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Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

Transposição do Velho Chico

Tem algumas pessoas por aí que não gostam quando eu critico o governo ou o Brasil. Então, a quem interessar possa: eu votei no Lula na primeira eleição, teria votado na segunda eleição se estivesse no domicílio eleitoral. E foram votos contrários a minha ideologia de extrema-direita, portanto "valem por dois". É o governo que eu ajudei a eleger, e continuaria sendo "meu" mesmo que tivesse votado contra. Portanto, estou no meu direito de criticar quando eu achar que há algo de errado.

E este é o país que eu vivo; se os problemas estão aí, eles me afetam direta ou indiretamente, e é meu direito e meu DEVER reagir conforme as possibilidades. Definitivamente não sou do Clube dos Defensores da Jabuticaba -- cujo patrono deve ser Policarpo Quaresma -- um pessoalzinho que gosta de arrotar uma ideologia de esquerda, de pagar uma patriotada, e defender evidentes absurdos que só acontecem por aqui (assim como a jabuticaba, que só tem no Brasil. Daí o nome.)

E finalmente, digo ainda que apesar de tudo pretendo continuar no Brasil. Tem muita gente aí que gosta de me criticar à sombra da jabuticabeira, mas que vai se mudar pro estrangeiro na primeira oportunidade que aparecer. Sem contar os que já o fizeram. De modo que vão à merda.

Mas desta vez eu quero elogiar uma iniciativa do governo: a transposição do rio São Francisco. Uma obra devida há séculos, que vai retirar 1,5% da água do mesmo -- 26 metros cúbios por segundo. Para se ter uma idéia, a vazão mínima do Chico é 1815 a 1830 metros cúbicos por segundo (o cálculo tem uma imprecisão inerente). Ou seja, vão retirar menos água do que a precisão do cálculo da vazão total...

Aí vem o padreco d. Cappio e faz greve de fome no intuito de chantagear o governo. E um monte de intelectualóides globais do naipe da Letícia Sabatella, que deve entender muito de hidrologia, apoiar a iniciativa do desgraçado.

Afinal, a quem interessa retardar essa obra?

Costumo dizer que o filme "Tropa de Elite", o livro "Poderoso Chefão" e a Bíblia Sagrada são pequenos universos, onde pode-se buscar orientação, analogias e mesmo frases jocosas para absolutamente toda situação da vida real. Então vamos tentar o Poderoso Chefão. Lá pelos 2/3 do livro, Michael Corleone foge para a Sicília, e conhece a verdadeira e velha Máfia.

E como é que a Máfia mantinha seu poder na Sicília? Controlando os poços de água.

Quando o governo italiano tentava construir uma barragem, o que a Máfia fazia? Primeiro, tentava sabotar a obra politicamente. Quando isso não funcionava, sabotava fisicamente.

Michael Corleone esperava encontrar uma terra árida ou desértica quando estava indo para a Sicília, mas encontrou uma terra bonita e fértil. A pobreza não era conseqüência da Natureza, era obra engendrada pelo homem. O engraçado é que o sul da Itália sempre foi muito mais influente politicamente que o norte, apesar da sua pobreza.

Deu pra notar as semelhanças?

O argumento central do padreco é que a água nào vai ser usada para consumo humano (até porque água para consumo humano é problema praticamente resolvido no Nordeste -- basta armazenar água da chuva, até no oeste de Santa Catarina já fazem isso) e sim para fomentar o agronegócio. O mítico pequeno produtor rural ficaria de fora.

Mas afinal, onde é que as pessoas vão arrumar emprego e renda senão numa empresa? E se tiverem pouca instrução e residirem na zona rural, que empresa seria essa senão uma ligada à atividades primárias como agricultura ou pecuária?

Alega também D. Cappio que "há pessoas a 500m do rio que sofrem com falta de água". Então é por completa e total burrice delas. Ou talvez porque alguém lhes obsta (*) o acesso ao rio. Problemas ortogonais à transposição. Desculpinha esfarrapada tá aí.

Não admira esse padreco se intitular DOM Cappio. O honorífico é bem apropriado. Tutti cosa nostra.

(*) Viu só Heloisa Helena? O verbo é "obstar", não "obstaculizar". Talvez o FHC também devesse prestar atenção à essa dica, embora eu seja menos bem educado que ele (ninguém diz "pior educado", portanto também é errado falar "melhor educado").

5 Comentários:

  • Às 9:29 AM , Blogger Thiago disse...

    Não cara, você não entende. É Deus, o padre cícero e toninho malvadeza que vão salvar o nordeste...

    Bom, como minha posição é extremamente anti-religiosa, deixo aos leitores imaginar o que acho dessa greve de fome...

     
  • Às 12:59 PM , Blogger Raphael disse...

    cara, não sei se você já leu esses links, mas sugiro a leitura pra entender o porque dos protestos.

    independente do padre estar envolvido ou não na história ou da letícia sabatella não entender patavina de hidrologia, o fato de ter um projeto da própria ANA que é muitas vezes melhor do que o projeto que está sendo forçado pelo governo, já deveria ser motivo suficiente para uma discussão pública sobre o assunto, apresentando todos esses fatos, aguardando as decisões judiciais e revendo os estudos de impactos ambientais encomendados pelo governo.

    considero muito importante levar em conta o impacto ambiental desse desvio, não somente se a quantidade a ser desviada é pouca em relação ao volume total de águas. tem muita coisa envolvida e é exatamente por existir toda essa máfia por trás, muito bem ilustrada no seu exemplo, é que devemos ficar com um pé atrás quando a população reclama. eu, pelo menos, considero o leonardo boff um ótimo motivo para avaliar se não tem outros interesses (ou pressões) por parte do governo nessa história toda.

    enfim, seguem os links:
    http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2007/12/406027.shtml
    http://www.ambientebrasil.com.br/noticias/index.php3?action=ler&id=35365

    abraços!

     
  • Às 4:36 PM , Blogger Paulo disse...

    Caro colega. A história da transposição é bem mais complexa do que parece a princípio. Há dois pontos princiais a considerar: 1. o volume(vazão) de água transposto X a vazão do S. Francisco e 2. A quem vai sevir esta água. Vão aí minhas observações:
    Ciro defende a transposição e sempre desqualifica os opositores da idéia. Tudo bem, faz parte do jogo político. Mas quando se trata de esclarecer e entender a questão, o comportamento é inadequado. Vamos tomar um ponto frequente usado pelo Ciro: a transposição vai atender a demanda de água para consumo humano. No início das suas apresentações, esta é a argumentação. Mas logo aparece uma demanda de 1500 litros por dia para cada cidadão (do contingente de 11 milhões a serem atendidos), nas planilhas da obra. Por que este consumo tão alto? Porque é o consumo social, e não apenas para água, banho, etc. Envolve também os usos indiretos, na indústria e no comércio. Tudo bem vá lá que seja. Mas logo adiante aparecem canais para captar muito mais do que os 28 .000 litros por segundo necessários (com vasta sobra) para atender a população planejada. No limite os canais podem levar até 300.000 litros por segundo. E porque este aumento de mais de 10 X o planejado? Aí o Ciro explica que, quando for possível vai se captar do rio este volume para a agricultura. Aí a coisa muda de figura: primeiro - a água, passando sobre a serra do Araripe e andando quase 1500 km, vai ser tão cara que nenhum agricultor poderá pagar. Basta levantar a água 50 m de altura e ela já fica muito cara, todo agricultor sabe disso. Se for subsidiada, está errado: há milhões de hectares na beira do próprio São Francisco que não são irrigadas porque o curto da água é proibitivo, a menos que se subsidie... segundo - A água vai servir para irrigar o quê, se os terrenos por onde passam os canais e rios aproveitados são na sua maioria rasos demais, com terras de pouquíssima aptidão agrícola? terceiro - de que adianta produzir, se fosse possível, naquelas paragens, se os grandes centros consumidores estão a muitas centenas de km de distância? quarto - Ciro diz que as águas só vão ser captadas em grande volume quando houver volume guardado em Sobradinho. Mas o reservatório só ultrapassa os 90% durante três ou quatro meses. E fora disso, como o felizardo agricultor que vai receber água subsidiada se vira? O reservatório só vai permitir uma retirada significativa entre maio e agosto... Enfim, se fosse só para uso humano, não precisava de canal, só de adutora. Agora, a gente se pergunta: tem gente morrendo de sede no sertão de PE, PB, CE ou RN? Quando alguém precisa de água pega uma mula, anda kms e vai buscar. Volta sem água? Nunca. O que ocorre é que, água, há. O que é péssima é sua distribuição, manipulada por políticos corruptos há séculos, que vão fazer o mesmo com as águas da transposição.

    Por fim, colegas, a CPT (e mais meio mundo de gente) é contra a transposição muito mais por causa do custo absurdo desta água, da dificuldade (ou mesmo impossibilidade) de uma distribuição justa e da falácia de que ela vai resolver o problema do sertão, que não vai nem a pau. Há alternativas em forma de projetos? Sim, a começar pelo programa de 1 milhão de cisternas, que já está em operação. Vai dar segurança hídrica ao morador isolado no Sertão. Segundo, a construção das redes de distribuição das águas dos açudes e a construção d novos açudes, tudo projetado e com orçamento. Não se faz porque não se quer.

     
  • Às 11:53 PM , Blogger Aparicio disse...

    caro amigo, em poucas palavras, no mais sintético dos textos de um assunto tão longo, vc definiu o pensamento de 12.000.000 de nordestinos que anseiam por esse líquido precioso que é a água.padre,baleia,mico-leão-dourado,pastor´pai-de-santo tudo isso vale nada. os padres sempre tiveram contra os pobres, o papa tem um país só pra ele, vivem numa opulência só. e dom. cappo é mais uma denominação de mafiosos e ele é mais um chefe.

     
  • Às 12:20 PM , Anonymous Italino disse...

    Segundo Lula: - "Dom Pedro queria transpor as águas do São Francisco e não conseguiu, mas eu vou levar água pro nordeste".Eu complemento: Dom Pedro avaliou a situação e por ser inteligente e ter boa assessoria concluiu pela inviabilidade e o Lula por qualidades inversas vai gastar absurdos para ter uma obra FARAONICA e inviável.

    Falou muito bem o Raphael, parabéns, demonstra conhecimento e perspicácia.
    A água não chegará a quem precisa, ao menos à grande maioria. - Raciocinemos: Qual a distância máxima, entre o manancial e o beneficiado, viável de utlização de água para uso humano, para animais, para horta, para pomar e outras atividades? Desconheço distâncias superiores a 10 mk. Com raras exceções essa distância pode ser viabilizada.
    Portanto, um risco de lápis na vastidão do semiárido o que representará? NADA.
    Qualquer outro sistema de armazenamento individual de água por propriedade é mais viável, econômico e sustentável.
    Exemplo:
    Construção de uma casa e de um galpão para armazenar cereais ou abrigar criação:
    Precipitação anual - 500ml;
    Construções m² m³/ano l/dia
    Casa 80 40,00 109,589
    Galpão 200 100,00 273,973
    Total 280 140,00 383,562
    Esta quantidade de água potável armazenada somada a alguma represa para água destina aos animais e horta, certamente, é mais positivo do que a transposição.

    Quanto ao Aparício tenho dó de sua ignorância sobre a Religião Católica e sobre a falta de respeito sobre as pessoas. Isto deve ser reflexo da falta de responsabilidade dos pais em educar seus filhos. Lamento pelo seu futuro.

     

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