Tenho ouvido muitas pessoas afeiçoadas ao governo do Lula, infelizmente até amigos próximos, falarem de boca cheia que a crise aérea não afeta a popularidade do governo petista nem o resultado das eleições vindouras.
Porque "pobre não anda de avião"Esta é a principal pérola. Já começo discordando da afirmação por preconceituosa. Andar de avião é função da distância e da pressa, independente da classe social da pessoa que precisa se deslocar. E ao contrário de viagens de carro que podem ser por turismo, praticamente ninguém viaja de avião por gosto.
Avião só começa a ficar agradável quando você tem o seu, e isso é para pouquíssimos. E para os integrantes do governo que voam em aviões da FAB, nunca pegam fila no aeroporto.
Tamanha é a falta de visão dos esquerdistas a respeito de transporte aéreo, que o governo Lula estava pronto a subordinar a Infraero/ANAC ao ministério do Turismo (com a Marta "relaxa e goza" Suplicy como ministra). Depois da "gritaria" da "malvada imprensa", viram que algo como 98% dos passageiros viajam a trabalho.
E quando mais não seja, o avião que cai pode matar os pobres que estã trabalhando na rua, no posto de gasolina ou no galpão de cargas.
Mas vamos supor que pobre não anda de avião. E os petistas baseiem nisso sua popularidade. É uma confissão de que o atual governo é cliente do Pacote de Abril e dos grotões de unanimidade burra (procure no Google para saber o que é Pacote de Abril), e que lança mão de políticas paternalistas (esmola oficial, Bolsa Família) para manter sua base. Lamentável.
Eu mesmo posso apontar qualidades muito melhores do governo Lula, sem precisar recorrer ao grotão. Veja a taxa-base de juros (menor que 12% ao ano) e as reservas internacionais maiores que a dívida externa. Sem precisar recorrer ao grotão e dizer que pobre não tem dólar na carteira.
Porque "a gritaria a respeito do acidente é pelo fato das vítimas serem de classe média".Essa é outra lamentável tendência do ser humano, culpar a vítima. Que pelo fato de as vítimas terem os meios e a influência para reclamar seus direitos, essa reclamação seria "menos legítima" que as outras.
Muita gente diz que os judeus são reclamões a respeito do Holocausto, porque "houve muitos genocídios ao longo da História e só os judeus reclamam.". Sorte deles, é talvez por conta disso que hoje cometer genocídio ou fazer experiências médicas em seres humanos seja bem mais difícil que outrora.
O próprio problema da tortura policial no Brasil só é de amplo conhecimento público porque as vítimas do regime militar eram de classe média ou alta. (Os direitistas usam esse argumento para minimizar a perseguição política no regime.) Pobre sempre apanhou em delegacia, antes, durante e depois dos militares. Talvez um pouco menos hoje porque houve quem berrasse a respeito.
Porque é complô da imprensa golpista.Num dia, o governo fala que a imprensa é golpista. Noutro dia, fala que é função da imprensa fiscalizar o governo a respeito de corrupção, pois é impossível ao próprio governo fiscalizar-se a si mesmo com perfeição.
Afinal, o governo quer ou não ficar sabendo de suas próprias ineficiências?
Talvez porque dentro do governo e dentro do petismo há democratas mas também há os candidatos a Pol Pot.
Porque "pobre está acostumado a esperar em fila e morrer em acidente rodoviário, agora o problema chegou na classe média". O argumento começa bem apontando um fato real, mas acaba mal deixando nas entrelinhas que a classe média teria de pagar, sem reclamar, o seu tributo à ineficiência estatal assim como o pobre paga.
Fora que muita gente não-pobre morre em acidente rodoviário, a BR-101 não duplicada em Santa Catarina custou zilhões em vidas e bens. Só que nunca morreu 200 pesoas de uma vez porque não há ônibus com essa capacidade. Morriam em grupos de 2, 5, 10, 20. O berreiro é naturalmente menor, não porque os envolvidos seriam pretensamente pobres, mas simplesmente por ser uma tragédia, isoladamente, uma ordem de grandeza menor.
Alias, hoje eu tive uma microscópica amostra do que é ser pobre. Estou voltando a dar aula; apenas uma matéria por semana, 2 horinhas, só para não perder o hábito. Mesmo assim, a faculdade só contrata professores por CLT.
Já não gosto muito de CLT, por ser uma herança do fascismo getulista. Aí hoje fui ver a relação de documentos requisitada pelo RH da escola. Uma verdadeira lista de supermercado, 30 itens por baixo. Cópia de todos os documentos possíveis, currículo Lattes, foto 3x4. Me senti um operário-padrão.
E quando fui preencher a ficha cadastral, tive de copiar por baixo duas centenas de dígitos, entre números dos diferentes documentos e respectivas datas de emissão. Particularmente exóticas são as datas de emissão -- para que servem, se o número do documento é pretensamente uma chave primária? Fora que em pelo menos dois documentos, não havia esta informação!
Duzentos dígitos é realmente uma "chave primária" bastante unívoca para um ser humano, ainda mais que o namespace é de apenas um país, e não do planeta todo :)
Tal profusão de documentos... e todos são absolutamente necessários para exercer um
direito humano, que é o direito ao trabalho, que por ser um direito humano deveria ser um direito absoluto independente de qualquer exigência burocrática.
Experimente perder um documento destes, para ver a correria que dá, e o precioso tempo que você vai perder. (Eu já perdi uma vez, levei quase um ano para ter a coleção novamente.) Assim como o Pacote de Abril, a era medieval ainda convive com o brasileiro em outras formas.
Se alguém quer uma prova cristalina que o governo, mesmo o petista, dá uma banana para o cidadão, seja pobre ou rico, é o "straight flush" dos diversos documentos na mão. Algo que poderia ser resolvido em um dia, com uma penada do presidente, tornando o CPF o único documento compulsório, já que é uma chave primária unívoca o suficiente.
E não é por burrice, é por safadeza. É para manter o emprego de um monte de gente que só faz mover papéis, um trabalho que ocupa mas é tão inútil quanto arremessar pesos no Pan. E tem gente boa que defende.