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Segunda-feira, Maio 26, 2008

Paternidade e seleção adversa

Participar de processos históricos de mudança é em geral divertido, mas para muita gente deve estar sendo um inferno. Em particular, a transição do modelo "antigo" de família ("pai soturno, mãe submissa, filhos aterrorizados") para o modelo "novo" parece estar sendo traumático, socialmente falando.

Como eu já mencionei em outros posts, e todo mundo na verdade já sabe, há muitas famílias monoparentais por aí, em geral apenas com a mãe. Isto ocorre em todas as classes sociais, porém é mais aparente na classe pobre pois a carência de recursos torna ainda mais grave a ausência do pai. Além disso, a figura masculina costuma ser mais fragilizada nas classes menos favorecidas, seja por desemprego, alcoolismo, violência etc.

E quando a água bate na bunda, as soluções, mesmo que toscas, aparecem. A solução da classe pobre é a "monogamia seriada". Já vi até algumas teses de doutorado tratando do tema. A idéia é a mulher ter sempre um marido, porém ele não dura muito tempo. Aí arruma-se o próximo, pois as contas precisam ser pagas. O resultado é o que se vê em programas tipo "Casos de Família": a mulher tem 5 filhos, cada um ou dois de um relacionamento diferente.

Este mecanismo provoca uma mudança na moral masculina: cada marido sustenta e cria os filhos da mulher como seus, algo que é contrário inclusive ao instinto masculino (felinos e primatas matam filhotes da fêmea para ela entrar no cio novamente, quando não são "seus"). Não deixa de ser algo bonito e construtivo, admiro quem consegue ser um padrasto. Para mim, isto nunca serviria. É uma espécie de retorno parcial ao modo de vida tribal, onde as gravidezes eram consideradas presentes divinos, e todo mundo criava os filhos de todo mundo.

Uma mulher pobre não pratica monogamia seriada porque quer, mas sim porque precisa. Como de costume, a camada mais pobre da população é mais conservadora que a média, e tenta manter a estrutura "burguesa" (tradicional) da família, procurando preencher a figura masculina de qualquer maneira.

Nas classes mais favorecidas, esses assuntos são resolvidos de outra forma; em geral a mulher pode sustentar seus filhos sozinha, e não arruma outro marido (pelo menos, não com o propósito explícito de ajudar a sustentar a prole).

Este mecanismo de monogamia seriada só tem um pequeno grande problema: SELEÇÃO ADVERSA. Seleção adversa é quando um mecanismo qualquer beneficia espécimes ruins em detrimento dos bons. O resultado é óbvio: extinção dos espécimes bons.

A monogamia seriada faz seleção adversa em cima do sexo masculino, porque paga um prêmio aos homens irresponsáveis (é raríssimo um pai pagar pensão aos filhos na classe baixa), e joga o fardo sobre os que tentam formar família.

Como se não bastasse o fardo que é sustentar filhos dos outros, existe um desestímulo adicional. Como as mulheres presumem que os seus homens vão "espanar" dia menos dia, procuram "espremê-lo" tanto quanto possível, em benefício dos seus filhos e da sua família, enquanto há tempo. E isto não é uma possibilidade teórica, é algo que aparece quase todo dia. Num cenário destes, até o homem mais bem-intencionado do mundo joga a toalha. É uma profecia que cumpre a si mesma.

A lógica da mulher, em particular a que depende do marido, ou coloca-se numa situação de dependência do marido (por almejar uma família tradicionalzona) é que o marido tem de ser posto a trabalhar, até ele fugir ou morrer de "karoshi", pois assim ao menos não tem tempo livre para aprontar.

Como homem, é óbvio que tal perspectiva me deixa indignado, mas não dá pra dizer que é algo "maldoso"; é mais um resultado do estado de coisas. Porém a seleção adversa vai cobrar o seu preço, e o resultado final é, globalmente, cada vez pior para os inocentes filhos.

Na verdade, esse padrão de "espremer o marido para não sobrar para a outra" contamina bem mais as classes sociais mais favorecidas do que a monogamia seriada. As mulheres estão desconfiadas dos homens, e tentam atirar primeiro, e acabam fazendo seleção adversa. Costumo brincar com minha esposa que existem 3 tipos de mulheres:

* as que acham que o marido vai gastar todo o dinheiro com putas;

* as que acham que o marido vai gastar todo o dinheiro com automóvel;

* as que arrumam maridos ruins de propósito, para eles não terem dinheiro para gastar com putas ou automóvel.

Minha mãe é do tipo 2; nunca teve medo do meu pai "pular a cerca", mas sempre teve medo que ele gastasse com bobagens. Minha esposa é do tipo 1, provavelmente devido a trauma de infância (meu sogro perdeu quase tudo que tinha por causa de "amantes").

Foi dureza convencer minha esposa a economizar dinheiro hoje para termos um futuro financeiro confortável. O conceito não "entrava" na cabeça dela, e eu não entendia por quê. Para mim era algo óbvio. Mas um belo dia juntei A + B, e descobri o motivo.

Na cabeça dela, guardar dinheiro significava privar ela e nosso filho de alguns prazeres, em favor de uma prostituta qualquer no futuro. O trauma, o medo e a certeza de ser passada para trás no futuro é tão grande, que outras possibilidades que aconselhariam economizar (como eu ficar sem emprego ou doente no futuro, ou o Felix querer ir para uma faculdade cara) não são nem sequer consideradas.

É claro que um erro não conserta o outro, e esse tipo de pensamento praticamente quita qualquer chance de atingir-se a independência financeira. Para mim, falhar não é uma opção, e optei pelo enfrentamento. E consegui convencer a Ana do meu ponto de vista. Afinal, se eu realmente fosse adepto de gastar com automóveis e putas, teria feito isso melhor ainda enquanto solteiro, e não teria nem um centavo hoje, o que não é o caso.

Aí esses dias, ela disse enquanto viajávamos:

[ana] Homem é tudo safado e torra tudo em bobagens enquanto não forma família.

[epx] Eu conseguia economizar mais antes de ter família...

[ana] Mas você é anormal :)

Ou seja, na cabeça de uma mulher, o único jeito de um homem não caber naqueles estereótipos mencionados antes (gastar com puta, gastar com carro), é classificá-lo numa espécie à parte...

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