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Domingo, Abril 02, 2006

O Poderoso Chefão

Os que me conhecem pessoalmente sabem que sou um grandíssimo fã da saga "O Poderoso Chefão". Como bom fã, tenho a caixinha com DVDs dos 3 episódios, e o livro que deu origem ao filme. Ainda falta o livro "A Volta do Poderoso Chefão", que traz fatos ocorridos entre o fim da parte 1 e início da parte 2. Algum desgraçado comprou o livro antes de eu, por questão de menos de uma semana :)

Do livro, tiro dois pequenos detalhes muito interessantes, que descrevo a seguir:

A FAMÍLIA BOCCHICCHIO

Esta família não aparece nos filmes, mas apenas no livro. O modo de vida desta família era fornecer reféns. Isto mesmo, reféns.

Quando o mafioso Alice propunha um encontro ao mafioso Bob, e por qualquer motivo Alice fosse suspeita de querer atrair Bob para uma cilada, Alice contratava a família Bocchicchio e fornecia um refém de aluguel a Bob. Seria o mesmo se Alice oferecesse um parente seu (e.g. um filho) para Bob como refém, porém no caso era um refém "profissional".

Tal refém significava que Alice estava realmente agindo de boa-fé. Pois os Bocchicchio eram broncos e muito violentos, verdadeiramente sicilianos, não deixando que nada ficasse em seu caminho se quisessem se vingar de alguém. Se nesse encontro Alice matasse Bob, o refém em poder de Bob seria morto em represália, e os Bocchicchio iriam atrás de Alice pois esta tinha sido a responsável final pela morte do refém.

Parece curioso e cruel tal ocupação, até lembrarmos que muita gente ganha dinheiro no mundo sendo "refém profissional". Um exemplo que lembro fácil é o serviço de fiança bancária. Na criptografia também temos a figura da autoridade certificadora. Em inúmeras situações da vida existe a figura do fiador que garante a Bob que Alice andará "na linha" ou então pagará caro se não fazê-lo.

O INTERMEDIÁRIO

Connie, a única filha do Padrinho casou com Carlo Rizzi, um rapaz de físico perfeito, porém ambicioso, covarde e imbecil. Como o Padrinho disse que o genro não poderia ter conhecimento do "core business" da Família, deram-lhe uma banca de apostas como fonte de renda.

Logo na primeira semana, Carlo cometeu um erro primário: anotou erradamente o "rate" de uma aposta, dando condições a um golpe denominado "o intermediário", onde os jogadores apostam no mesmo jogo, porém em resultados opostos, na banca de Carlo e noutra banca. O jogador sempre faz um lucro, e Carlo perdeu um bocado de dinheiro por esse simples erro.

Vamos analisar porque um "rate" anotado errado poderia proporcionar renda certa a um jogador. Supondo que o objeto de aposta seja o jogo de basebol Alice X Bob, e Alice seja favorita. Apostar em Alice paga 2:1, enquanto apostar em Bob paga 5:1.

Se o jogador apostar 100 reais em Bob e outros 100 em Alice, ele nunca perde dinheiro, porque ele recebe no mínimo 200 reais (se Alice ganhar), ou no máximo 500 reais (se Bob ganhar), portanto é um investimento sem risco.

Obviamente tais "rates" devem estar errados, pois criaram uma situação em que o jogador sempre ganha. Tal deve ter sido o erro de Carlo. O jogador não faz as 2 apostas simétricas na mesma banca para que Carlo não perceba seu erro tão cedo; ele aposta em Alice na banca de Carlo, e aposta em Bob na outra banca.

Isso tudo parece distante da realidade? Pois não é. Os tais "fundos de investimento com capital garantido" funcionam de forma igual, ou pelo menos análoga, comprando opções "opostas", que garantem que o resultado final será no mínimo o capital original, e em geral com um lucrinho extra, para uma larga faixa de oscilações do mercado de ações.

Naturalmente, montar tais carteiras de opções é complicado (e possivelmente um problema NP-completo), de modo que tais fundos tornaram-se possíveis com o avanço da informática.