A pretexto do Lebensraum (espaço vital), invadiram países que nunca tinham pertencido a povos teutônicos (desmentindo sua própria propaganda ideológica), e procuraram exterminar os opositores ao invés de cooptá-los.

Apesar da bíblica experiência em lidar com inimigos, os judeus tomaram um feio revés com os nazistas, simplesmente porque os nazistas eram loucos e não seguiam qualquer padrão racional. Por outro lado, o Holocausto abriu o caminho para a criação de Israel.

Por outro lado, no fim da II Guerra, o povo alemão, conhecido por ser cabeça-dura, demonstrou grande malandragem ao aceitar de braços abertos a dominação aliada ocidental. Com isso, conseguiu a proeza de esvaziar a ira dos EUA (que tem numerosa e influente comunidade judaica). Não demorou muito e os EUA já estavam em atrito com a Rússia, e injetaram zilhões na Alemanha para que esta fosse um Estado-tampão na defesa contra os russos.

Os judeus não foram os únicos a se enganarem com um inimigo maluco. Os armênios cometeram o mesmo erro pouco antes. Para quem não sabe, a comunidade armênia cristã era incrustada dentro do território turco, e foram exterminada (2 milhões de pessoas) por obra dos Jovens Turcos, uma ideologia muito semelhante ao nazismo, durante a Primeira Guerra.

Por enquanto, é isso que tenho a dizer. Críticas e sugestões são bem-vindas :)

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