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Blog pessoal EPx

Quarta-feira, Setembro 27, 2006

Brasil o país de todos os mané [sic]

Hoje ocorreu-me uma prova anedótica e contundente sobre quão perdedor é o povo desse país.

Temos aí inúmeras filosofias e grupos de pessoas. Uns de esquerda, uns de direita, uns defendendo igualdade, outros defendendo liberdade (de forma discutível, mas não é este o ponto). Mas o fato é que *nenhum* destes grupos está acertando a mão.

A Internet é baseada em documentos abertos denominados RFCs (Requests for Comment). Apesar do nome, são realmente normas e passam por rigoroso escrutínio antes de serem publicadas e receberem o mítico número. Por exemplo, a RFC 822 define como funciona o e-mail na Internet; quem conhece redes a fundo conhece esse documento pelo número, "by heart".

Agora a pergunta: quantos porcento das RFCs têm ao menos um brasileiro como autor? Certamente não passa de 1%. Aliás, se houver mais que 5 RFCs com brasileiros entre os autores, já vou ficar genuninamente surpreso. Isso num país de 200 milhões de pessoas, onde ao menos 10% têm condição econômica e educação para potencialmente participar do processo.

Comparar o Brasil com os EUA seria covardia. Eles são maiores em tudo, inclusive na população (300 milhões), portanto obviamente têm níveis de participação maiores em qualquer processo técnico ou cientifico. Afinal eles *criaram* a Internet, e quem pariu Mateus que o embale...

Agora vamos pegar a Finlândia, um país e um povo com o qual tenho contato devido ao meu atual emprego. Apenas 5 milhões de pessoas num lugarejo gelado, a renda per capita ao longo do século XX nem foi aquilo tudo, a amizade com a União Soviética não propiciava exatamente um ambiente neoliberal, onde teoricamente idéias novas florescem melhor.

De fato eles não inventaram a Internet, nem a telefonia celular. Mas dominam o mercado de telefones celulares e figuram como autores em uma grande porcentagem de RFCs. Essa porcentagem (que não conheço exatamente) fica ainda mais patente quando lembramos da minúscula população da Finlândia.

E não se trata de participação em RFCs quaisquer. Para início de conversa, os protocolos IRC e SSH, que eu uso o dia inteiro, todo dia, foram criados lá. Nem vamos lembrar do Linux, que salvou o dia de um projeto americano, o sistema operacional GNU.

Se qualquer grupo ideológico brasileiro estivesse na direção certa, teria produzido um grupo de pessoas suficiente para "virar o jogo" a favor do Brasil, já que nossa população é tão grande.

Domingo, Setembro 10, 2006

A classe média 1.0

Falar sobre o assunto anterior me deu inspiração para colocar "no papel" o conceito de "classe média 1.0", que uso mais como piada, mas "grandes verdades costumam ser ditas em tom de brincadeira".

Para os nerds: o "1.0" não é um número de versão, é um trocadilho com a capacidade do motor dos carros 1.0, que é basicamente o único tipo de carro que a classe média 1.0 (doravante CM10) pode comprar no Brasil. É a classe média que vive no triângulo
"emprego público, condomínio fechado e plano de saúde" conforme Bruno Tolentino (http://www.revista.agulha.nom.br/btolentino01e.html).

Já deve ter dado para notar que ser rotulado de CM10 não é nada elogioso. Segue mais algumas características da CM10:

* Carro 1.0, prefere ter um carro novo ruim ao invés de um carro decente usado, pois o carro novo é o mecanismo de afirmação
* Mora de aluguel, na melhor das hipóteses financiou o imóvel em 100 anos
* Cartão de crédito e conta-corrente com limites grandes e sempre totalmente preenchidos
* Não consegue economizar 1 centavo, conclui que "economizar é uma falácia"
* Necessidade de se afirmar com carro novo, roupas caras, freqüentar lugares pseudo-chiques
* Tenta ganhar dinheiro na Bolsa, sempre compra na alta (efeito manada, junto com o resto dos CM10) e vende na baixa
* Eventualmente tem ações do BB ou da Petrobrás porque comprou com o saldo do FGTS
* Do contrário, faz "acordo" para sacar o FGTS a cada ano, para pagar o IPTU
* Xunxa o Imposto de Renda para ganhar um pouco mais de restituição
* É pego pelo computador da Receita (nem precisou de exame por um humano, pq o xunxo foi primário) e paga 2x o que ganharia de multa
* Ganha 4.000 por mês, vive apertado mas acha o máximo porque está no 1% de maior renda do Brasil
* Vive com sentimento de culpa porque está no 1% de maior renda do Brasil
* Vive falando em fazer ações "sociais" ou trabalho voluntário
* Mas nunca faz nada disso porque se caga de medo de ir onde tais ações são necessárias
* Para se desculpar, desmerece quem faz ("software livre não beneficia o pobre", "trabalho voluntário na igreja não conta", para ficar em duas que eu tive de ouvir pessoalmente)
* No fundo, odeia pobres e acha que todos são bandidos
* Trata porteiros, empregados, etc. de forma arrogante, afinal de que vale ser o 1% superior do Brasil?
* TV gigantesca na sala (de tubo de imagem ou excepcionalmente de plasma, porque LCDs têm pequeno "custo/benefício")
* Home theater safado, mas sempre presente
* Casa decorada com badulaques "étnicos" de "artesanato" (feitos em linhas de produção chinesas)
* Discurso de esquerda, na verdade esquerda-caviar ("farinha pouca, meu pirão primeiro")
* Quando a situação aperta mesmo, começa a se identificar com os programas da Igreja Universal
* Casal trabalha fora
* Maternidade tardia drena qualquer economia que possa ter havido
* Formação: pós-graduação particular
* Não sabe fazer churrasco
* Sonha antes com um carro blindado do que com um carro 1.3
* Se ganhasse na loteria, antes de qualquer outra coisa compraria uma Pajero. Blindada :)
* Já entrou (e se ferrou) em pelo menos 2 esquemas de pirâmide ou marketing de rede
* Para "variar" os investimentos, apostou no dólar contra o real no final de 2002 (se ferrou), e apostou de novo no dólar em 2006 (está se ferrando de novo neste justo momento)
* Só compra celular Motorola, desde o tempo do StarTac. Andava com o celular pendurado no cinto
* Vê seriados enlatados americanos tipo LOST, Friends ou assemelhados.

Se eu me identifico com alguns dos pontos acima? Com certeza! Mas ao menos sei do que estou tentando fugir :)

Ilusões Coletivas II

Continuando a série "Ilusões Coletivas", abordamos o problema da segurança pública.

Um falecido tio meu dizia: quanto mais cercas altas você põe em volta de casa, mais chama a atenção para o que possa haver dentro dela. Muitos achavam-no maluco, pois seu excessivo pragmatismo também o levava a não fazer seguro do carro ("de que adianta ser roubado a prestações?") nem pagar o IPTU da casa ("sempre haverá oportunidade de pagar no futuro, com um bom desconto"), nem fazer plano de saúde ("tem INSS pra quê?"). Hoje começo a achar que ele tinha a mais cabal razão.

Especificamente sobre a cerca em volta de casa, minhas observações particulares indicam que são basicamente inúteis. Toda proteção passiva pode ser contornada por um ladrão suficientemente motivado, e a forma mais fácil (que não tem contra-medida conhecida) é render um morador quando ele entra ou sai de casa. Ladrões que se deixam espantar por alarmes e cachorros, e não têm coragem de render uma pessoa, têm poder ofensivo muito baixo -- são drogados ou simplesmente desesperados.

Em muitos e muitos anos, fomos menos vítimas de roubos (desde furto de varal até assalto) que muitos outros vizinhos, com menos investimento em proteção passiva (cerca, alarme, cachorro grande etc.) que os demais. Penso que nossa "sorte" deveu-se basicamente a duas coisas:

1) Bom relacionamento com a vizinhança. Furtos a residências costumam acontecer "em onda" num quarteirão ou bairro, e não raro são cometidos por "ovelhas negras" conhecidas da comunidade. Se os vizinhos se comunicam, a presença de tais elementos se difunde rápido, e rápido eles desistem.

2) Não dar bobeira. Nossa casa tem cercas baixas, mas as portas ficam fechadas à noite. Pessoas estranhas que batem à porta em horários inesperados vão ter de bater 3, 4 vezes (chamando a atenção dos vizinhos) antes de serem atendidas. As portas têm tramelas internas (fechaduras comuns são facilmente abertas).

3) Evitar ostentação em geral.

O que se vê hoje em cidades de todo tamanho é a profusão generalizada de dispositivos passivos de segurança: alarmes, muros altos com cacos de vidro em cima, e mais recentemente a horrível cerca elétrica. Nada disso impede o ataque dos ladrões, conforme mostram as estatísticas.

Hoje moro num apartamento, em tese muito mais seguro que uma casa. Mas tive o rádio do meu carro furtado na garagem (azar do ladrão, o rádio estava com defeito :). De nada adiantaram as proteções passivas, pois no fundo o que resolveria é o porteiro da noite dar um giro e ficar atento. Ao invés disso, ele *dorme* *trancado* dentro da guarita porque precisa ter 2 empregos para sobreviver e não quer se arriscar.

Seguindo a teoria da "onda", ficamos mais atentos ao que acontece nos fundos do prédio (ou seja, na praia), e 3 dias depois vimos um suspeito pulando para dentro do muro de uma propriedade próxima. Liguei para o porteiro, para que ele providenciasse chamar a polícia ou avisar o vizinho. Aí descobri o óbvio: que ele não tinha *nenhum* telefone dos vizinhos próximos, portanto não tem como pedir ajuda ou avisar ninguém.

E por algum motivo também não quis avisar a polícia, decerto porque porteiro é sempre suspeito nessas coisas, e nós sabemos como a polícia trata os pobres aqui no Brasil :)

Para resumir, as pessoas "de bem" estão construindo fortalezas cada vez mais "fortes", que são basicamente inúteis, mas não fazem a coisa mais básica na área de segurança, que é *comunicar-se* com as pessoas à volta e obter ganho de escala na vigilância.

Mais uma historinha para ilustrar meu argumento que ladrão é em geral pessoa relacionada com a vítima. Há muitos anos atrás, na malharia que eu trabalhava, um assalto em dia de pagamento foi frustrado pela polícia. E como descobriram? Um dos nossos guardas ouviu uma conversa de bar.

Bom tempo depois, esse guarda foi demitido por um motivo bobo. Mais um tempo depois, e nova tentativa de assalto em dia de pagamento, desta vez bem-sucedido. Notou-se que os ladrões dirigiram-se *diretamente* à sala onde estava o dinheiro.

A mesma falsa segurança poderia ser apontada em alarmes de carro, planos de saúde e seguros (contra roubo) de carros. Alarmes de carro são completamente inúteis, até porque costumam disparar quando não devem, e as pessoas aprendem a ignorá-los.

Planos de saúde começam a mostrar "esgotamento de modelo": segundo a última estatística da ANS (Agência Nacional de Saúde), apenas 5% dos planos podem ser considerados bons. Ao invés da classe média colocar o seu na reta e efetivamente tentar usar o INSS, e *reclamar quando não funciona*, refugiamo-nos em planos de saúde que abandonam o paciente ao INSS assim que aparece uma doença crônica ou necessidade de remédio caro.

Seguro de carro ainda é discutível; se o único bem da pessoa é seu carro, o seguro pode fazer sentido. Um seguro contra terceiros é interessante porque o risco de causar danos a alguém é permanente. De resto, parece mais sensato ter um carro barato, que não fará muita falta se perdido, do que ter um automóvel caríssimo e viver com medo.