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Blog pessoal EPx

Domingo, Agosto 26, 2007

Rogue Trader

Um filme legal para quem se interessa por finanças: Rogue Trader. É a história de Nick Leeson, que quebrou o banco Barings em 1995 por meio de operações azaradas com derivativos. O filme é baseado no livro homônimo. Infelizmente, não consegui encontrá-lo à venda na Amazon -- apenas exemplares usados que não podiam ser remetidos para o Brasil.

Sendo uma produção com orçamento baixo, o filme tem alguns méritos: consegue ser interessante sem nenhum efeito especial, contando uma história que todo mundo já conhece, e faz um grande esforço em introduzir termos do jargão financeiro para que a história faça sentido a um leigo. Consegue isso com um grande elenco, em particular o Ewan McGregor, com sua cara de "bom moço que se meteu numa encrenca" -- melhor que o Nick Leeson "original" que não inspirava nenhuma compaixão com sua cara de estróina.

Toda tragédia depende de uma longa conjunção de fatores. Um subordinado de Leeson comete um erro de negociação, perdendo 20.000 libras. Ao invés de assumir a perda e demití-lo, Nick tenta ganhar o dinheiro de volta apostando em derivativos usando dinheiro do banco. Não adiantou muito pois seu subordinado acaba pedindo demissão.

O prejuízo é oculto numa falsa conta bancária -- de código tristemente famoso: 88888. Assim, parece que é apenas um cliente do Banco que está perdendo dinheiro.

Outros problemas aparecem. Um grande cliente pressiona por contratos a preços abaixo do mercado, do contrário vai para outro banco. Nick garante o preço assumindo que pode ganhar a diferença nas próximas especulações. Mas o cliente muda de banco assim mesmo, deixando Nick com o mico na mão.

Sem saber do prejuízo oculto, a cúpula do Barings acha que Nick está fazendo uma montanha de dinheiro, e é contaminada pela cobiça. Requisitam que faça lucros absurdos em questão de dias para assegurar um gordo bônus. Há a famosa citação de Peter Baring: "Afinal de contas, parece não ser tão difícil fazer dinheiro nos mercados de ações.". Outro executivo chega a brincar com a possibilidade de fechar o resto do banco, "pois somos apenas overhead".

A estocada final foi o terremoto de Kobe em 1995, que derrubou a Bolsa japonesa e dobrou as perdas de Nick num único dia. Leeson ainda tentou uma última cartada: apostou que a Bolsa japonesa recuperar-se-ia rapidamente nas semanas seguintes. Isto não aconteceu, e Nick fugiu, para ser preso alguns dias depois.

Nick deixou para trás perdas de 300 milhões de libras. Para supremo azar, o banco agiu de forma inepta nos dois dias seguintes à sua fuga. As perdas subiram a 800 milhões, o Barings foi declarado insolvente e vendido ao banco holandês ING... por uma libra esterlina.

O interessante é que Leeson cometeu poucos crimes "de verdade", tendo sido condenado essencialmente por estelionato -- por ter fraudado os registros que justificavam o saldo negativo da conta 88888. Até onde se pôde apurar, ele nunca tirou proveito pessoal das operações.

O mundo da especulação aprendeu uma dura lição, e o episódio virou exemplo de como não se deve fazer as coisas, tanto em termos de controle interno, como em termos de gerenciamento de riscos de investimentos.

Nick Leeson sobreviveu à prisão e a um câncer de intestino. Ele vive na Irlanda, casou-se novamente, formou-se em Psicologia e vive basicamente de proferir palestras. Ele pode trabalhar no que quiser e inclusive opera na Bolsa -- com com seu próprio dinheiro, é claro. Mas qualquer renda acima de 7.000 libras mensais deve ser entregue ao liquidante do Barings para ajudar a pagar as antigas dívidas. O site dele é http://www.nickleeson.com.

Quinta-feira, Agosto 23, 2007

Abaixo o Bolsa-Família

Tem gerado todo tipo de comentário a última declaração do Lula, contrapondo o Bolsa-Família às bolsas de doutorado. Dentro de sua política, o presidente foi coerente: disse que considera necessário manter as duas.

O fato é que a declaração me inspirou a descobrir que o Bolsa-Família é realmente uma coisa ruim. (Mas se você é da extrema direita liberal como eu, vai se surpreender com a solução proposta.)

Assim como as cotas, a BF divide a sociedade em ricos e pobres, contrapondo as duas partes. Os pobres desconfiam que os ricos querem lhe puxar o tapete. Os ricos desconfiam que estão pagando a cachacinha do pobre.

Para o governo, essa divisão em castas é interessante, pois enquanto ricos e pobres se estranham, o governo pode roubar à vontade. "O governo pega os votos dos pobres e o dinheiro dos ricos prometendo proteger uns de outros."

Diz-se que o BF custa 7 reais por brasileiro por mês. Basta olhar no seu contracheque para constatar que você paga centenas de vezes mais em impostos. Não é o BF que lhe compele a ter um automóvel 1.0 :)

O BF é teoricamente concedido apenas à quem precisa. Todo mundo sabe que existe um monte de gente que recebe BF sem precisar. Mas implicar com isto é latir para a árvore errada.

O problema mais grave, e mais sutil, é que determinar quem precisa do BF custa muito dinheiro, em funcionários que tomam conta dos cadastros, auditam as informações etc. etc. Se bobear, custa mais controlar o BF do que pagá-lo. É mais uma malandragem do governo: incha seus quadros alegando motivos nobres.

A mobilidade social só pode acontecer se as classes sociais formam um "contínuo", onde você pode subir na vida centavo por centavo. O BF cria descontinuidades no tecido social. Especificamente, entre o nível de renda do BF (80 reais) e o salário mínimo (380 reais).

Ou seja, para o sujeito que recebe BF, é muito difícil pular para o próximo degrau, pois ele tem de largar o BF e agarrar um emprego formal, com risco de levar um tombo. Tente quadruplicar de salário trocando de emprego. Aposto que você não vai conseguir.

O aumento do salário mínimo, embora positivo sob outros aspectos, ajuda a piorar esta descontinuidade. Existem pessoas cujo trabalho vale menos que um salário mínimo. Se é proibido pagar menos que isso, tais pessoas estão na prática impedidas de trabalhar, pois ninguém irá empregá-las.

Qual a solução? Surpresa! RENDA MÍNIMA. Simplesmente estender o Bolsa-Família a todos os brasileiros em idade economicamente ativa. Viva o Eduardo Suplicy.

* Isso acaba com a divisão da sociedade em duas castas. Como todo mundo recebe a mesma coisa (em termos absolutos), ninguém pode reclamar. O rico vai descobrir o prazer de tomar uma cachacinha no Bar do Zé por conta do governo.

* Acaba com os custos burocráticos de determinar quem precisa de Bolsa-Família. Quem precisa, recebe automaticamente. Quem não precisa, vai acabar devolvendo o excesso na forma de impostos.

* Um em cada quatro brasileiros recebem BF. Ok, se todos receberem, o custo do programa sobe para 28 reais/mês por brasileiro. Ou seja, é uma providência barata.

* Diminui as descontinuidades do tecido social. O salto do Bolsa-Família para o salário mínimo deixa de ser um salto no escuro, pois o BF é garantido em caso de queda.

* A instituição do salário mínimo pode ser "enfraquecida", poia a renda mínima é quem passa a garantir a sobrevivência. Diminui muito a necessidade de inchar o salário mínimo para promover uma torta distribuição de renda que beneficia apenas os aposentados. Um salário mínimo mais fraco é benéfico para pessoas com baixa empregabilidade.

* A renda mínima "por cabeça" desvincula o benefício da unidade familiar. Os solteiros também têm de comer, e eu acho muito errado dar benefícios proporcionais ao número de filhos (infelizmente, muita gente ainda faz filhos para ganhar uns trocados a mais).

Terça-feira, Agosto 21, 2007

Como fazer goma de tapioca

Depois de quase 6 meses morando longe de Recife, já dá para saber o que faz falta. É engraçado dizer que o grosso das coisas que deixaram saudade têm a ver com alimentação. Dá saudade do café depois do almoço com o "Senadinho" do #d00dz, discutindo política no Café Delta como fosse um pregão viva-voz. Do restaurante japonês Eki. De um supermercado grande e perto de casa (quem mandou ir morar numa cidade que nem tem semáforo?). E dos ingredientes da cozinha nordestina: carne-seca, feijão-verde, queijo de coalho, coentro, cuscuz, bolacha salgada Vitarella, da goma de mandioca para fazer tapioca, e do coco verde a 50 centavos.

Mas devagarinho a gente arruma fontes locais. O coentro a gente plantou na horta. O queijo de coalho encontra-se num supermercado X, e o cuscuz no mercado Y. O coco verde custa 2 reais e 10km de viagem. E ontem testamos uma receita de goma de tapioca:

1) Compre polvilho doce, que se encontra em qualquer supermercado. É o doce, não o azedo. Polvilho azedo tem cheiro de pão-de-queijo (por ser o ingrediente principal).

2) De noite, coloque o polvilho doce, um pó muito branco, fino e seco, numa vasinha com tampa. Acrescente água até 1 dedo acima do polvilho. Deixe hidratar/decantar até o outro dia.

3) No outro dia, remova com cuidado o excesso de água, e esprema a massa que sobrou num pano. Neste ponto, você já tem a "goma de mandioca" que no Recife se comprava pronta num pacote à vácuo.

Daí para frente, a receita de tapioca é igual à que se faz com goma pronta. Acho que os "nativos" de Recife fazem todo esse processo até mesmo com a goma pronta, para lavá-la melhor.

Sábado, Agosto 18, 2007

As últimas do home theater Gradiente

Como eu já disse aqui no blog, meu home theater Gradiente conseguiu ir 2 vezes seguidas para o conserto em garantia. Hoje peguei-o na assistência. Sinais de evolução: o conector do alto-falante que tinha vindo quebrado estava consertado (apesar da mocinha ter falado que "a garantia não cobria"), e a menina fez questão de testar o aparelho na loja. Quase me arrependi do que tinha escrito no blog. Mas só quase.

Aí fui dar aula, voltei pra casa, botei o bicho na estante. Assim que liguei, mostrou sinal na TV e fez barulho nos alto-falantes. Mas estava em "Tuner". Mudei para modo DVD... e o bitcho parou de funcionar. Não mostrou mais sinal na TV e mostrava um STOP no display do console. E não abria a portinha do DVD com o botão de Eject. Empacou nisso.

Nada mais adiantou: ligar, desligar, tirar da tomada, bater, apertar o botão Eject durante vários segundos... Só o rádio funcionava. Interessante que alguns comandos como controle de volume, balanço etc. também funcionavam.

Imagine a minha raiva. Como eu estava decidido a jogar o aparelho fora se apresentasse defeito de novo (que se danasse a garantia) tirei da estante e decidi abrí-lo para dar uma olhada. Talvez valesse a pena saquear os componentes antes de jogar no lixo.

Os circuitos parecem mesmo com os de computador: uma placa com a fonte mais o áudio de potência (a mais promissora para saquear), outra plaquinha com as saídas RCA que parece ser o cérebro do negócio (tem um integrado FPGA), e a unidade leitora do DVD. Os controles de display frontal e volume parecem ainda ter circuitos indepententes do "cérebro", por serem "fracamente" ligados com as demais placas.

Pensei: o defeito tem de ser no leitor do DVD (por dar problema com o DVD), ou o "cérebro" do aparelho (por não ter saída de vídeo). E tem que ser algo idiota de simples, porque funcionou na loja. Talvez um mau contato ou travamento mecânico. Abri a gaveta do DVD, e remexi todos os conectores entre todas as placas. E dei aquela apertada no soquete do FPGA.

Resultado: funcionou! Quando quer uma coisa bem feita, faça você mesmo.

A Gradiente tem ações em Bolsa, e elas estão com um valor até razoavelmente alto. Os economistas que estudam a eficiência de mercado têm aí um objeto interessante de estudo...

Quarta-feira, Agosto 01, 2007

Gravidez e downgrade para classe média 1.0

Embora a fofoca já tenha corrido, agora é oficial. Estou grávido :)

Foi uma surpresa total, adicionando emoção a um ano já conturbado pela mudança de cidade, pelo casamento e outras questões que gravitaram em torno destes fatos maiores.

Li uma vez que "não são adultos que fabricam as crianças, são as crianças que fabricam adultos". É interessante como os processos inconscientes já disparam e tratam de recalcular o futuro nos novos termos. Se me perguntassem na semana passada o que é investimento de longo prazo, eu responderia "5 anos". Nesta semana, eu responderia "20 anos" -- provavelmente com mais correção.

A única coisa realmente chata vai ser trocar de carro justo agora. Picape cabine simples não serve para uma família. Não posso gastar numa cabine dupla agora. Então decidi fazer um downgrade completo e total, trocando por um Renault Logan 1.0.

Até ontem eu nem sabia que esse carro existia. Hoje já sei que ele foi projetado na Romênia pela Dacia, uma fábrica que existe desde os tempos do comunismo. Alguns comparam o Logan com o Trabant, pelo despojamento e preocupação com durabilidade. E está vendendo como água na Europa, onde custa apenas 6000 euros. Já aqui no Brasil, uma versão com uns poucos opcionais custa 35000 reais.

Mas juro vingança! Hei de me redimir com uma Rural Willys no futuro :)