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Sábado, Junho 21, 2008

Aula de marketing ao contrário

Esses dias eu mencionei no blog a aula de marketing que tive numa loja de roupas para bebê. Pois bem, agora vamos ver um exemplo de como NÃO vender um serviço.

O gerente do meu banco ligou-me para oferecer plano de previdência. Eu tenho uma certa bronca contra planos de previdência, sejam públicos ou privados, porque ninguém faz milagre; o rendimento conseguido pelos planos é obtenível em fundos de investimento. A única grande vantagem desses planos é tributária, e mesmo esta é discutível. Não gosto de pagar impostos, ninguém gosta, mas cortar o rabo do cachorro em fatias dói mais que cortar de uma vez. Prefiro pagar logo meu Imposto de Renda, receber pouca ou nenhuma restituição e nunca mais ter de pensar no caso.

No fundo, bancos e seguradoras querem vender planos de previdências porque recebem à vista uma "taxa de carregamento", de 3% a 5% na bucha, mais taxa anual de administração. Por tudo isso, tais planos não me agradam, embora eu esteja cogitando pagar um plano para o Felix, já que sairia baratinho.

Mas enfim, o gerente citou diversas razões pelas quais eu deveria investir num plano de previdência, na maioria corretas, que talvez me fizessem repensar no assunto. Até que ele saiu-se com esta pérola (naturalmente não com as mesmas palavras):

"Se você morrer sem ter plano de previdência, o inventário vai demorar três anos e sua família passará fome."

Razão interessante para escolher um investimento que engessa o dinheiro... Sobre isto eu tenho algumas opiniões discordantes:

1) Se eu morrer, quero mais é que o mar pegue fogo para eu comer peixe frito. Nem que eu fosse septuagenário eu escolheria um investimento em função da comodidade dos herdeiros. Provavelmente eu faria até o contrário :) Se o Félix com 40 anos ainda não tiver conhecido o sucesso, vai ficar conhecendo o Bolsa-Família e o vale-gás, muito antes do meu espólio.

2) Não sei de onde o sujeito tirou que um inventário demora 3 anos, se hoje em dia ele pode até ser feito em cartório. Meu cunhado teve um inventário problemático e mesmo assim saiu em 3 meses.

Talvez aconteça se os herdeiros resolverem brigar entre si até a morte, como acontece nesses casos que saem na imprensa, com inventários que estão rolando há 20 anos. Mas isto só acontece quando há muito dinheiro na jogada (não é nem de longe o meu caso). E herdeiros que brigam por herança merecem mesmo passar fome.

3) Para que existe seguro de vida? No meu caso, o seguro que meu empregador paga "vale" muito, muito mais do que o pouco que possuo sobre a terra. É capaz até de ser um bom negócio pra minha família :)

4) Ainda há a velha e boa previdência pública, que paga pouco, mas paga com certeza. Refiro-me à pensão por morte paga à viúva. INSS paga até pensão para mulher de presidiário (auxílio-reclusão, se não me falha a memória).

Eu sei que muito do que se vende à classe média 1.0 é através da exploração dos seus medos, mas tal argumento "post-mortem" pareceu exagerado até para o padrão CM10. Não concebo que qualquer outra pessoa não ficasse ofendida com isto.

2 Comentários:

  • Às 3:42 PM , Blogger leoboiko disse...

    Comigo é o contrário. Não tenho vontade de ser rico por mim mesmo, exceto talvez para não trabalhar (um rendimento de R$2k por mês já seria suficiente). Por outro lado, a idéia de deixar um monte de grana pra Valentine e o Filho Número Dois torrarem fazendo festa em um mês é tentadora :D

     
  • Às 10:38 PM , Blogger Eduardo Habkost disse...

    Além de previdência, o banco vive tentando me vender seguro e título de capitalização.

    Para tentar vender seguro, a técnica é semelhante à da previdência: medo.

    E a base para vender título de capitalização é o complemento do medo: otimismo (achar que vai ter sorte e vai ser sorteado).

    Conclusão: banco adora quando temos percepções erradas de probabilidade. E quem se deixa levar por suas percepções erradas de probabilidade perde dinheiro.

     

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