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Blog pessoal EPx

Quinta-feira, Agosto 28, 2008

Sargento Getúlio, o herói esquecido

Houve um herói brasileiro antes do Capitão Nascimento. Não estou falando de Macunaíma, o "herói sem caráter". Falo do Sargento Getúlio, personagem principal do romance homônimo de João Ubaldo Ribeiro (também autor de "O Sorriso do Lagarto", transformado em minissérie pela Globo). Sargento Getúlio também virou filme, representado por Lima Duarte.

Getúlio é um sargento da Polícia Militar de Sergipe, capanga e apadrinhado de importante político, através de quem ganhou essa divisa. É mandado a Paulo Afonso/BA, para capturar um inimigo político do chefe e trazê-lo até Aracaju, onde provavelmente será executado. Getúlio vai com Amaro (seu motorista e amigo inseparável) num automóvel "hudso" (Hudson).

A notícia vaza, há pressão política e o chefe manda cancelar a missão, mas Getúlio não compreende tais sutilezas; recusa-se a libertar o prisioneiro e só descansará quando entregá-lo em Aracaju. Enfrenta até forças federais por conta disso, e acaba sendo abatido no terceiro combate com elas. (Embora não fique explícito, o fato da primeira força exigir que o sargento entregue-se junto com o prisioneiro implica que Getúlio foi descartado pelo chefe).

É interessante o estilo em que o livro é escrito: longos monólogos de Getúlio que se estendem por várias páginas, sem parágrafos, uma frase grudada na outra, é algo difícli de ler. Só há parágrafos e frases curtas em alguns (poucos) diálogos ao longo da história.

"Se alembre: se em vez de lhe buscar em Paulo Afonso com todos cuidados e lhe trazer nessa viagem tirana da peste, peste, peste, peste! merda, Amaro, segure esse porra desse hudso que este pai dégua se desmantela-se! se em vez de lhe trazer eu lhe passasse o aço e lhe carregasse a cabeça dentro dum bocapio o que ia ter era muita sastifação em todo o Estado de Sergipe, seu bosta, digo mesmo, bosta, bosta, seu cabeça de bosta, coração de toloco, filho dum cabrunco! olhe o desgramado, espie aí, Amaro! fugir pra Paulo Afonso, ora fugir pra Paulo Afonso, fugir pra Paulo Afonso feito uma vaca, bexiguento! fugir pra Paulo Afonso, pra Paulo Afonso, lá nos infernos, viu, cão da pustema apustemado, lhe faço uma desgraça, pirobo semvergonho, pirobão sacano xibungo bexiguento chuparino do cão da gota do estupor balaio, mija-na-vareta, tem ginásio, tem ginásio! nunca vi ginásio fazer caráter, não responda porque é melhor, lhe meto a cabeça num bocapio e deixo o resto com os guarás, cachorro bexiguento, está pensando o quê, agora responda, capão do rabo entortado, peste! capão da peste, tiro um cunhão seu fora nesse minuto, para lhe ver amofinado e roncolho em Ribeirópolis daqui a pouco, nego fujão; fidumaégua, fidumavaca, fidumajega, viado corredor, peste, peste, peste peste! lhe como a alma, está pensando! lhe tiro o figo, está pensando, ora fugir para Paulo Afonso, amasiado com mulher dama, adeus mestre, ora taí, Amaro, homem creia! Não se enxira, Amaro, quando a cabeça esquenta o melhor é deixar refrescar. Tu tem curso de ginásio, Amaro? Que eu sei, você andava lavando a escada do Ateneu. Se lavar escada do Ateneu dá ciência, você vai bem. Pergunte a esse comunista daqui, esse maricão estrumado, esse capadócio desse udenista, esse peste ruim! pergunte, mas não vá pensando que ele responde, que ele não responde. Só fala com doutor, mas está aí de beiço tremendo como rabo de largatixa, com medo que eu dê um fim nele agora. Dou mesmo, peste!"

Embora a história represente algumas das piores coisas que há e houve no Brasil (coronelismo, República Velha), simpatizo com a história e com o personagem. Talvez pela grande interpretação de Lima Duarte, pela teimosia do personagem principal, ou pelo rígido código de honra que ele segue sem titubear até à morte.

As músicas da trilha sonora do filme também são engraçadas. O verso de uma delas é de singular sabedoria:

"A vantagem de quem tá no poder

é judiar de quem tá por baixo"

Terça-feira, Agosto 19, 2008

Felix noveleiro

O Felix, com cinco meses agora, pára qualquer coisa que esteja fazendo, e fica olhando atentamente para a TV quando toca a musiquinha de entrada da Favorita...

Segunda-feira, Agosto 11, 2008

Educando meninos e educando maridos

Devido à recente paternidade, tomei emprestados mais dois livros sobre educação de criancas: "Ouse Disciplinar" de James Dobson, e "Educando Meninos" do mesmo autor.

Os livros são excelentes, se você souber filtrar o ranço direita-cristã-evangélica que os permeia. Eu diria mesmo que o autor faria melhor em lançar uma versão "agnóstica", atingiria um público maior. Como evangélico, sei melhor do que ninguém que existe uma certa "alergia" a conteúdos com verniz cristão, e para ser honesto eu mesmo prefiro que textos sobre assunto X não tenham verniz Y.

A ênfase dos livros é o "tough love" que é essencialmente a última moda da educação. Mas ao contrário do "Quem Ama, Educa", os livros tratam os pais/maridos como componentes importantes do casamento e da educação dos filhos, "as they are", e não como imbecis-xucros-a-serem-domados como acha o Içami Tiba.

Nisso há obviamente um raciocínio circular, já que são livros voltados para maridos/pais, e um marido/pai que se dá ao trabalho de ler um livro desse, é muito provavelmente um bom marido/pai. É o "Efeito Mateus" em ação, onde quem tem já possui um nível X de esclarecimento consegue adquirir mais, e quem não tem, continua sem.

Troquei hoje uma idéia com outro amigo sobre uma das idéias (controversas) defendidas pelo Educando Meninos, que é a mãe não trabalhar fora, dedicar-se à educação dos filhos.

Eu já deixei claro neste blog que, pessoalmente, na minha visão de mundo e situação, prefiro que minha esposa cuide da casa do que trabalhe fora pelo salário mínimo. Simplesmente porque é economicamente mais vantajoso para nós dois. Afinal de contas, num casamento com comunhão parcial, legalmente cada membro do casal é "dono" de 50% dos rendimentos totais. Cada um desempenha o papel que sabe fazer melhor, e todo mundo fica feliz.

Agora, será que esta configuração familiar é realmente aconselhável, a priori e para todo mundo? Mais direto ao ponto, se você tivesse uma filha, educaria-a para ser uma dona de casa? Eu acho que não. Porque, apesar das provisões legais de divisão de bens, pensão e etc., a igualdade de condições de uma esposa sem rendimentos é uma ficção. Só funciona quando existe honestidade de todas as partes.

E honestidade de todas as partes envolvidas -- eis a exceção...

Veja a seguinte situação, que está acontecendo com uma família aparentada minha. O marido arruma amantes debaixo do nariz da esposa, aparentemente "pedindo" para ser mandado embora (a casa é dela). Eles têm dois filhos pequenos e ela não trabalha, nem nunca trabalhou, nem tem uma profissão.

Naturalmente, ela agüenta tudo calada, porque se mandar o marido embora, certamente ele vai usar esse pretexto para sumir no mundo, ou pagar uma pensão microscópica. E aí, faz o que? Se fosse há um século atrás, era mais fácil: o clã familiar expulsaria o safado e assumiria o sustento da mulher e dos filhos. Minha família já foi assim um dia. Note o pretérito perfeito.

Hoje em dia, em particular na classe média, cada um considera "família" apenas família nuclear: pai, mãe e filhos pequenos. O resto é gente conhecida que encontramos em festas de casamentos e em velórios. A educação de um filho é um custo potencialmente infinito, e cada um cuida estritamente do seu, pois já é fardo suficiente.

Uma possível solução seria o Estado pagar um salário para a mãe que cuida dos filhos. Existem projetos de lei nessa direção, não só para donas de casa, mas também para inúmeras outras pessoas que fazem trabalhos essenciais porém não remunerados, como cuidar de familiares doentes. Considerando o número de famílias monoparentais do Brasil, o Bolsa-Família é um tipo de compensação nesta direção.

Agora, não quero nem imaginar o potencial de abuso em cima de um mecanismo assim...