Rightwinger

Blog pessoal EPx

Terça-feira, Julho 31, 2007

Protesto de cabra macho

Uma coisa que sempre me perguntei, é porque tanta gente faz greve no serviço público, mas ninguém pede demissão. Se o salário está tão ruim, porque não procuram oportunidades em outro lugar? Mas depois de tantos anos, apareceu alguém fazendo o que tem de ser feito quando se está descontente.

Centenas de médicos em Pernambuco pediram demissão nos últimos dias. Praticamente numa paulada só. A escassez de médicos ficou tão grave que a Justiça proibiu os médicos de deixarem os empregos por ora.

Isso tem causado muitos transtornos à população, é o lado ruim do protesto. Mas um Estado que paga 1400 reais de piso a um médico, enquanto paga aposentadoria de 5000 para um ex-motorista da Receita estadual (segundo eu fiquei sabendo enquanto morava em Recife), tem mais é que pagar o preço político do desgaste.

Isto também revela como nosso governo é "worse than failure". Todo mundo que lê meu blog sabe que eu tenho alergia a governo. Talvez os únicos serviços públicos até eu admito sirvam para alguma coisa sejam saúde e educação de base, pela capacidade de promoverem igualdade sem ferirem a liberdade. E, sintomaticamente, os profissionais destes setores são os menos bem pagos.

Meus parabéns aos médicos pernambucanos, cabras-machos que são, votando com a carteira.

Quinta-feira, Julho 26, 2007

Ajude a definir a taxonomia da classe média

Chamada de trabalhos! Ajude a classificar a classe média em sub-especies, antes que seja extinta e precisemos recorrer à arqueologia, escavando os lixões à procura de celulares Tijorola e aparelhos de som Gradiente.

Há uns meses atrás procurei caracterizar a "classe média 1.0" (CM10). Hoje devo confessar que fui inspirado pelos "tipinhos típicos" do site "Banheiro Feminino", onde diversos tipos de homens são caracterizados. O tipo "Standard" mencionava "... um Palio zerinho na garagem". Uma centelha que deu origem ao conceito CM10.

Por isso, peço a ajuda dos leitores para caracterizar os demais tipos nos comentários. Segue abaixo algumas sugestões de sub-espécies, sempre em função da cilindrada do carro que é o objeto de consumo da cRasse:

CM 0.85 - Carro importado muito usado (aquele jipinho da Daihatsu de 0.85 litros) "porque não compro carroça nacional". Tudo em casa é do Paraguai, até a geladeira e o fogão. Costumava ter renda como contrabandista mas "o Lula me ferrou com o dólar baixo". Numa futura análise arqueológica, será o mais facilmente encontrado.

CM 1.4 Flex - A evolução natural do CM 1.0. Tentou fugir da despesa com gasolina mas foi devidamente ferrado pelo Lula com a subida do preço do álcool. Ouve MPB.

CM 1.6 - Está com um carro muito usado porque não quer ser ferrado pelo Lula pagando imposto de um carro novo. (Ok, há alguns carros novos 1.6, mas é minoria hoje.)

CM 1.5 ou 1.7 - Esse está bem, com um Honda Fit ou um Honda Civic. Foi ferrado pelo Lula mas relaxou e gozou, pois pelo menos o juro das prestações está baixo. Ouve MPB.

CM 1.8 a 2.2 - Primo mais conservador que o CM 1.5, comprou um Chevrolet ao invés de um Honda. Vive dizendo que vai ser mais feliz que o outro a longo prazo porque a manutenção do carro nacional é mais barata, e "o Lula vai te ferrar com o dólar no futuro!". Ouve música orquestrada como Frank Purcell, Richard Clayderman e assemelhados.

CM F1000 Diesel - Caipira. Tem fazenda, maltrata os animais, só trocaria a F1000 por outra F1000 "pois não existe picape nova tão boa". Ocasionalmente anda a cavalo. Extremamente conservador, diz que "mulher é pra ficar em casa", mas a filha foi estudar e hoje ganha mais que ele. Atribui isso ao Lula que ferrou a agricultura. Não ouve nada pois não tem som no carro.

CM 3000 V6 - Classe média emergente. Tem uma Pajero usada, que gostaria de mandar blindar. Alterna-se entre MPB e lixos estrangeiros como techno, noise music etc.

CM 4.3V6 - Neo-caipira. Tem carro grande para compensar o pênis pequeno. Não tem fazenda, nem quer ter. Mora em cidade pequena para sentir-se proporcionalmente mais importante. Conservador e teimoso em hábitos, gostaria de comprar uma nova picape "mas o Lula me ferrou". Usa gás na picape para economizar grana mas também foi ferrado pelo primo do Lula lá na Bolívia...

CM 3100 - Evolução do neo-caipira, que agora tem um jipe ou uma Rural Willys como segundo carro. Ouve Iron Maiden e música internacional dos anos 80.

CM 5.0 V8 - Neo-caipira 100% bem-sucedido, possui um carro antigo V8 na coleção, seja um Maveko ou uma picape Ford F100. Ouve música gauchesca.

CM 5.2 V8 - Cowboy de asfalto, ouve Bruno e Marrone, comprou uma Dodge Dakota automática usada baratinha (porém toda batida) em Goiânia. Preferiu a automática para poder bolinar a namorada com a mão livre. Tira sarro do CM 4.3 V6 dizendo que tem um carro muito melhor, mas vive endividado com a conta da oficina.

CM 3.8 V6 (versão picape) - Versão empobrecida do CM 5.2 V8, tendo comprado uma Dakota V6 manual. A namorada é quem bolina ele. Ouve Daniel.

CM 4100 6 em linha - classe média bandidinho. Ouve rap com o som no talo. Ou faz pequenos tráficos ou admira quem faz. Faz cavalo-de-pau e zerinho na frente de boates suburbanas para impressionar o sexo oposto. Se traficante, "come todo o estoque" ou acaba dando tudo pras miguxas, e está sempre na pindaíba.

CM 1.6 Cheveteira - A versão pobre do CM 4100 ("mas minha viatura tem tração traseira kra"). Não ouve rap, só funk.

CM 2.5 - Colocou motor Opala 2.5 na cheveteira. 30% mais fumaça nos zerinhos.

CM 3.8 V6 versão sedan - classe média bandidinho que trocou o Opalão pelo Omega importado. Como ficou esterilizado pela fumaça tóxica dos pneus e pelo excesso de cana, precisa bater em prostitutas, diaristas e travecos para se excitar.

CM 8.0 V10 - Fugiu para os Estados Unidos onde lava pratos e corta gramado, mas comprou uma Dodge Ram SRT V10. Ouve Shania Twain.

A crise aérea e a política do grotão; e EPx descobre ter um pé na senzala

Tenho ouvido muitas pessoas afeiçoadas ao governo do Lula, infelizmente até amigos próximos, falarem de boca cheia que a crise aérea não afeta a popularidade do governo petista nem o resultado das eleições vindouras.

Porque "pobre não anda de avião"

Esta é a principal pérola. Já começo discordando da afirmação por preconceituosa. Andar de avião é função da distância e da pressa, independente da classe social da pessoa que precisa se deslocar. E ao contrário de viagens de carro que podem ser por turismo, praticamente ninguém viaja de avião por gosto.

Avião só começa a ficar agradável quando você tem o seu, e isso é para pouquíssimos. E para os integrantes do governo que voam em aviões da FAB, nunca pegam fila no aeroporto.

Tamanha é a falta de visão dos esquerdistas a respeito de transporte aéreo, que o governo Lula estava pronto a subordinar a Infraero/ANAC ao ministério do Turismo (com a Marta "relaxa e goza" Suplicy como ministra). Depois da "gritaria" da "malvada imprensa", viram que algo como 98% dos passageiros viajam a trabalho.

E quando mais não seja, o avião que cai pode matar os pobres que estã trabalhando na rua, no posto de gasolina ou no galpão de cargas.

Mas vamos supor que pobre não anda de avião. E os petistas baseiem nisso sua popularidade. É uma confissão de que o atual governo é cliente do Pacote de Abril e dos grotões de unanimidade burra (procure no Google para saber o que é Pacote de Abril), e que lança mão de políticas paternalistas (esmola oficial, Bolsa Família) para manter sua base. Lamentável.

Eu mesmo posso apontar qualidades muito melhores do governo Lula, sem precisar recorrer ao grotão. Veja a taxa-base de juros (menor que 12% ao ano) e as reservas internacionais maiores que a dívida externa. Sem precisar recorrer ao grotão e dizer que pobre não tem dólar na carteira.

Porque "a gritaria a respeito do acidente é pelo fato das vítimas serem de classe média".

Essa é outra lamentável tendência do ser humano, culpar a vítima. Que pelo fato de as vítimas terem os meios e a influência para reclamar seus direitos, essa reclamação seria "menos legítima" que as outras.

Muita gente diz que os judeus são reclamões a respeito do Holocausto, porque "houve muitos genocídios ao longo da História e só os judeus reclamam.". Sorte deles, é talvez por conta disso que hoje cometer genocídio ou fazer experiências médicas em seres humanos seja bem mais difícil que outrora.

O próprio problema da tortura policial no Brasil só é de amplo conhecimento público porque as vítimas do regime militar eram de classe média ou alta. (Os direitistas usam esse argumento para minimizar a perseguição política no regime.) Pobre sempre apanhou em delegacia, antes, durante e depois dos militares. Talvez um pouco menos hoje porque houve quem berrasse a respeito.

Porque é complô da imprensa golpista.

Num dia, o governo fala que a imprensa é golpista. Noutro dia, fala que é função da imprensa fiscalizar o governo a respeito de corrupção, pois é impossível ao próprio governo fiscalizar-se a si mesmo com perfeição.

Afinal, o governo quer ou não ficar sabendo de suas próprias ineficiências?

Talvez porque dentro do governo e dentro do petismo há democratas mas também há os candidatos a Pol Pot.

Porque "pobre está acostumado a esperar em fila e morrer em acidente rodoviário, agora o problema chegou na classe média".

O argumento começa bem apontando um fato real, mas acaba mal deixando nas entrelinhas que a classe média teria de pagar, sem reclamar, o seu tributo à ineficiência estatal assim como o pobre paga.

Fora que muita gente não-pobre morre em acidente rodoviário, a BR-101 não duplicada em Santa Catarina custou zilhões em vidas e bens. Só que nunca morreu 200 pesoas de uma vez porque não há ônibus com essa capacidade. Morriam em grupos de 2, 5, 10, 20. O berreiro é naturalmente menor, não porque os envolvidos seriam pretensamente pobres, mas simplesmente por ser uma tragédia, isoladamente, uma ordem de grandeza menor.

Alias, hoje eu tive uma microscópica amostra do que é ser pobre. Estou voltando a dar aula; apenas uma matéria por semana, 2 horinhas, só para não perder o hábito. Mesmo assim, a faculdade só contrata professores por CLT.

Já não gosto muito de CLT, por ser uma herança do fascismo getulista. Aí hoje fui ver a relação de documentos requisitada pelo RH da escola. Uma verdadeira lista de supermercado, 30 itens por baixo. Cópia de todos os documentos possíveis, currículo Lattes, foto 3x4. Me senti um operário-padrão.

E quando fui preencher a ficha cadastral, tive de copiar por baixo duas centenas de dígitos, entre números dos diferentes documentos e respectivas datas de emissão. Particularmente exóticas são as datas de emissão -- para que servem, se o número do documento é pretensamente uma chave primária? Fora que em pelo menos dois documentos, não havia esta informação!

Duzentos dígitos é realmente uma "chave primária" bastante unívoca para um ser humano, ainda mais que o namespace é de apenas um país, e não do planeta todo :)

Tal profusão de documentos... e todos são absolutamente necessários para exercer um direito humano, que é o direito ao trabalho, que por ser um direito humano deveria ser um direito absoluto independente de qualquer exigência burocrática.

Experimente perder um documento destes, para ver a correria que dá, e o precioso tempo que você vai perder. (Eu já perdi uma vez, levei quase um ano para ter a coleção novamente.) Assim como o Pacote de Abril, a era medieval ainda convive com o brasileiro em outras formas.

Se alguém quer uma prova cristalina que o governo, mesmo o petista, dá uma banana para o cidadão, seja pobre ou rico, é o "straight flush" dos diversos documentos na mão. Algo que poderia ser resolvido em um dia, com uma penada do presidente, tornando o CPF o único documento compulsório, já que é uma chave primária unívoca o suficiente.

E não é por burrice, é por safadeza. É para manter o emprego de um monte de gente que só faz mover papéis, um trabalho que ocupa mas é tão inútil quanto arremessar pesos no Pan. E tem gente boa que defende.

Terça-feira, Julho 24, 2007

O direito de nascer em Cuba

Organizando meus CDs de backup, deparei uma 'pérola' que tinha guardado antes de ir morar em Recife: uma cópia escaneada da fotonovela "O Direito de Nascer", a mãe de todas as novelas.



Grande sucesso dos anos 50/60, a novela é ambientada na Cuba pré-Fidel. Uma moça da alta sociedade (Maria Helena) engravida, o namorado Alfredo não assume e ainda ameaça difamar a moça. O pai de Maria Helena (Don Rafael) manda-a ter o filho num sítio, mas na verdade conspira para matar o bebê. Dolores, a babá negra (que já foi objeto de outra discussão aqui no blog, olha ela aí de novo) aceita a oferta para assassinar a criança, mas foge com ela e a adota.

Toda epopéia tem o "mestre que guia o herói". O homem que aparece no quadrinho lá em cima é Jorge Luiz, ex-pretendente de Maria Helena que encontra Alberto por acaso, vê algo familiar nas suas feições, e ajuda o rapaz dali por diante.



O caçador da família perdida é um tema constante em novelas. O bebê (Alberto) cresce, se forma médico e acaba salvando a vida do avô dele. D. Rafael torna-se amigo do médico, ainda que Alberto "sustente uma igualdade que lhe desagarada", por lhe não ter cobrado nada nem lhe dar prioridade na fila do hospital.



Agora o toque de incesto ou pedofilia da novela. Por freqüentar a casa de D. Rafael, Alberto acaba namorando com sua prima Isabel.

Apesar de praticar a igualdade na profissão de médico, Alberto é tão conservador quanto o avô em questões de família, apesar da origem humilde. Ele obviamente sabe que sua mãe é adotiva, e fica postergando o momento de apresentá-la à namorada (o "trauma intransponível" que todo bom herói tem). Preocupa-se demasiadamente em não ter sobrenome nobre, imagina que isso coloca em risco seu namoro com Isabel.

Mas, conforme o quadrinho acima, Isabel fura o cerco de Alberto e faz as apresentações por conta própria.



Pro dramalhão ficar completo, falta sacanear o vilão, o pai fugido de Alberto. Assim como o avõ, Alfredo também acaba precisando dos serviços de Alberto e apegando-se a ele, por ser "o filho que sempre quis ter". Alberto mantém distância pois sabe que seu cliente também foi um pai fujão. Nenhum desconfia estar ligado ao outro pelo DNA.

A fotonovela traz uma revelação interessante, que a Cuba pré-Fidel já tinha fama tanto nos cursos de Medicina quanto na qualidade da saúde pública. As estatísticas da ONU também mostram isso. Mérito dos cubanos, não de Fidel.

Sexta-feira, Julho 20, 2007

Gradiente descendente

Parece que o brasileiro além de não saber fazer muita coisa, está desaprendendo o que já sabia. Vide aviação, vide aparelhos da Gradiente.

Comprei um home theater HTS-641 da Gradiente, influenciado pela boa reputação que a Gradiente tinha, ao menos na minha família. O preço também estava bom - 600 e poucos reais. Um ou outro amigo disse que foi má escolha. Não deu outra.

Depois de funcionar alguns meses, um dia o HT simplesmente não ligou. Tudo bem, isto pode acontecer. Fontes são o ponto fraco da eletrônica moderna. Levei na assistência técnica, já que está na garantia. Para mim isto é extremamente fora de mão, já que moro numa cidade pequena e a assistência é na "metrópole" próxima (para os gozadores de plantão, a metrópole no caso é Joinville, não Curitiba :)

Em 3 semanas, o aparelho voltou. Fui instalá-lo de novo, um monte de fios para classificar e conectar, ainda mais quando está embutido num móvel. A primeira bronca foi o conector negativo do subwoofer - parecia torto, quando fui colocar o fio, pulou fora, quebrado. Ou tinha levado um encontrão e estava fraturado, ou já tinha quebrado e alguém só colocou no lugar para parecer OK. Mas liguei os demais alto-falantes e toquei em frente.

O aparelho ligou, mostrou vídeo... só que não tocou áudio. Os alto-falantes estão completamente mudos, sem mesmo aquele "hiss" que um aparelho ligado sem volume costuma emitir, ouvindo bem de pertinho. Mudinho. Certamente o imbecil que consertou o aparelho esqueceu de testar se saía som.

Lá vou eu ter de levar o aparelho de novo na assistência. Vai totalizar mais de dois meses sem HT, tendo de me virar com um DVD standalone e o áudio asmático da própria TV. E se bobear, ainda vão alegar que fui eu quem quebrei o conector.

Me ocorreu comprar uma marreta, destruir o aparelho e postar o vídeo no YouTube. Mas aí eu também teria de me livrar das caixas acústicas, que são ruinzinhas, não servem para rigorosamente nada sem o HT. E é claro, eu teria de gastar dinheiro comprando a marreta e outro HT.

Talvez quando pifar de novo já fora da garantia, eu realize esse espetáculo para vocês :)

A emenda do soneto foi quando quis submeter uma reclamação no site da Gradiente. A página de reclamações exige que se escolha o modelo numa lista drop-down. Sem isso, a submissão retorna erro. Só que essa lista está sempre vazia -- talvez algum Javascript quebrado. Manezisse do berço ao túmulo. Devem estar festejando que "ninguém submete reclamações via Web, portanto nossos produtos são bons!".

Imagino como vai ser a qualidade das primeiras TVs digitais, já que estão falando em adicionar "melhorias" ao padrão japonês, ou seja, tornando-o ainda mais incompatível com o resto do mundo do que já é, para assegurar o monopólio da gloriosa indústria brasileira por uns tempos.

Darth Vader morreu!



A semana começou mal, mas terminou bem. Antonio Carlos Magalhães, o maldito robô guardião do Pacote de Abril, que todo mundo imaginava ter cuerpo fetchado como Fidel, foi dessa para melhor.

Domingo, Julho 15, 2007

Matemática financeira 101

A reportagem "Milionários detêm riqueza equivalente a meio PIB do Brasil" (http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u312011.shtml) tenta marcar um ponto no estilo de reportagem "desigualdade", mas ocorreu-me que pode servir como bom exemplo para uma aula de matemática financeira.

Um grupo de 130 mil pessoas possuindo (em patrimônio) metade do PIB parece grande coisa, soa como se elas possuíssem metade do Brasil. Mas precisamos distinguir patrimônio (que é algo estático) de renda (que é gerada dinamicamente). O PIB do Brasil é o total da renda. Temos de tentar calcular o patrimônio total do Brasil, que é um número bem maior, para então tentar comparar esse patrimônio total com o patrimônio dos milionários.

A regra de ouro do capitalismo é que o juro-base da economia reflete a renda mínima que alguém consegue extrair de determinado patrimônio - seja ele qual for: imóveis, máquinas, dinheiro, conhecimento, etc. A taxa-base é o juro que o governo paga por seus empréstimos, pois é (em tese) o melhor pagador do país. Qualquer outro tomador de empréstimo vai pagar mais pois o risco de calote é maior.

Por outro lado, qualquer detentor de capital vai querer receber mais que a taxa-base como rendimento do capital. É por isso que tanto se reclama quando o governo brasileiro paga demais pelos seus empréstimos; porque qualquer atividade que renda menos que isso será desencorajada. Energia elétrica é uma dessas atividades, hoje.

Considerando o juro atual do Brasil como 10% ao ano, isto significa que o patrimônio total do Brasil, necessário para gerar o PIB, é igual a dez vezes o PIB (PIB dividido por 0.10).

Quando o juro-base cair para 6% ao ano, o patrimônio total será de PIB / 0.06 = aproximadamente 17 vezes o PIB. Este patrimônio adicional (7 PIBs a mais) não vai surgir magicamente. Ou ele é acumulado por meio de investimento (poupança mesmo; reinvestir lucro ou salário ao invés de consumi-lo), ou esse patrimônio já existia mas estava sub-utilizado por conta do juro-base artificialmente alto.

Neste cenário, se os milionários detém meio PIB, significa que detém apenas um vigêsimo do patrimônio total do país. Ainda é uma concentração bastante alta, mas soa bem menos grave que metade do PIB.