Mas se é que se agora
Pra fazer sucesso, pra vender disco de protesto
Todo mundo tem que reclamar
...
Mas agora eu também resolvi
Dar uma queixadinha
Porque eu também sou um rapaz
Latino-americano que também sabe se lamentar
-- Raul Seixas
Não é fácil ter orientação política à direita. Está fora de moda, nunca foi bem aceito no Brasil, e finalmente os próprios direitistas se encarregam de dificultar ainda mais as coisas.
Em primeiro lugar, o que é ser de direita? Na minha concepção, a briga esquerda X direita é nada mais que a disputa igualdade X liberdade. Daí vem a expressão "neoliberal". O "neo" vem do fato do liberalismo já ter sido forte antes, no começo do século XX, e novamente agora.
Quem é de direita, acha que a liberdade é muito mais importante que a igualdade. É o que eu acho. Impor igualdade implica em restringir liberdade. É quase impossível promover as duas coisas ao mesmo tempo. Dar educação ao povo é talvez o único método conhecido de fazê-lo.
Acreditar em liberdade implica em acreditar no mercado, que essencialmente é uma grande máquina de votar. Com a diferença que as votações ocorrem continuamente, enquanto eleições políticas são apenas de tempos em tempos. Quem acredita na imortância do voto mas não no mercado, é incoerente. Essa incoerência é típica das esquerdas porque nelas as crenças na democracia e no voto popular foram apressadamente "parafusadas" sobre a doutrina original depois da queda do Muro de Berlim.
Alguém vai alegar que mercado tem suas limitações. É claro que tem. Assim como a democracia pelo voto também tem. Como a Justiça também tem, como eu mesmo demonstrei num post anterior desse mesmo blog. Toda criação humana é falha. Mas o voto ainda é o que de menos pior existe. Inclusive quando se vota com seu dinheiro.
Eu mesmo acho que algumas atividades não funcionam bem num regime de mercado. O exemplo didático mais citado é o de carros usados, mas alguns outros poderiam ser citados: educação, saúde, distribuição de água e transporte coletivo (alguns incluiriam aqui a distribuição de energia elétrica). Isso não invalida a economia de mercado, assim como seria temerário submeter todas as decisões governamentais ao voto popular (tanto que isso nem é cogitado) e isso não invalida a democracia em geral.
O neo-liberalismo vai tornar-se inadequado ou obsoleto um dia? É claro que vai, assim como o liberalismo original também falhou. Só que os que adotaram o liberalismo na época, e os que adotam o neo-liberalismo hoje, terão colhido todos os seus frutos ANTES de passar à próxima fase. É isso que o Brasil não fez antes e não está fazendo agora. (Classificar o FHC de neoliberal só porque privatizou umas estatais ineficientes, é pura demagogia.) Quem sabe na próxima vez, no neo-neo-liberalismo do século XXIII...
Ser neo-liberal no Brasil é difícil por algumas razões. A primeira é que o Brasil é medieval. Isso é devidamente demonstrado no livro "A Cabeça do Brasileiro". As pessoas simpatizam com o Estado paternalista e distribuidor de benesses. Mesmo quando as benesses nunca chegam no povão, esse mesmo povão acha tudo lindo, porque "talvez um dia chegue a nossa vez".
Vou dar um exemplo rápido: vão aumentar a licença-maternidade para 6 meses. Ótimo. Qualquer pessoa na rua vai dizer que acha isso bom. Até a tia do cachorro-quente. Mas... a tia do cachorro-quente tem patrão? Quem é que vai pagar a licença-maternidade para ela? Ninguém. Embora ela pague os impostos e sobrepreços que sustentam essa licença para a outra metade mais afortunada da população, a que tem emprego em carteira.
Portanto, a missão do neoliberal é mostrar a verdade para as tias do cachorro-quente; mostrar a elas que são as maiores vítimas do Estado paquidérmico. Porque no fundo o esquerdista típico é de classe média e luta pela ampliação dos seus próprios privilégios, usando o povão como pretexto.
Agora, neoliberal que goste de povo... Eis a exceção.
Essa má tradição vem de longe. Na minha opinião um dos movimentos políticos mais lúcidos do Brasil foi o tenentismo, e no entanto o calcanhar-de-aquiles dele sempre foi a falta de interlocução com as massas, o que acabou culminando na revolução de 64. Continuaram ruim de povo, e as conseqüências são bem conhecidas.
Eu procuro por sites e blogs de viés liberal, e existem vários por aí. E todos acabam cometendo o mesmo erro de não pensar no povo. O direitista típico é de classe média e morre de medo de perder privilégios; seu sonho é um Brasil superpotência com "empregada doméstica que durma no emprego" (ou seja, também é medieval). Simétrico ao esquerdista e simetricamente detestável.
Citações típicas de sites liberais brasileiros, e talvez até de um ou outro periódico:
* Que o aquecimento global não existe. (Tá bom...)
* "Não tenho culpa de ser branco (...) e a culpa é toda dos imigrantes nordestinos". (Precisamente o grupo de pessoas que seria nossa missão catequisar.)
* São contra cotas em universidades (ok até aqui) "... porque não existe racismo no Brasil" (No dos outros é refresco).
* Os EUA são perfeitos e são modelo a ser seguido "ipsis literis". (Não existe modelo nem pra educação infantil, quanto mais pra países inteiros!)
* Os EUA são bonzinhos conosco. (Não são, e se aproveitam sim das nossas fraquezas. O ponto é que somos atrasados por motivos ortogonais aos EUA.)
* Bolsa-família é uma esmola. (Eu chamo isso de devolução do imposto injustamente pago. O Bush fez coisa parecida há poucos dias, então deviam aplaudir.)
* Por causa do Bolsa-Família, ninguém mais quer plantar no Nordeste. (Se um agricultor ganha menos que 130 reais por mês com seu trabalho, tá na última hora de desistir.)
* O Chavez é o demônio do inferno! (Mas ele tomou pau no referendo, então não é invencível. Basta a direita apresentar opção melhor, que o povo manda o Chavez pastar. O motivo de tipos como Chavez e Evo existirem é a total incompetência da direita.)
...e por aí vai. Assim fica difícil. Não admira que a direita esteja tão perdida na política atual brasileira, e nenhum político responda um "sim" simples e seco à pergunta "Você é neoliberal?".