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Domingo, Junho 29, 2008

Obama e outros incentivam estudantes a entrar no serviço público

Nos últimos dias, tanto o Obama quanto o McCain deram palestras a estudantes e incentivaram-nos a procurar profissões construtivas, em particular no serviço público, ao invés de irem direto trabalhar em Wall Street em busca da erva graúda.

Primeiro, uma nota para esclarecer que o serviço público dos EUA é muito diferente do Brasil, tanto em termos relativos quanto absolutos. No Brasil, emprego público é o ápice da carreira de muita gente, pois tem estabilidade e paga muito melhor que o setor privado. Nos EUA, costuma ser um lugar para estagiar e aprender, para depois alçar uma posição que paga mais no setor privado. Muitos cargos como xerife e juiz são preenchidos por eleição, e tendem a ser preencidos por advogados em fim de carreira, como uma forma de "devolver" algo à comunidade. E se não fizer um bom trabalho, é votado fora.

Assim, buscar uma carreira no serviço público nos EUA significa aceitar um salário relativamente baixo. Seria o equivalente local de ser professor -- já que neste país tropical tem office-boy da Justiça ganhando 12 mil reais por mês enquanto há professores que ainda não ganham salário mínimo.

O núcleo da mensagem que ambos os postulantes ao lugar do George Arbusto queriam passar, é que os jovens deveriam procurar profissões honradas e úteis à sociedade. Mas, se acreditamos (eu e esses dois) no mercado que se auto-regula... que história é essa de tentar atrair pessoas para "boas profissões" só na base da lábia?

Se um estudante recém-formado tem duas oportunidades A e B, sendo que B paga mais e continuará pagando mais por todo o futuro imaginável, é simplesmente inimaginável que alguém escolheria A. Ok, talvez haja um maluco entre 50 que o faça, mas a tendência é todo mundo ir para B. E isso é perfeitamente normal, e até moral, assumindo-se que as profissões A e B não sejam ilegais.

O resultado prático é o que estamos vendo aí: engenheiros indo trabalhar ou como analistas financeiros, ou como office-boys da Justiça, porque ambas as opções pagam quatro vezes mais do que efetivamente exercer a engenharia. Se a sociedade precisa dos engenheiros trabalhando como engenheiros, que ofereça melhores salários.

Aí vem o problema das empresas e pessoas quererem continuar pagando os mesmos salários e os mesmos preços. No entanto, o petróleo custava US$ 10 o barril nos anos 90, e agora custa US$ 140, e as pessoas pagam e adaptam-se. Ninguém morreu por causa disso. Não vejo porque a lei de mercado não possa valer para mão-de-obra em geral. Mas é aquela história: mercado livre no traseiro dos outros é refresco.

É lamentável ver o livro "Pai rico, pai pobre", que essencialmente chama os trabalhadores convencionais de otários, vender tanto? Sem dúvida. Mas é conseqüência do estado de coisas. Não é com boas palavras que vamos convencer os excepcionais positivos da nossa sociedade a trabalhar em profissões "nobres". É com erva, é pagando mais e tributando menos o trabalho.

UPDATE: parece que além dos candidatos mais um cidadão está pregando a mesma idéia. Vide http://noticias.terra.com.br/educacao/interna/0,,OI2973599-EI8266,00.html.

5 Comentários:

  • Às 9:56 PM , Blogger Marcondes Witt disse...

    Nesta seara, gostaria que um economista (ou quem entenda tal ciência), por que os salários devem ser controlados em época de inflação com tendência de alta (p.ex., no serviço público), mas os preços das mercadorias e serviços podem subir livremente, em face da velha lei da oferta e demanda (mas os fornecedores com contratos continuados de bens, serviços e obras têm seus contratos reajustados).

     
  • Às 9:58 PM , Blogger Marcondes Witt disse...

    O comentário anterior ficou um tanto truncado.
    Gostaria que um economista me explicasse tal dicotomia.
    E a garantia de reajuste periódico dos fornecedores continuados no serviço público, por si, não causa arrepios à inflação em alta, mas os salários sim....

     
  • Às 10:28 PM , Blogger Eduardo Habkost disse...

    Se a sociedade precisa dos engenheiros trabalhando como engenheiros, que ofereça melhores salários.

    Isso resume como empregos públicos cheio de privilégios como no aqui no mato são duplamente prejudiciais à sociedade: diretamente porque nós somos forçados a pagar o salário dos office boys de 12 mil reais, e indiretamente porque precisamos pagar muito mais caro por produtos e serviços que precisem do trabalho de um engenheiro (ou qualquer outro profissional que possa vir a ser office boy da justiça).

     
  • Às 10:59 PM , Blogger EPx disse...

    Marcondes, notem que salários são proibidos por lei de baixar, o que é a mesma violação, mas na direção oposta.

    Tem até a teoria econômica dos "preços grudentos" que tenta explicar sua existência e seu impacto na economia.

     
  • Às 12:12 AM , Blogger EPx disse...

    Eduardo, note que pode muito bem ser o contrário: os salários do serviço público brasileiro são "ok" e os do serviço privado, "não-ok".

    Nos EUA, o sujeito que trabalha na iniciativa privada ganha *ainda* mais que o "ok", pois há o risco de demissão etc.

    Portanto, não há nada de intrinsecamente errado uma pessoa procurar passar num concurso público. Desde que ela não tente me convencer de que fez isso "por patriotismo". Isso não existe. Ela fez isso porque era onde estava o dinheiro.

    É o mesmo motivo que leva tanta gente da área de informática a trabalhar para empresas estrangeiras. Se alguém me dizer que isso é anti-patriótico, a resposta vai ser uma sonora gargalhada.

    Dentro do serviço público brasileiro, a distorção de pagar mal a um professor e uma fortuna a um oficial de justiça ou assessor parlamentar, é totalmente inaceitável. É esse tipo de coisa que eu lamento não ver combatida. Na verdade, tais distorções são inevitáveis no "Estado gordo". Um dos motivos pelos quais eu sou de extrema-direita.

    Existem outras distorções do mercado de trabalho no nosso país, não relacionadas ao serviço público, mas igualmente absurdas e causadoras de danos à economia em geral. Exemplo: nos EUA, você ganha melhor numa startup do que numa empresa grande, pois a startup tem mais risco de fechar ou demitir. No Brasil, empresas pequenas pagam mal e empresas grandes pagam bem.

     

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