Sargento Getúlio, o herói esquecido
Houve um herói brasileiro antes do Capitão Nascimento. Não estou falando de Macunaíma, o "herói sem caráter". Falo do Sargento Getúlio, personagem principal do romance homônimo de João Ubaldo Ribeiro (também autor de "O Sorriso do Lagarto", transformado em minissérie pela Globo). Sargento Getúlio também virou filme, representado por Lima Duarte.
Getúlio é um sargento da Polícia Militar de Sergipe, capanga e apadrinhado de importante político, através de quem ganhou essa divisa. É mandado a Paulo Afonso/BA, para capturar um inimigo político do chefe e trazê-lo até Aracaju, onde provavelmente será executado. Getúlio vai com Amaro (seu motorista e amigo inseparável) num automóvel "hudso" (Hudson).
A notícia vaza, há pressão política e o chefe manda cancelar a missão, mas Getúlio não compreende tais sutilezas; recusa-se a libertar o prisioneiro e só descansará quando entregá-lo em Aracaju. Enfrenta até forças federais por conta disso, e acaba sendo abatido no terceiro combate com elas. (Embora não fique explícito, o fato da primeira força exigir que o sargento entregue-se junto com o prisioneiro implica que Getúlio foi descartado pelo chefe).
É interessante o estilo em que o livro é escrito: longos monólogos de Getúlio que se estendem por várias páginas, sem parágrafos, uma frase grudada na outra, é algo difícli de ler. Só há parágrafos e frases curtas em alguns (poucos) diálogos ao longo da história.
"Se alembre: se em vez de lhe buscar em Paulo Afonso com todos cuidados e lhe trazer nessa viagem tirana da peste, peste, peste, peste! merda, Amaro, segure esse porra desse hudso que este pai dégua se desmantela-se! se em vez de lhe trazer eu lhe passasse o aço e lhe carregasse a cabeça dentro dum bocapio o que ia ter era muita sastifação em todo o Estado de Sergipe, seu bosta, digo mesmo, bosta, bosta, seu cabeça de bosta, coração de toloco, filho dum cabrunco! olhe o desgramado, espie aí, Amaro! fugir pra Paulo Afonso, ora fugir pra Paulo Afonso, fugir pra Paulo Afonso feito uma vaca, bexiguento! fugir pra Paulo Afonso, pra Paulo Afonso, lá nos infernos, viu, cão da pustema apustemado, lhe faço uma desgraça, pirobo semvergonho, pirobão sacano xibungo bexiguento chuparino do cão da gota do estupor balaio, mija-na-vareta, tem ginásio, tem ginásio! nunca vi ginásio fazer caráter, não responda porque é melhor, lhe meto a cabeça num bocapio e deixo o resto com os guarás, cachorro bexiguento, está pensando o quê, agora responda, capão do rabo entortado, peste! capão da peste, tiro um cunhão seu fora nesse minuto, para lhe ver amofinado e roncolho em Ribeirópolis daqui a pouco, nego fujão; fidumaégua, fidumavaca, fidumajega, viado corredor, peste, peste, peste peste! lhe como a alma, está pensando! lhe tiro o figo, está pensando, ora fugir para Paulo Afonso, amasiado com mulher dama, adeus mestre, ora taí, Amaro, homem creia! Não se enxira, Amaro, quando a cabeça esquenta o melhor é deixar refrescar. Tu tem curso de ginásio, Amaro? Que eu sei, você andava lavando a escada do Ateneu. Se lavar escada do Ateneu dá ciência, você vai bem. Pergunte a esse comunista daqui, esse maricão estrumado, esse capadócio desse udenista, esse peste ruim! pergunte, mas não vá pensando que ele responde, que ele não responde. Só fala com doutor, mas está aí de beiço tremendo como rabo de largatixa, com medo que eu dê um fim nele agora. Dou mesmo, peste!"
Embora a história represente algumas das piores coisas que há e houve no Brasil (coronelismo, República Velha), simpatizo com a história e com o personagem. Talvez pela grande interpretação de Lima Duarte, pela teimosia do personagem principal, ou pelo rígido código de honra que ele segue sem titubear até à morte.
As músicas da trilha sonora do filme também são engraçadas. O verso de uma delas é de singular sabedoria:
"A vantagem de quem tá no poder
é judiar de quem tá por baixo"
Getúlio é um sargento da Polícia Militar de Sergipe, capanga e apadrinhado de importante político, através de quem ganhou essa divisa. É mandado a Paulo Afonso/BA, para capturar um inimigo político do chefe e trazê-lo até Aracaju, onde provavelmente será executado. Getúlio vai com Amaro (seu motorista e amigo inseparável) num automóvel "hudso" (Hudson).
A notícia vaza, há pressão política e o chefe manda cancelar a missão, mas Getúlio não compreende tais sutilezas; recusa-se a libertar o prisioneiro e só descansará quando entregá-lo em Aracaju. Enfrenta até forças federais por conta disso, e acaba sendo abatido no terceiro combate com elas. (Embora não fique explícito, o fato da primeira força exigir que o sargento entregue-se junto com o prisioneiro implica que Getúlio foi descartado pelo chefe).
É interessante o estilo em que o livro é escrito: longos monólogos de Getúlio que se estendem por várias páginas, sem parágrafos, uma frase grudada na outra, é algo difícli de ler. Só há parágrafos e frases curtas em alguns (poucos) diálogos ao longo da história.
"Se alembre: se em vez de lhe buscar em Paulo Afonso com todos cuidados e lhe trazer nessa viagem tirana da peste, peste, peste, peste! merda, Amaro, segure esse porra desse hudso que este pai dégua se desmantela-se! se em vez de lhe trazer eu lhe passasse o aço e lhe carregasse a cabeça dentro dum bocapio o que ia ter era muita sastifação em todo o Estado de Sergipe, seu bosta, digo mesmo, bosta, bosta, seu cabeça de bosta, coração de toloco, filho dum cabrunco! olhe o desgramado, espie aí, Amaro! fugir pra Paulo Afonso, ora fugir pra Paulo Afonso, fugir pra Paulo Afonso feito uma vaca, bexiguento! fugir pra Paulo Afonso, pra Paulo Afonso, lá nos infernos, viu, cão da pustema apustemado, lhe faço uma desgraça, pirobo semvergonho, pirobão sacano xibungo bexiguento chuparino do cão da gota do estupor balaio, mija-na-vareta, tem ginásio, tem ginásio! nunca vi ginásio fazer caráter, não responda porque é melhor, lhe meto a cabeça num bocapio e deixo o resto com os guarás, cachorro bexiguento, está pensando o quê, agora responda, capão do rabo entortado, peste! capão da peste, tiro um cunhão seu fora nesse minuto, para lhe ver amofinado e roncolho em Ribeirópolis daqui a pouco, nego fujão; fidumaégua, fidumavaca, fidumajega, viado corredor, peste, peste, peste peste! lhe como a alma, está pensando! lhe tiro o figo, está pensando, ora fugir para Paulo Afonso, amasiado com mulher dama, adeus mestre, ora taí, Amaro, homem creia! Não se enxira, Amaro, quando a cabeça esquenta o melhor é deixar refrescar. Tu tem curso de ginásio, Amaro? Que eu sei, você andava lavando a escada do Ateneu. Se lavar escada do Ateneu dá ciência, você vai bem. Pergunte a esse comunista daqui, esse maricão estrumado, esse capadócio desse udenista, esse peste ruim! pergunte, mas não vá pensando que ele responde, que ele não responde. Só fala com doutor, mas está aí de beiço tremendo como rabo de largatixa, com medo que eu dê um fim nele agora. Dou mesmo, peste!"
Embora a história represente algumas das piores coisas que há e houve no Brasil (coronelismo, República Velha), simpatizo com a história e com o personagem. Talvez pela grande interpretação de Lima Duarte, pela teimosia do personagem principal, ou pelo rígido código de honra que ele segue sem titubear até à morte.
As músicas da trilha sonora do filme também são engraçadas. O verso de uma delas é de singular sabedoria:
"A vantagem de quem tá no poder
é judiar de quem tá por baixo"


1 Comentários:
Às 4:50 PM ,
EPx disse...
Alguém gravou o filme da TV Brasil e publicou (em partes) no Yahoo Video. Aqui está uma das partes, a partir da qual pode-se chegar nas demais:
http://br.video.yahoo.com/watch/2897949/8313371
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