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Blog pessoal EPx

Quinta-feira, Outubro 18, 2007

Horário de verão e integração nacional

Boa parte do Brasil está sob horário de verão. Muita gente não gosta, mas eu até me agrado da novidade, em particular dos dias de verão claros até 20:40. Num Brasil cada vez mais urbano, a faixa de "horas úteis" fica cada vez mais deslocada para a tarde, e a mudança de horário faz todo o sentido.

Na verdade, o mundo todo usa horário de verão sem reclamar. Exceto dois grupos de pessoas. Um grupo era constituído dos meus avós paternos, que já faleceram.

Eram lavradores, insistiam teimosamente em manter o horário antigo. Alegavam que "os animais não podiam mudar de horário para comer", embora nunca tivessem sido muito britânicos nessa lida. Minha mãe, como boa nora desconfiada, achava que era para obrigar meu pai a visitá-los mais tarde, eliminando a chance de fazer um programa só com a família no fim da tarde, e portanto monopolizando sua atenção ao menos no sábado.

Creio que minha mãe tinha boa dose de razão -- meus avós tinham todo um arsenal de artimanhas com esse mesmo fim, por que não mais um?

O outro grupo de pessoas que se recusou a entrar no horário de verão é o Nordeste brasileiro. Alegaram que por conta do turismo, e por conta da longitude diferente do Sul/Sudeste, ficariam melhor no horário velho. Eu sempre achei que este argumento era de boa-fé porque nunca parei para fazer o cálculo de fuso horário, e porque nunca tinha morado lá.

Agora, tendo morado em Recife, estou ciente que na verdade o horário de verão faria *ainda mais* sentido para eles do que para o Centro-Sul do país. Em Recife, amanhece às 5:00 e anoitece as 17:30. Como não há inverno entre os trópicos, isso nunca muda.

Pegando a longitude e comparando com os fusos horários, vi que Recife está 50 minutos (minutos de tempo, não minutos de grau) a leste do fuso de Brasília -- portanto deveria estar no fuso de Fernando de Noronha, ou no mínimo adotar alegremente o horário de verão. Em comparação, o lugar onde moro hoje está a 15 minutos a oeste do fuso de Brasília (as sombras ficam verticais às 12:15, ou às 13:15 no horário de verão).

Portanto, concluo que os estados do Nordeste resolveram não entrar no horário de verão por teimosia, exatamente como meus avós. Mexem o caldo para mostrar que têm a colher na mão. E se o governo federal não consegue fazer valer algo trivial assim, então não consegue impor absolutamente nada.

Extrapolando um pouco o raciocínio, e temperando com uma dose de bairrismo de minha parte, observo que, ao longo da história do Brasil, integração nacional sempre foi muito mais uma iniciativa sulista do que nortista. Muito embora o Sul sempre leve a pecha de nazista, separatista ou mal-agradecido (!), muitas das iniciativas de integração nacional nasceram exatamente aqui.

Como isto aqui é um blog e não uma tese de doutorado, cito apenas dois exemplos:

* Getúlio Vargas (gaúcho) simplesmente pulverizou a autonomia dos Estados, tendo, entre outras coisas, chegado a criar um quarto Estado provisório no Sul (na região das Missões, tríplice fronteira) para atingir este objetivo. O fortalecimento do governo federal em detrimento do estadual, que persiste até hoje, é 100% Getúlio.

* Ernesto Geisel (gaúcho) diminuiu a representatividade do Centro-Sul em favor do Norte/Nordeste através do Pacote de Abril, que incrivelmente foi ratificado na Constituição de 1988. Embora um dos objetivos do Pacote de Abril era diminuir o peso da esquerda nas eleições, também tinha com toda a certeza um componente de equalização da representatividade dos Estados pequenos e de baixa população.

Por outro lado, idéias de separatismo podem ser encontradas no Norte/Nordeste, tão ou mais facilmente que no Sul. O fio da meada para procurar no Google: extinção de vantagens como a Zona Franca ou da disparidade da representação no Senado.

Interessa ao governo federal resolver essa rixa? É claro que não. Além de não ter pulso suficiente para isso, o governo federal até explora esses cismas geográficos e sociais para fazer a festa. Vide o Lula usando o Bolsa-Família como argumento em favor da CPMF. Se você critica a CPMF... você quer matar criancinhas pobres, portanto é um nazista!! E deve ser branco, do sexo masculino, e morar no Centro-Sul!!!! (Se ao menos usassem a CPMF para criar o programa de renda mínima...)

Mas talvez o mais triste efeito colateral dessa descontinuidade regional, é a atual falta da sinergia entre as forças progressistas/liberais do lado de lá e de cá. Vargas e Geisel são subprodutos da Revolução Tenentista, iniciada no Rio Grande do Sul mas disparada pelo assassinato do governador João Pessoa da Paraíba.

Ou seja: não havia Internet, mal havia Correios, mas um evento a 4000km de distância não passava em branco. Os tenentistas se importavam com a Paraíba (que em minha opinião é mesmo o estado mais simpático do Nordeste).

Se fosse hoje em dia... ninguém daria bola, só iam repetir a piadinha da mina de chumbo achada no cemitério da [insira aqui a capital nordestina que você quer sacanear].

Os ilustres gaúchos supracitados falharam em integrar o Brasil, tornando-o *mais* fragmentado, ao menos no campo das idéias. Ou por terem tentado do jeito errado, ou talvez por ser mesmo uma missão impossível.

Quarta-feira, Outubro 17, 2007

Caveirão sobre trilhos

Os detratores da privatização das ferrovias tinham razão! Olha o caveirão sobre trilhos da ALL, que assusta até o Satanás.

O aspecto técnico interessante desta locomotiva é ter 8 eixos (B+B-B+B). Diferente do que possa aparecer, ela pode fazer curvas mais facilmente do que locomotivas de 6 eixos (C-C). É como se a parte de baixo constituísse de 2 locomotivas pequenas separadas, e o corpo do "caveirão" fosse montado em cima, sobre duas bases *giratórias*.

Numa curva fechada, os 8 eixos têm ampla liberdade de se ajustarem aos trilhos, muito embora o corpo talvez fique um pouco "atravessado". Mas as curvas ferroviárias nunca são fechadas a ponto disso ser um problema. O principal problema das locomotivas de 6 eixos é o desgaste dos trilhos, que esta 8 eixos deve resolver muito bem.

E finalmente estamos na classe média 1.0

Hoje finalmente ingressei plenamente na classe média 1.0. Olha o "caveirão" aí.

A idéia original era comprar um Renault Logan prata, mas a fábrica demorou demais para entregar (disseram que foi por conta de uma greve... eita Brasil), e os documentos do carro velho estavam vencendo. Então optei pelo Clio preto mesmo, que estava prontamente disponível.

Nunca tive intenção de comprar carro preto, e a minha esposa não gostou muito da idéia antes de ver o carro, mas vendo "ao vivo" pareceu legal. Acho que nunca vi um Clio hatch preto antes deste, apesar de ter inúmeros Clios no trânsito. Fica com um ar um pouco mais agressivo, sem o aspecto bege-champagne "carro de velho" ou o prata-sovina "para ter valor de revenda".

Infelizmente não vai ter graça nenhuma falar das primeiras impressões do automóvel. Afinal, Clio 1.0 a torcida do Flamengo inteira tem. O Logan ensejaria mais comentários (mas como disse um amigo meu, o Márcio, "comprar um modelo só porque é infreqüente na rua, é mais um sintoma de classe média 1.0", então deixa pra lá).

Perdedor News ("Pra que ganhar o jogo se dá pra roubar a taça?")

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u337595.shtml

MST invade estrada de ferro da Companhia Vale do Rio Doce

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u334971.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u335315.shtml

Movimentos de apoio a sem-terra invadem usina em PE

"Chamado para intermediar a crise, o superintendente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) em Recife, Abelardo Siqueira, apoiou os trabalhadores rurais. Segundo ele, o novo conceito de função social da terra 'já deveria ter sido incorporado' pelo governo federal."

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u337304.shtml

Justiça proíbe participação de crianças em marcha do MST